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Histórias soterradas sob ferro e lama

Atingidos pelo rompimento das barragens em Minas Gerais aguardam respostas concretas. Mas nenhuma extrairá vidas, memórias, afetos que se foram
Publicado por Juliana Afonso
15:23
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Antonio Cruz / ABr
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O que sobrou de Bento Rodrigues, depois da devastação pelo rompimento da barragem de rejeitos de mineração da Samarco

Domingo era dia de comer feijão com pé de porco no Bar da Una. O prato era preparado um dia antes, para pegar consistência. Enquanto a panela borbulhava, as crianças passavam pelo bar: “Ô, tia, me dá uma bala!”. O potinho de guloseimas já estava reservado. Agora, as lembranças de Darliza das Graças Azevedo, 49 anos, fazem parte do passado. Suas guloseimas, seu bar e sua casa, em Bento Rodrigues, ficaram debaixo da lama após o rompimento das barragens de rejeitos da mineradora Samarco. O desastre de 5 de novembro em Fundão e Santarém esparramou 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro. O mar de lama atingiu Águas Claras, Ponte do Grama, Paracatu, Pedras e Bento Rodrigues, distritos de Mariana, em Minas Gerais. A situação mais dramática foi, sem dúvida, a de Bento Rodrigues. Além das 25 vidas desaparecidas, 613 pessoas desabrigadas, alocadas em hotéis.

Darliza é uma delas. “Eu queria que dessem solução para as famílias que têm criança pequena, porque no hotel tá muito difícil. As crianças tinham liberdade e aqui não dá.” No estabelecimento, cerca de 70 desabrigados ocupam os quartos. A situação é mais delicada quando se leva em conta que não houve critério de relação na divisão dos atingidos, fazendo com que familiares e amigos próximos ficassem separados.

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Darliza: ‘Eu queria que dessem solução para as famílias que têm criança pequena’

Em comunicado, a Vale – que já foi “do Rio Doce” – e a BHP Billiton, proprietárias da Samarco, se responsabilizaram pela reconstrução das casas de todos os atingidos. A prefeitura de Mariana faz reuniões com os moradores para compreender as demandas. Os de Bento Rodrigues querem que o distrito seja reconstruído em outro local. Os de Paracatu, que o distrito seja reconstruído no mesmo lugar. Enquanto as residências definitivas não ficam prontas, os atingidos serão alocados em habitações já existentes.

A Samarco mapeou centenas de casas em diferentes distritos e será responsável pelo valor do aluguel. As garantias financeiras, porém, não reconstroem o Bento Rodrigues que seus moradores conheciam. “Essa foto é da praça lá. A gente sempre reunia os amigos aqui para conversar”, rememora Rosileia Martins, 30 anos, mostrando o que salvou no celular.

Quem vê as fotos da tragédia de Bento Rodrigues mal consegue imaginar como era o distrito, com suas belas casas coloridas, ruas arborizadas e praças ensolaradas. Sua história remonta ao ano de 1697, quando um cabo de mesmo nome chegou em busca de riquezas. Ciente do ouro em grandes quantidades, levantou o acampamento, depois vilarejo, onde se vivia da extração do metal e da troca de mercadorias com os tropeiros. O local exibia um importante patrimônio arquitetônico, do qual faziam parte a Capela de São Bento, construí­da em 1718, e a de Nossa Senhora das Mercês, de meados do século 19, ainda de pé. O interior da igreja também contava com peças importantes.

O artista plástico Eduardo Campos, 44 anos, foi responsável pela restauração das imagens de Nossa Senhora do Rosário, Santana Mestra, Nossa Senhora do Amparo e São Bento. Todas do século 18, todas agora debaixo da lama. “A sensação é de perda de uma parte da história, do nosso patrimônio”, lamenta. Eduardo lembra dos festejos do distrito: a Festa de São Bento, em julho, e a Festa de Nossa Senhora das Mercês, em setembro. “O pessoal de Bento é muito religioso e a comunidade inteira se mobilizava. Aconteciam novenas e procissões de bandeiras e de imagens de santos.”

Era a força do trabalho dos seus moradores, no entanto, que fazia de Bento Rodrigues um local acolhedor. Valdemar Batista, 75 anos, aposentado, fala das muitas casas que ajudou a erguer no distrito. “Teve casa construída lá que eu nem recebi dinheiro”, orgulha-se. Ao pensar no que ficou para trás, Valdemar chora pelos amigos que perdeu.

