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Fala mansa e teimosa. As lições de seu Gerôncio, do Jardim Edite

Danilo Ramos/RBA Ele partiu no dia 17 de setembro, depois de sofrer atropelamento. Ficou sua lição de fé na união e na justiça De fala mansa e firme, Gerôncio Henrique […]

Danilo Ramos/RBA
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Ele partiu no dia 17 de setembro, depois de sofrer atropelamento. Ficou sua lição de fé na união e na justiça

De fala mansa e firme, Gerôncio Henrique Neto ensinou como a teimosia de uma comunidade – e a dele mesmo – conseguiu transformar em realidade o conjunto habitacional Jardim Edite, na zona sul de São Paulo. Bem no lugar da favela hostilizada pelos prédios que ocuparam ostensivamente o entorno da Avenida Luís Carlos Berrini. Gerôncio se viu líder comunitário “no tempo do Maluf”. De onde vem a persistência?

– Vim para São Paulo fugindo da seca e da fome. E para me tratar de um problema no estômago. Aqui no Edite eu perdi dois filhos. Um morto pela polícia, outro, por bandidos. Mas nunca perdi a fé na justiça. é isso que me move – contou, certa vez.

Durante três décadas, 252 famílias viveram na várzea do córrego Água Espraiada. Suportaram pressões, ameaças, manobras políticas, tentativas de cooptação, incêndio. Em permanente batalha. Até se tornarem moradoras do conjunto erguido na confluência das avenidas Luís Carlos Berrini, Jornalista Roberto Marinho e Chucri Zaidan.

– Há 50 anos, isso aqui era lugar que ninguém queria saber. Mato e enchente. A Berrini se chamava Marginal e corria à beira de um riacho que saía do Água Espraiada – lembrava Gerôncio Henrique Neto, quando recebeu a reportagem da RBA, em novembro de 2013, então com 70 anos.

Os primeiros 150 apartamentos foram entregues em dezembro de 2012. Os últimos, em maio do ano seguinte. Quem observa as pessoas entrando e saindo, as crianças indo e vindo da escola, pode não ter ideia dos anos de incerteza e resistência que essas famílias viveram. Uma prosa no pequeno jardim do prédio é um caminho para reconstruir essa história. Gerôncio foi uma dessas boas prosas.

Ele partiu dia 17 de setembro, depois de sofrer um atropelamento. Deixou no conjunto habitacional Jardim Edite sua lição de fé na justiça. No apartamento 81 do prédio Edite 1, sua mulher, dona Corália, vive com a neta de 20 anos. Uma filha é vizinha no mesmo andar, outra, no 12º e um filho, no 6º. Tem ainda um menino que foi para Votorantim, interior paulista, e outro para o Capão Redondo, periferia da capital. Gerôncio se foi, mas os frutos de sua teimosia ainda moram ali.