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A via-sacra de Portinari. E sua obra ganhará a merecida restauração

Obras do mais conhecido pintor brasileiro em Batatais (SP) começam a ser recuperadas. Telas sacras causaram reação da igreja por ter sido pintadas por um comunista

Portinari <span>(Lucas Mamede)</span>As 28 telas de Portinari serão restauradas na própria igreja, de onde nunca saíram por exigência do termo de doação <span>(Lucas Mamede)</span>A atual Igreja Matriz de Batatais começou a ser construída em 1928, com projeto do arquiteto italiano Julio Latini. Seus vitrais têm a marca da Casa Conrado <span>(Lucas Mamede)</span>Por dentro e por fora a grandiosa igreja, por onde passam 3.500 visitantes por mês, também precisa de restauro <span>(Lucas Mamede)</span>Squarisi trabalha na igreja há 35 anos: “José olha para Maria, Maria olha para o infinito e o menino Jesus olha para todos” (sobre Fuga para o Egito) <span>(Lucas Mamede)</span>Artista com preocupações sociais, Portinari morreu aos 58 anos <span>(Lucas Mamede)</span>Nacime não conhecia o Rio de Janeiro e se ofereceu para buscar os quadros, que recebeu das mãos da irmã do pintor: “Compramos 50 quilos de farinha para diminuir a trepidação”, conta <span>(Lucas Mamede)</span>A restauradora já trabalhou em obras de Portinari  <span>(regina de grammont/rba)</span>

Em 2012 e 2013, as pessoas formaram filas para ver Guerra e Paz, de Candido Portinari. Era uma rara chance de admirar os painéis pintados de 1952 a 1956 para presentear a Organização das Nações Unidas. Os quadros de 14 metros de largura por 10 de altura saíram de Nova York para uma exposição por algumas cidades brasileiras. Passariam também por Paris antes de voltar à sede da ONU. Quando começou a planejar aquela que se tornaria a sua obra mais famosa, o artista plástico tinha outro projeto em execução, perto de sua cidade natal, Brodowski, no interior paulista. É um conjunto de obras sacras expostas na Igreja Matriz de Batatais (a quase 400 quilômetros de São Paulo), que a partir deste dezembro, após anos de indefinição e pendências legais, passará por um processo de restauração, até o final de 2014.

Será um trabalho diferente do habitual, pois o ateliê é que terá de ir às obras, como observa a restauradora Florence Maria White de Vera, responsável pela recuperação das telas. “A nossa preocupação é que as obras estão em um espaço público. Elas nunca saíram e não podem sair da igreja, por exigência do termo de doação. É uma coleção importantíssima.”

São 28 telas de Portinari, 14 destinadas à via-sacra de Jesus, tombadas em 1982 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo (Condephaat), que informa ter feito uma restauração em 1975.

“Apresentação de Cristo a Pilatos, o impacto do peso da cruz, o ponto mais elevado do sofrimento, o fim da esperança, luz para a vida, luz para o mundo, vida material para a espiritual…”, enumera Antonio Otávio Squarisi, que há 35 anos trabalha como guia na igreja, por onde passam 3.500 visitantes por mês. Estão lá também obras como a Sagrada Família (“José olha para Maria, Maria olha para o infinito e o menino Jesus olha para todos”) e Fuga para o Egito, “obra pintada em um momento de angústia”.

Sobre o altar principal fica a tela que mostra Jesus e os apóstolos. “À esquerda (de Cristo), os seis menos amigos, com cores mortas, fisionomias amedrontadas. À direita, os seis mais amigos, o colorido é maior, há mais vida”, narra Squarisi, que era soldado da Polícia Militar antes de virar guia. “Comecei a ler todos os livros.” Na parte de baixo da tela, dois ­arcanjos, um com aparência masculina e outro, feminina. Acima, uma pomba e um arco-íris, representando o Espírito Santo.

Justiça

No plano terreno, as obras do mais conhecido artista plástico brasileiro foram objeto de uma contenda judicial. Com algumas telas mostrando sinais de desgaste, ficou clara a necessidade de um processo de restauração. Mas nem todas eram tombadas, o que retardou o projeto. O Ministério Público Federal em Ribeirão Preto impetrou uma ação civil pública, acolhida parcialmente pela Justiça, para que a União, o estado de São Paulo, a prefeitura de Batatais e a Igreja Senhor Bom Jesus da Cana Verde comprovassem a contratação de uma empresa especializada para fazer a restauração.

