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Portugal: 40 anos depois, praga do mercado ameaça os cravos

País relembra a Revolução dos Cravos, que em 1974 interrompeu décadas de autoritarismo, mas ainda enfrenta dilemas. Hoje, é o sistema econômico que avança sobre a democracia e as conquistas sociais
Publicado por Vitor Nuzzi
09:41
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 <span>(Estêncil “revolução dos Cravos”. Lisboa, Portugal. Foto sarah sebastião)</span>Mário Soares desembarca em Lisboa: “A riqueza deve ser para os que trabalham, não para os parasitas e os banqueiros” <span>(Henri Bureau/Sygma/Corbis/latinstock)</span>Deolinda: “Sou da geração sem remuneração” <span>(Nuno Galveias/wc)</span>Manifestantes vão às ruas contra o sistema financeiro, que impõe austeridade, desemprego e cortes nos investimentos sociais <span>(Pedro Benavente/imago/keystone brasil)</span>Como foi que nos deixámos
Arrastar para o vazio
De tanto sonho traído
Pelo que não se cumpriu

Resistir de Novo, de José Jorge Letria 
e Carlos Alberto Moniz <span>(Patrícia de Melo Moreira/AFP/Getty Images)</span>

Na madrugada de 25 de abril de 1974, canções tocadas no rádio serviram de senha para o movimento que derrubaria o governo de Portugal e poria fim a décadas de autoritarismo, representadas pelo ditador António Salazar (1889-1970), sucedido pelo general Marcello Caetano. Uma música era Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso, tocada nos primeiros minutos do dia 25. E seria ouvida em 2013 pelo primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, durante uma reunião quinzenal com os deputados, em protesto vindo das galerias. O país avançou para a democracia, mas cinco anos depois do estouro da crise do sistema bancário que espirrou na Europa, vê cada vez mais gente contestar as ações de “ajuste”, por causar empobrecimento e perdas sociais. Na ocasião, Coelho teve de esperar para iniciar sua fala e, ao menos, fez menção ao “bom gosto” do protesto.

Outra canção, esta da nova geração portuguesa, também demonstra suas inquietações. O grupo Deolinda lançou em 2011 o hit instantâneo Parva que eu Sou: “Sou da geração sem remuneração/ E nem me incomoda esta condição/ Que parva que eu sou!/ Porque isto está mal e vai continuar/ Já é uma sorte eu poder estagiar”.

Os ares da revolução de 1974 também chegaram ao Brasil, ainda na forma musical. Na empolgação daqueles primeiros momentos, Chico Buarque compôs Tanto Mar para homenagear o movimento iniciado em Portugal – e evidentemente teve mais essa obra censurada.

Os 40 anos da chamada Revolução dos Cravos, que se completam neste abril, serão motivo para uma série de eventos. O nome entrou para a história devido a flores que eram oferecidas a soldados, em apoio popular ao movimento. Mas enquanto discute seu passado, Portugal se incomoda com o presente.

O operário eletricista Manuel Carvalho da Silva lembra-se de onde estava naquele 25 de abril, quando tinha 25 anos. “Estava a trabalhar numa empresa multinacional do setor eletrônico (Preh), no Porto. Começávamos a trabalhar às 7h30. Passamos quase todo o dia, eu e outros colegas, a conversar sobre o que poderia acontecer”, lembra o ex-sindicalista e hoje sociólogo e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

Para ele, do ponto de vista de ideais, como liberdade e soberania, muita coisa permaneceu daquele movimento. “A sociedade sofreu uma transformação profunda. Uma transformação extraordinariamente positiva na saúde, no ensino, nas comunicações. Hoje, há um retrocesso. Portugal está mais pobre, há mais imigração”, afirma Silva.

Ele é um dos 74 signatários de manifesto pela renegociação da dívida pública portuguesa divulgado em março pelo jornal Público. O documento, que reuniu expoentes de diferentes espectros ideológicos, sustenta que sem a reestruturação a situação do país só irá piorar, com “níveis inaceitáveis” de desemprego, precariedade do trabalho, emigração de jovens qualificados. Enfim, “crescerão os elevados custos humanos da crise”. Passos Coelho classificou o manifesto de “irrealista”, ao que Silva reage: “Irrealista é continuar a submeter os portugueses a uma dívida que é cada vez maior. Essa política não pode continuar. Objetivamente, é uma política de empobrecimento da sociedade”.

