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Na várzea, a preocupação é uma só: jogar bola

Futebol passou a fazer tabelinha mais constante com o mundo dos negócios a partir dos anos 1970. Hoje anda em crise, com cartolas investigados e presos

Danilo Ramos / RBA
Produto do morro

Produto do Morro, de Osasco (SP): o time ainda não tem uniforme para todo mundo, mas o importante é estar em campo

Fim de semana no bairro do Helena Maria, em Osasco, região metropolitana de São Paulo. O Produto do Morro se prepara para mais uma partida. Normalmente, cinco carros e uma van são usados para levar o time, quando o jogo é mais distante. “A gente fica meio com dó de não levar a torcida”, diz Robson Lourenço dos Santos, zagueiro e diretor, e fora de campo instalador de TV a cabo. “Jogo firme”, conta. Com 27 anos completados em 31 de maio, Robson joga desde os 9. Já rodou bastante. Anima-se ao falar do Produto do Morro, criado em novembro já sob polêmica, pois uma parte dos moradores queria que se chamasse Zum Zum, nome de um antigo time do bairro. Mas agora o novo time parece se firmar. O nome atual é inspirado no sambista Bezerra da Silva. Ele é “mais ou menos a cara do time”, explica.

Duro mesmo é manter a equipe, com seus 21 atletas. Um novo técnico acaba de ser contratado, mas no final de junho ainda se negociava a vinda de mais duas­ pessoas para fechar a comissão técnica. Uniforme, ainda não tem para todo mundo, nem estádio próprio. “Tem alguns projetos”, diz Robson. A ideia é que cada jogador tenha seu agasalho, sua bolsa. “A gente sabe que na várzea é difícil, mas se Deus quiser tudo vai dar certo.”

Hoje, a principal despesa é com a lavanderia. “É complicado viver de cinco diretores só. A gente se reúne e divide as despesas”, afirma Robson, um dos três corintianos da diretoria – os outros dois torcem para o São Paulo.

Rafael Ribeiro / CBFJose Maria Marin
Preso na Europa: José Maria Marin, que foi governador de São Paulo, escapou de qualquer investigação no Brasil, mas foi pego pelo FBI na Suíça, onde ainda está detido

Ultimamente, as discussões incluíram a crise que assola a Federação Internacional de Futebol (Fifa), com investigação por corrupção e alguns cartolas presos – por enquanto sete, incluindo o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) José Maria Marin. Em 27 de maio, os dirigentes foram detidos pelo FBI norte-americano durante operação realizada em Zurique (Suíça), às vésperas de congresso da Fifa que elegeria sua nova direção. No poder desde 1998, Joseph Blatter foi reeleito. Dias depois, anunciou renúncia, mas vai ficando, enquanto não marcam nova eleição.

“Isso influencia bastante”, diz Robson, comentando o episódio da Fifa. “Esses escândalos aconteciam há muito tempo, mas não vinham a público. Já houve manipulações até no nosso campeonato, o Brasileiro. Não vamos dizer que é o fim. A paixão nunca vai acabar, mas você sabe que por trás disso sempre tem um envolvimento de dinheiro.”

Muito dinheiro. As investigações, que podem alcançar mais gente graúda, incluem suspeita de superfaturamento de contrato da CBF com uma empresa de material esportivo, compra de direitos de transmissão de alguns eventos e suposto pagamento de propina para escolha dos locais das duas próximas Copas do Mundo, previstas para a Rússia (2018) e o Catar (2022).

Geopolítica

O futebol passou a fazer tabelinha mais constante com o mundo dos negócios a partir dos anos 1970, quando se desenvolveu um processo de “mercantilização” do esporte. Não é possível estabelecer uma relação direta com a corrupção, mas os valores envolvidos nesse universo se multiplicaram. Foi também um período de mudança na geopolítica do futebol.

ABrPrédio da CBF RJ
Bela sede da CBF no Rio de Janeiro não combina com a situação de penúria dos clubes brasileiros. O nome de batismo do prédio foi retirado assim que Marin foi preso

“A Fifa era uma entidade europeia”, observa o pesquisador Luiz Rocha, que em 2013 apresentou uma dissertação ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF) sobre presidentes de futebol no Brasil, para refletir sobre “como eles pensavam o poder, a política”. Agora, ele faz uma pesquisa de mestrado com o tema A dança das cadeiras: organização dirigente e politica externa na campanha de João Havelange à Fifa (1968-1976).

