Selma Vital

Ao lado da janela, tão producente, tão distraída

Vicente Mendonca Nunca escondi de ninguém minha absoluta fascinação por janelas. Creio que desde sempre, porque não posso me lembrar quando exatamente tudo começou. Amo olhar através de janelas. De […]

Vicente Mendonca
Da minha janela

Nunca escondi de ninguém minha absoluta fascinação por janelas. Creio que desde sempre, porque não posso me lembrar quando exatamente tudo começou. Amo olhar através de janelas. De dentro para fora, de fora para dentro; janelas da casa, do apartamento, do carro, do ônibus, do trem, do avião. Sou janeleira confessa, irresoluta.

Por isso me parece uma feliz coincidência que tenha passado meu primeiro mês como nova residente da Dinamarca em um apartamento de amplas janelas. Não surpreende, portanto, que neste mês e pouco de tantas mudanças, o cantinho do qual me apossei para trabalhar, com o afinco que minha recente e agora inseparável dor nas costas me permite, seja, claro, ao lado da janela.

Como se pode imaginar, trabalhar ao lado da janela é um ponto extremamente positivo para uma janeleira contumaz como a que aqui escreve. Por outro lado, é fator altamente improdutivo se contarmos o poder de distração de uma simples janela.

É bom lembrar ainda que neste princípio de verão a Dinamarca tem nada menos que 18 horas de luz do dia o que, em tese, é um facilitador para nós, janeleiros descarados que observamos incógnitas a rotina alheia, como o mais terrível voyeur. Mas sinto decepcioná-los. O que vejo por meio da bela janela escandinava, presentemente necessitada de limpeza, não tem nada de ilícito ou sensual. Uma amostra?

Vejo ciclistas de todos os tipos e tamanhos, rápidos ou lentos, carregando crianças, cestinhas de palha ou sonhos. Grupos (vários ao dia) de estudantes em excursões pela cidade. Nunca havia visto tantos! Meninos e meninas curiosos ou entediados, do prezinho à adolescência, quase sempre festivos, em filas indianas semiperfeitas e passos sincronizados.

Moças loiras, em madeixas de reflexos cuidadosos de várias tonalidades, inevitavelmente trajando preto (o que pensariam dessa senhora, em suas roupas insolentemente coloridas, cabelos escuros mesclados por desgrenhados e rebeldes grisalhos?). Elas levam longos echarpes emoldurando os jovens pescoços e caminham sem se importar com o vento que sopra incansável.

Vejo os enormes carrinhos de bebê (ao estilo Encouraçado Potemkin ou Brian de Palma, na paródia/homenagem em Os Intocáveis) transitando o dia todo, faça chuva ou sol, empurrados por pais tanto quanto por mães, viva!

Vejo a torre majestosa do prédio em frente e todas as outras janelas, a meu ver tão carentes de quem as valorize… Vejo os ônibus amarelos e os mais sóbrios azuis. Vejo esse céu que muda de tom dezenas de vezes ao dia e que se num momento se carrega de nuvens em outro breve instante me convence, até, que a vida é mesmo bela e que há um arco-íris cortando alguma outra parte de céu.

E que alguém n’alguma parte do mundo também espia de sua janela com curiosidade e esperança.