“Estamos há mais de um ano fazendo reuniões, acionando o Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Nunca houve uma restauração. A própria igreja tem de mudar sua estrutura. É uma pena ter de existir um caso como esse”, afirma o procurador da República Uendel Domingos Ugatti, que viu na situação um jogo de empurra. “Parece que houve uma omissão dos entes públicos”, diz.

“O município tem toda a noção do que essas obras representam”, reage o secretário de Turismo de Batatais, Antonio Carlos Corrêa. “Tivemos de aguardar todo o trâmite”, acrescenta. Segundo ele, todas as providências vêm sendo tomadas desde 2009, quando era evidente a necessidade de restauração das obras. O secretário diz que as principais dificuldades estavam relacionadas ao processo de tombamento e a condições impostas pelo Iphan, como a retirada de telas de outros artistas, também expostas na igreja. “Agora, já estamos com o dinheiro na conta.”

A prefeitura informa que a Secretaria de Estado da Cultura liberou R$ 355 mil para o trabalho. Segundo o secretário, recursos do Fundo de Melhoria das Estâncias só poderiam ser usados para obras de infraestrutura. “É importante citar que as obras estão sob guarda e propriedade da Cúria, impossibilitando o repasse de recursos públicos. Para tanto, foi necessário que a Igreja solicitasse o tombamento das demais obras ao Condephaat.” Batatais é uma das 67 cidades-estância no estado – que recebem verbas do Departamento de Apoio ao Desenvolvimento das Estâncias (Dade), vinculado à Secretaria de Turismo.

Neto de um dos marmoristas que trabalharam na Matriz, o advogado Túlio Pires de Carvalho, representante da igreja, conta que com as suspeitas de danos nas telas o padre Pedro Bartolomeu, pároco local, notificou os órgãos públicos. “Na minha opinião, a Igreja é vítima. Vamos dar entrada no Condephaat para que a própria igreja seja tombada também.” Ele acredita que a restauração pode ser a primeira fase de um projeto mais amplo, que inclua um documentário para registro histórico e uma nova organização para receber os visitantes.

Com 60 mil habitantes, Batatais fica a apenas 12 quilômetros de Brodowski (23 mil), onde nasceu Portinari, em dezembro de 1903. Ele foi batizado exatamente na Igreja Matriz do Bom Jesus da Cana Verde, que leva esse nome em referência a um momento narrado pelo Evangelho em que soldados tentam ridicularizar Cristo, colocando um pedaço de cana em suas mãos, como se fosse um cetro. A atual igreja acaba de completar 60 anos (a original é do século 19). Começou a ser construída em 1928, com projeto do arquiteto italiano Julio Latini. Posteriormente, a obra ficou sob o comando do também italiano Carlos Zamboni, natural de Brescia – em cuja catedral se inspirou.

Os vitrais têm a marca da Casa Conrado, pioneira nesse ramo no Brasil, fundada em 1889. A história do ateliê começa em 1874, com a chegada do alemão Conrado Sorgenicht, e continua com os descendentes. A casa também assina obras em marcos da cidade de São Paulo, como o Mercado Municipal, o Teatro Municipal, a Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, e a Casa das Rosas, na Avenida Paulista.

A inauguração da Igreja Matriz, em 14 de março de 1953, foi precedida de alguma polêmica – as autoridades religiosas resistiram à escolha de Candido Portinari, que era filiado ao Partido Comunista e havia sido candidato ao Senado em 1947, pouco antes da cassação da legenda.

Liberdade

“Como sempre, fiz o melhor que pude. Mas quem vai julgar é o público”, declarou o artista ao jornal Folha da Noite. “Não fiz concessões nem de ordem política, nem de ordem artística. Não houve, pois, como querem alguns críticos, recuo de nenhuma natureza. Trabalhei com absoluta liberdade na realização dos quadros. Aliás, devo assinalar que a Comissão das Obras da Matriz, que me havia convidado para decorar a igreja, resistiu bravamente a todas as tentativas de perturbar essa liberdade e garantiu o compromisso que assumira comigo nesse sentido.”