Rocha desaprova a declaração de um jornalista inglês, à época da eleição de Havelange, dizendo que a Fifa deixaria de estar “protegida” da política e do dinheiro com a saída de sir Stanley Rous (1895-1986), o antecessor de Havelange. “Em nenhum momento a Fifa esteve livre da política e do dinheiro”, afirma. “E passou a circular muito mais dinheiro na era Blatter”, observa, referindo-se ao sucessor do brasileiro, o suíço Joseph Blatter.

“À medida que o futebol parece se converter em um negócio extremamente lucrativo e as relações capitalistas avançam sobre o modelo de organização do clube, que se convertia num espaço profissionalizado e extremamente mercantilizado, era impossível pensar um sem a outra”, escreveu Rocha em sua dissertação, identificando um “fenômeno social total”, envolvendo uma dimensão simbólica (relativa ao futebol) e outra utilitária, que não podem ser separadas. “A Fifa é um poder”, resume o pesquisador. A entidade tem hoje 210 associados, número que supera o de países-membros da Organização das Nações Unidas (193). Quando Havelange assumiu, eram 146; quando saiu, 196.

Jose Cruz/ Agencia BrasilJoão Havelange
Havelange trouxe a política e o capitalismo para dentro da Fifa, da qual foi presidente durante 24 anos

A Copa do Mundo começou a ser disputada em 1930, com 13 seleções, mesmo número da Copa de 1950, no Brasil, que teve algumas desistências. De 1938 a 1978 (à exceção de 1950), teve 16 países. Passou a 24 em 1982, e desde 1998 jogam 32. A chegada do brasileiro João Havelange à Fifa, em 1974 – desbancando o favorito, Stanley Rous, presidente da entidade de 1961 até perder a eleição para o brasileiro – representou uma guinada rumo ao mundo dos negócios e também na política da entidade, com maior presença de países africanos e asiáticos, que deram sustentação à candidatura.

“Além de dar asas, verba e voz aos dirigentes, Havelange também prometia um equilíbrio de forças no futebol internacional e mudanças internas na Fifa, principalmente em relação às comissões, em que havia poucos sul-americanos, nenhum africano, dois asiáticos e um time inteiro de europeus”, relata o jornalista Ernesto Rodrigues no livro Jogo Duro, de 2007, em que narra a trajetória de Havelange, que permaneceu 24 anos à frente da Fifa, de 1974 a 1998, quando foi sucedido por Blatter, o renunciante que permanece.

Contratos

A federação começou a se tornar multinacional a partir de uma parceria com a alemã Adidas, que a ajudou a assinar seu primeiro grande contrato, em maio de 1976, que – como lembra Rodrigues – previa desembolsos de US$ 7 milhões a cada quatro anos, em troca de estampar a marca da Coca-Cola nas competições internacionais promovidas pela entidade. O jornalista lembra que aquele contrato, modesto para os padrões atuais, permitiu à fabricante entrar em mercados até então fechados a produtos norte-americanos, como o Oriente Médio e a Europa Oriental.

Imediatamente após o episódio das prisões de dirigentes em Zurique, a Adidas se manifestou, afirmando esperar que a Fifa continue “os esforços para estabelecer e seguir padrões de transparência em tudo o que faz”. E acrescentou: “A Adidas é a maior marca de futebol do mundo e vamos continuar a apoiar o futebol em todos os níveis”.

Em entrevista à revista Fórum, o jornalista Luiz Carlos Azenha – um dos autores do livro O Lado Sujo do Futebol, lançado em 2014 – observou que o mar­keting esportivo deve muito ao fundador da fabricante de material esportivo, Horst Dassler. “Ele imaginou que pudessem ser criados grandes pacotes de patrocínio”, lembrou, acrescentando que isso também permitiu a Havelange viabilizar sua política terceiro-mundista.

Uma política externa pragmática, que incluiu, por exemplo, aceitar a China na Fifa, causando mal-estar na ditadura brasileira. “O governo brasileiro ficou possesso”, lembra Luiz Rocha. Ou organizar uma Copa na Argentina, em 1978, em pleno regime dos generais – nesse perío­do, ajudou a localizar e libertar o filho e a nora da estilista Glorinha Paranaguá, conversando diretamente com o presidente, Jorge Rafael Videla.