Transformação

Mário Soares era dirigente do Partido Socialista e estava exilado quando veio a Revolução dos Cravos. Seu desembarque de trem em Lisboa, em 28 de abril, foi um acontecimento. Estava lá para recebê-lo o general António de Spínola, do Movimento das Forças Armadas (MFA), que assumiria a chamada Junta de Salvação Nacional e seria o primeiro presidente pós 25 de abril – mas que renunciou quatro meses depois, em meio a desentendimentos entre as forças que participaram do movimento.

Uma frase pronunciada por Mário Soares no retorno parece preservar atualidade: “A riqueza deve ser para os que trabalham e não para os parasitas e os banqueiros”. Quarenta anos depois, em artigo no Diário de Notícias, o ex-presidente português (1986-1996) atacou o atual mandatário, Cavaco Silva – que nunca usou cravos na lapela “talvez para mostrar à direita, a que pertence, que gosta mais do 28 de Maio de 1926, que abriu portas à ditadura, do que do 25 de abril de 1974”. Além da crítica política, Soares repete, com outras palavras, o comentário de 40 anos antes, ao se referir ao “estado desgraçado” a que Portugal chegou nos tempos atuais. “Só pensa (o presidente) nos mercados e ignora as pessoas.”

Portugal acumula três PIBs negativos consecutivos (-1,4% em 2013, -3,2% em 2012 e -1,3% em 2011). A taxa de desemprego segue alta, em torno de 15% a 16%, o equivalente a mais de 800 mil pessoas à procura de trabalho, em um universo de 5 milhões de pessoas no mercado. Grande parte das críticas recai sobre a chamada Troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e União Europeia) e às condições de austeridade impostas ao país para equilibrar as finanças. Até um movimento foi criado nas redes sociais com o nome de “Que se lixe a Troika”.

Ao falar das comemorações pelos 40 anos, a Associação 25 de Abril apresentou um logotipo com um ponto de interrogação, para simbolizar a incerteza dos tempos atuais. E também uma canção. Com o título Resistir de Novo, de José Jorge Letria e Carlos Alberto Moniz: “Como foi que nos deixámos/ Arrastar para o vazio/ De tanto sonho traído/ Pelo que não se cumpriu”. E com ataques aos principais centros de decisões políticas e econômicas do continente: “Somos ficha de cassino/ em Bruxelas e Berlim/ Neste jogo de pilhagem/ Que parece não ter fim”. O presidente da associação, Vasco Lourenço, diz que o povo português “não pode continuar a aguentar a sela que lhe colocaram em cima”. Veterano de 1974, ele pertencia ao MFA, que estava à frente da revolução.

Para Manuel Silva, a adesão de Portugal ao euro não foi bem discutida. “Hoje está provado que entramos na moeda única sem avaliar as consequências. A sobrevalorização da moeda levou a uma ilusão de riqueza e a déficits muito profundos”, diz. “O euro, enquanto moeda única, transformou-se num instrumento de uma Europa dicotômica, dividida. Alguns se beneficiam e outros pagam por isso.”

O economista e professor Francisco Louçã, ex-líder do partido Bloco de Esquerda e cotado para a sucessão de Cavaco Silva, diz que o euro “acentua as recessões em vez de as combater” e que sair da moeda única pode ser uma solução. “Mas tem um preço social importante. É, no entanto, evidente que as autoridades europeias, com Merkel (a primeira-ministra alemã, Angela Merkel) à cabeça, estão a deixar muito poucas alternativas aos paí­ses mais sacrificados pela austeridade e pela diminuição dos rendimentos.”

Modernidade

Louçã também foi signatário do manifesto, que para ele aponta uma prioridade evidente: reestruturar a dívida e acabar com as políticas de austeridade, na direção de medidas econômicas para o investimento e o emprego. “Não existe outra solução, essa é a primeira condição para a recuperação.” Ele defende a democracia construída a partir de 1974, e alerta que a injustiça não pode se constituir num regime de poder. “Mas essa é uma disputa da modernidade, quando o capital financeiro e os seus profetas liberais impõem a redução dos salários e das pensões, ou o aumento do desemprego para níveis históricos”, observa.

Com 17 anos à época da revolução, Louçã lembra que integrava uma organização antifascista que, já a par do que aconteceria, organizava a resposta popular para o que chama de “explosão de democracia”. “Concentrávamos muito na ideia de terminar a guerra colonial (Portugal tinha colônias na África, que foram conquistando sua independência), o que veio a ser o principal conflito político dos primeiros dias da revolução – e a guerra acabou.”

Também para ele, a data marcou definitivamente. “Tenho uma memória muito presente desses dias magníficos. O povo encheu as ruas e Portugal chegou ao século 20.”