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Claudia: ‘Lá de cima deu pra ver a lama varrendo tudo. De 200 casas, sobraram 22’

Comunidade tenta se salvar

Cada morador começa a história de um jeito. Douglas diz que caçava iscas para pescar, com o irmão, quando ouviu o barulho da lama se aproximando. Cláudia conta que estava na sala de professores quando notou a gritaria dos alunos. Darliza estava em casa. Ao saber o que estava acontecendo, começaram a correr. “Teve muitos heróis. Muitos voltavam para tirar mais gente da lama. A comunidade se salvou”, conta Rosileia.

Parte dos moradores subiu para o ponto mais alto, onde ainda se encontram as últimas residências do distrito. “Lá de cima deu pra ver a lama varrendo tudo. De 200 casas, sobraram 22”, afirma a historiadora Claudia Rodrigues Novais, 51 anos, professora de Artes na escola do distrito. Ela conta que depois do primeiro momento de desespero, os moradores olhavam atônitos para o que tinha acontecido lá embaixo. Alguns observavam se ainda havia algum pedido de socorro, outros gritavam pelos seus filhos e parentes desaparecidos.

O corpo de bombeiros chegou sem equipamentos suficientes para resgatar pessoas e animais. Quando a lama começou a baixar, chegaram máquinas para tentar abrir passagem e levar as pessoas para o centro. O caminho só foi liberado às 8 da manhã do dia seguinte. Os atingidos tiveram o apoio dos moradores da parte de cima. Foi difícil acreditar na paisagem de lama que se erguia frente aos olhos. Os desabrigados seguem aguardando respostas concretas da prefeitura de Mariana e das empresas. Há ainda o risco de a terceira barragem de rejeitos do complexo minerador, Germano, se romper. É a maior das três. Dez dias depois da queda de Santarém e Fundão, Germano tinha uma trinca de 3 metros.

Ainda assim, os atingidos defendem a continuação da atividade mineradora. “Na região de Mariana, 80% da renda vem da mineração”, afirma o estudante Douglas Elienay Santos, 18 anos. No ano passado, a Samarco pagou cerca de R$ 54 milhões em royalties pela exploração em Minas Gerais. Desse total, ­ R$ 20 milhões ficaram em Mariana. O que a cidade recebeu não chega a 1% do lucro líquido da mineradora no mesmo ano, que foi de R$ 2,8 bilhões.

Bento Rodrigues sempre foi um local humilde, com poucos recursos, e as pessoas trabalhavam com agricultura, fabricação de carvão, garimpo e outras atividades. A chegada da Samarco, em 1977, pouco alterou essa lógica. Alguns atingidos afirmam que dos quase 500 moradores menos de 20 trabalhavam na empresa, com maioria de terceirizados. Segundo cartilha feita em 2013 pela Samarco, 36% da população extraía sua renda por meio de trabalhos formais ou informais, como agricultura e outros serviços, 20% era de aposentados ou pensionistas e 17%, estudantes. Os demais são donas de casa, desempregados, contratos temporários e funcionários públicos.

Havia espaço para iniciativas coletivas, como a Associação de Hortifrutigranjeiros. As mulheres que trabalhavam no local desde 2002 apostaram no plantio e colheita de pimenta biquinho e na transformação da especiaria em geleia. “A gente participava de editais e reinvestia em equipamentos. O dinheiro da venda era dividido entre nós de acordo com as horas trabalhadas”, explica Marinalva dos Santos Salgado, 43 anos. A associação produzia cerca de 500 potes de geleia por mês.

Apesar de não ter produzido muitos empregos diretos para a população de Bento Rodrigues, os moradores afirmam que a Samarco ajuda o distrito com projetos e doações, como equipamento para a escola. Mas o preço a se pagar por esse tipo de empreendimento é caro. “De 2013 pra cá a gente começou a sentir falta de água. Tinha que buscar lá na bica com balde e superlitro (garrafa pet)”, afirma Darliza. Bento Rodrigues fica entre dois rios. “O Ouro Fino ainda está limpo. O pessoal vai lá para torcer roupa, lavar vasilha, mas o Gualaxo está condenado.”

Esses rios fazem parte da bacia hidrográfica do Rio Doce, que neste novembro de 2015 foi vítima de um dos maiores crimes ambientais já vistos. Contra a natureza e contra a vida – e que não se sabe se voltará a existir um dia.