Na mesma entrevista, Azenha observa que o ex-presidente da CBF Ricardo Teixeira, ex-genro de Havelange e que era cotado para chegar à Fifa, tinha uma visão privada do futebol, apenas como fonte de lucro. “Qual o sentido de, hoje, a CBF estar riquíssima, com um monte de dinheiro em caixa, construindo uma sede maravilhosa, e times subordinados a ela falidos no Brasil inteiro? Isso é não enxergar o sentido público do futebol.” Ele cita as ligas norte-americanas, que buscam equilibrar as competições e os direitos de transmissão. “Já o Teixeira nunca esteve nem aí para isso. Primeiro, ele não conhece nada de futebol, nunca jogou bola, nunca treinou ninguém: ele não gosta. O negócio dele é dinheiro e poder.” O cartola ficou 23 anos na CBF, de 1989 a 2012.

O jornalista acrescenta que há uma concentração do domínio do futebol por poucos clubes. “O futebol brasileiro reproduz o modelo de concentração de renda que há no país, e o Teixeira nunca fez absolutamente nada mudar essa situação – pelo contrário, só trabalhou para aprofundá-lo.”

Gestão responsável

As iniciativas para impor aos clubes uma gestão mais responsável também enfrentam dificuldades para furar a retranca da cartolagem. Em 20 de março, o governo apresentou uma medida provisória (671), que trata de parcelamento das dívidas dos clubes, exigindo contrapartidas – e institui o Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro. A chamada MP do Futebol, que até o final de junho aguardava votação, enfrenta resistência da própria CBF e da chamada bancada da bola no Congresso. Em maio, a vigência da MP foi prorrogada por 60 dias.

Com relatoria do deputado Otavio Leite (PSDB-RJ), a MP limita mandatos na CBF e nas federações, exige que os clubes mantenham em dia salários, direitos de imagem e obrigações tributárias, prevê ingressos ditos populares e dá direito de votos aos atletas nas entidades. O texto tem apoio do Bom Senso, organização criada pelos jogadores profissionais, e óbvia oposição da CBF. Em 25 de junho, a comissão mista (Câmara e Senado) aprovou a MP, que seguiria para votação em plenário, inicialmente na Câmara.

Tanto se opõe que, em abril, o sucessor de José Maria Marin na CBF, Marco Polo Del Nero, foi visitar pessoalmente o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), para pedir “ajustes” no texto. Até então aliado de Marin, assim que este foi preso na Suíça Del Nero tomou duas­ providências: deixou Zurique de forma apressada, antes mesmo da eleição, e mandou tirar o nome do cartola da fachada da sede da CBF, um belo edifício na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro.

Como negócio internacional, o desenvolvimento do esporte é visível pelos números. De 2011 a 2014, a receita da Fifa somou US$ 5,718 bilhões – sendo 43% vindos de direitos vendidos à TV e 29% de ações de marketing –, ante US$ 4,189 bilhões no período imediatamente anterior (2007-2010). As despesas somaram US$ 5,380 bilhões, resultando em lucro de US$ 338 milhões nos quatro últimos anos. Segundo a entidade, durante esse mesmo período os investimentos em programas de desenvolvimento do esporte totalizaram
U$$ 1,052 bilhão.

Na Copa do Mundo do Brasil, apenas os direitos de transmissão renderam US$ 2,428 bilhões, enquanto os patrocínios somaram US$ 1,580 bilhão. A venda de ingressos, em um total de US$ 527 milhões, supera de longe os US$ 80 milhões da Copa disputada 40 anos antes, na Alemanha, mesmo sem considerar a inflação. Na divulgação de seu balanço, a Fifa informou ter reservas de US$ 1,523 bilhão em 31 de dezembro de 2014.

As transações envolvendo atletas também exibem números na casa dos bilhões. De acordo com o TMS, o sistema de transferências da Fifa, esse mercado movimentou US$ 4,1 bilhões no ano passado, em um total de 13.090 negociações, 2,9% a mais do que no ano anterior – 1.493 eram brasileiros. As comissões pagas para agentes somaram US$ 236 milhões.

E os craques?

“O nosso futebol foi grandioso enquanto a várzea era um celeiro de craques. E essas federações, seja Fifa, seja quem for, nunca são dirigidas por quem realmente ama futebol”, diz o jornalista Marco Pezão, repórter de futebol varzeano­, responsável pelo blog Futbolando e um dos criadores do Sarau da Cooperifa, na capital paulista. Acompanha futebol “desde moleque”. O pai tinha um time na Vila Sônia, zona sul paulistana, chamado Alviverde – Pezão, ou Marco Antonio Iadocicco, tem um sobrenome que não esconde as origens. Já foi médio-volante, meia armador, e “depois de velho” foi jogar na defesa.

