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Padre Cícero e uma nova probabilidade sobre as enchentes

Vicente Mendonça “Todo rio tem o direito de transbordar na época das chuvas”, ouvi de um urbanista. E ele tem razão. Não sei por que as pessoas ficam reclamando quando […]

Vicente Mendonça

“Todo rio tem o direito de transbordar na época das chuvas”, ouvi de um urbanista. E ele tem razão. Não sei por que as pessoas ficam reclamando quando as águas saem dos leitos dos rios e ocupam ruas e avenidas, invadem casas e “provocam” tragédias, como no ano anterior e no anterior ao anterior. Bom, nem sempre é igual ao ano anterior. A cada ano, em alguns lugares, as enchentes ocupam espaços maiores, invadem mais ruas, avenidas e casas. Claro: a cada ano constroem mais casas e prédios nas proximidades dos rios, e asfaltam ou alargam mais ruas. E pra onde vai a água do rio cheio, que tem o direito de transbordar?

Lembro de quando foi construído, em São Paulo, o Memorial da América Latina,­ uma obra importante, mas que ocupou e impermeabilizou um grande espaço de várzeas que as águas das chuvas usavam para serem absorvidas pelo solo. Um geógrafo me disse: “Vai começar a ter enchente até na Avenida Pacaembu”. Batata! As enxurradas da Avenida Pacaembu passaram a encontrar uma barreira de cimento pela frente, e haja enchentes. A coisa só abrandou quando foi construído um “piscinão” ali, durante o governo de Luiza Erundina na prefeitura.

Mais recentemente, vi políticos festejando o alargamento da Marginal do Rio Tietê. “Não teremos mais tantos engarrafamentos de trânsito ali”, garantiam. E muitos jornalistas, que parece terem esquecido formas lógicas de raciocinar, acreditaram, ou fingiram acreditar. “Vêm aí mais enchentes. Nas próximas chuvas, a área alagada vai ser muito maior”, eu disse para alguns, que torceram o nariz. “Tudo que é obra de tucano ele encontra defeitos”, diziam.

Apesar de não gostar dos tucanos (os sem-pena), meu pensamento não era por aí. Era na linha do que hoje tanto se comenta: não adianta privilegiar o transporte individual, os automóveis. Por mais que se criem e se alarguem ruas e avenidas, elas serão ocupadas e entupidas pelos carros que se multiplicam ano a ano.

O resultado apareceu com as primeiras chuvas fortes. Liguei a televisão e vi cenas transmitidas por helicópteros, de casas invadidas pelas águas onde nunca tinha acontecido isso. E repórteres entrevistavam moradores falando dos prejuízos. “É a primeira vez que a água chegou até aqui”, diziam.

Será que choveu mais? Nem sempre é isso. Quase sempre é o resultado da expansão de áreas de impermeabilização do solo. Com as várzeas do rio Tietê ocupadas por mais e mais asfalto e cimento, menos terá espaço para o fluxo natural das águas. E mais encrencas. Alguém já pensou por que o futebol amador se chamava “futebol de várzea”, em São Paulo? Segundo li, havia mais de mil campos de futebol nas várzeas do Tietê. Hoje, no lugar desses campos, há avenidas, fábricas, favelas, prédios…

Por falar nisso, sempre culpam as favelas pela ocupação de áreas públicas. Mas quem se der o trabalho de estudar o assunto pode ter surpresas. Certa vez o jornal Shopping News fez uma grande apuração sobre esses fenômenos e revelou que 91% das terras públicas ocupadas irregularmente não eram por favelas, mas por empresas, quer dizer grandes empresas, inclusive shopping centers.

Mas ainda tem gente que ignora a necessidade da terra de ter preservada sua capacidade de absorver as águas das chuvas. Alguns consideram até a vontade divina como causa das enchentes. Meu amigo Luizão, paranaense casado com uma pernambucana, tem uma teoria muito particular. Ele culpa o Padre Cícero e a burocracia do céu. “Os nordestinos vão em romaria a Juazeiro do Norte, no Ceará, e pedem ao Padre Cícero que mande chuva para eles. Mas a chuva demora, eles vêm pra São Paulo, e quando o Padre vai atender ao pedido, manda chover onde eles estão. É por isso que chove mais aqui.”

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