Danilo Ramos / RBACampeonato de rua
No ano passado, o campeonato mundial de futebol de rua, disputado no Brasil, teve participação de 20 países e 300 jovens

Ele lamenta o empobrecimento não só financeiro, mas da qualidade do futebol. Tinha acabado de assistir Brasil x Peru, na abertura da Copa América, em 14 de junho e não se conformava. “Meu, mas não tem um! Aquele central cabeludo (David Luiz): vai pra reciclagem. Se não fosse o menino…”, diz, referindo-se a Neymar, que no jogo seguinte, contra a Colômbia, seria expulso e suspenso, perdendo o restante da competição.

Para Pezão, a corrupção, que ele considera o grande mal do nosso tempo, não causa estrago só pelo dinheiro. “Corrompe ideia, projeto, tudo.” Mas não chega a ser algo novo, acrescenta. “Claro que o futebol virou um puta de um negócio, claro que isso tudo atrai. Acho que essa prática sempre teve, em escala menor, com menos dinheiro.” Segundo ele, esse é um tema que a várzea dá de bico nos dias de jogos. “O pessoal vai para bater uma bola, ver os amigos.”

E se os grandes clubes passam por dificuldades e ficam rolando indefinidamente suas dúvidas, o futebol amador também tem seus problemas. “É muito gasto, é difícil. Infelizmente, a situação econômica nossa decaiu. O comércio da região ajudava, tinha essa prática corriqueira. Agora, até isso está difícil”, conta Pezão, que é defensor da ideia de que os times devem se tornar associações culturais.

Processo de formação

O futebol deve começar a ser visto de outro modo, sem perder suas características, acredita a responsável pelos projetos de futebol da Ação Educativa, Carolina Moraes. “Acho que a maior resposta que a gente pode dar ao que estamos assistindo é a construção de uma outra perspectiva e de outro diálogo para o futebol”, afirma. “A gente não desconsidera o futebol profissional de maneira nenhuma”, ressalva Carolina, que vê o esporte como potencializador de práticas culturais.

Criada há 11 anos, a associação adota conceitos como o do fútbol callejero (futebol de rua, prática inaugurada nos anos 1990 na Argentina) e acompanha diversas iniciativas espalhadas pelo país, com o futebol dos povos indígenas, o futlama em Macapá, o peladeiros de praia em Maceió e o peladão de Manaus, considerado o maior campeonato de várzea do mundo. Carolina destaca o envolvimento da comunidade (existe também o “peladinho”, para crianças). “É mais conhecido que o próprio futebol profissional de Manaus”, afirma. Essas e outras experiências estarão em foco durante o 2º Encontro Ação e Cultura, que será realizado de 14 a 17 de outubro, em Fortaleza.

O futebol de rua – que no ano passado teve um campeonato mundial disputado no Brasil, com 20 países e 300 jovens e adolescentes – tem delegações, não seleções. Não se joga contra, mas entre. Não há juiz, mas mediador. O jogo é dividido em três tempos – no primeiro, por exemplo, os times combinam as regras, que devem levar em conta princípios de respeito, solidariedade e cooperação.

Carolina insiste que não se trata de propor uma oposição ao futebol profissional, mas de pensar sob outros pontos de vista, combatendo preconceitos e aproveitando o esporte para estimular debates. “É um processo de formação. Você não deixa de jogar. Mas como você discute direitos humanos na perspectiva do futebol?”, questiona. Ela mesmo já jogou bola durante anos. “Também queria ser jogadora profissional, também tinha esse sonho”, diz Carolina, que desenvolve uma pesquisa em pós-graduação sobre a presença de mulheres nas torcidas organizadas.

Para o pesquisador da UFF Luiz Rocha, a solução, no caso do futebol, passa pela participação de outros agentes na gestão do esporte, como jogadores e torcedores. Estudioso da organização esportiva e da influência da política, ele deixa de lado essas questões e reflexões quando vai ao Maracanã ver o Flamengo jogar. “Quando estou no jogo, só penso que a gente precisa de um zagueiro melhor. Não penso que o Blatter foi isso ou aquilo.”

Danilo Ramos / RBAProduto do Morro torcida
Se os grandes clubes passam por dificuldades e ficam rolando indefinidamente suas dúvidas, o futebol amador também tem seus problemas

Em 20 de junho, um sábado ensolarado, o Produto do Morro – preparando-se para um campeonato – entrou em campo no Jardim Rochdale, também em Osasco. Começou perdendo, mas terminou com uma vitória convincente: 7 a 2. “Estamos no caminho certo. E foi bastante torcida”, comemorou Robson, duplamente. Depois, como de hábito, um churrasquinho para jogadores e torcedores, indiferentes ao destino dos senhores do futebol mundial.