O guia Squarisi conta que “as senhoras capitalistas” conseguiram vetar a instalação de algumas obras no local. Quem eram elas? As esposas dos fazendeiros do café, responde. Portinari nasceu em um cafezal. Seus pais, Baptista e Dominga Torquato, trabalhavam na terra, e um de seus quadros mais conhecidos, pintado nos anos 1930, é justamente O Lavrador de Café. “Num pé de café nasci,/ O trenzinho passava/ Por entre a plantação”, diz um dos poemas do escritor bissexto. Ele também falou dos retirantes, tema de obra conhecida, “pedregulhos doloridos como fagulhas de carvão aceso”.

Quase dez anos antes do trabalho em Batatais, entre 1944 e 1945, Portinari já havia pintado uma via-sacra, para a Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, em Belo Horizonte, obra de Oscar Niemeyer com jardins do paisagista ­Burle Marx. Encomenda do então prefeito Juscelino Kubitschek. Ali também houve polêmica com a igreja, entre outros motivos pelas figuras deformadas e pela presença de um cachorro no lugar do lobo junto a São Francisco. O culto na igreja foi proibido durante mais de uma década. “Naquelas figuras, houve maior preocupação do desenho. Nas telas de Batatais, há mais pinturas. É a predominância da cor”, comparou o artista.

A instalação das telas no altar principal e nas laterais da igreja de Batatais foi acompanhada pessoalmente por Portinari, que doou nove das obras – as outras foram doa­das por mecenas. Segundo o Condephaat, depois da morte do artista, em 1962, o altar foi reformado e as molduras originais, substituídas por um nicho em cimento e granito.

Os novos chassis, bases das telas, deverão ser de alumínio, possivelmente a exemplo do que já foi feito em restauração de obras de Portinari no Banco Central, em 2007 e 2008.

Aos 86 anos, o empresário batataense Nacime Mansur lembra de quando foi buscar as telas no Rio de Janeiro. Ele não conhecia Portinari – “sabia que era um grande pintor” –, mas, “abelhudo”, queria conhecer o Rio. Trabalhava no armazém de secos e molhados do pai, e hoje é dono de uma loja de materiais de construção. “O Candinho morava na Avenida Atlântica…  A irmã dele entregou os quadros. Para diminuir a trepidação, compramos 50 quilos de farinha”, lembra Nacime, também escritor e contador de histórias. Naquela época, 1952, a viagem entre São Paulo e Rio levava aproximadamente 12 horas. “Candinho estava esperando (em Brodowski). Deixamos lá para ele fazer os últimos retoques. Ele me deu um moeda de mil réis.”

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Tintas da vida e da morte

Em 1953, quando foi inaugurada a Igreja Matriz de Batatais e as telas religiosas passaram a fazer parte da decoração – e depois do roteiro turístico –, Portinari já mostrava sintomas da doença que o mataria em menos de dez anos. Ele chegou a ser internado após uma hemorragia intestinal. A arte que lhe deu fama e eternidade também abreviou sua vida: Portinari foi sendo envenenado por substâncias contidas em determinadas tintas. Quando fez Guerra e Paz, por exemplo, estava proibido de pintar, mas se dedicou por quatro anos à obra.

Seu primeiro desenho conhecido e documentado é de quando tinha 10 anos: Retrato de Carlos Gomes. Segundo o Projeto Portinari, que preserva e divulga a obra do artista, foi feito para homenagear a banda na qual o pai tocava tuba. “Serviram-lhe de inspiração a marca de cigarros com o mesmo nome, muito conhecida nessa época, e uma fotografia do compositor.”

Em 1919, se muda para o Rio e vai estudar na Escola Nacional de Belas Artes. A tela Baile na Roça, de 1924, é tida como a primeira de temática brasileira, que se tornaria a marca do autor. Em 1928 ganha uma viagem à Europa e conhecerá a uruguaia Maria Victoria Martinelli, com quem ficará até o fim da vida. Em 1939, o casal teve um filho, João Candido, responsável pelo Projeto Portinari.

Portinari integrou uma geração de artistas vindos do pós-guerra, com formação humanista e preocupação social. Pareceu natural a opção pelo PCB, a exemplo de Graciliano Ramos, Oduvaldo Vianna, Di Cavalcanti e Oscar Niemeyer, entre outros Autor de biografia sobre Graciliano, o professor Dênis de Moraes registra troca de correspondências entre o escritor e o pintor, além de depoimento de Maria, para quem Portinari via Graciliano como irmão mais velho: “Ambos eram do interior e muito sofridos, preocupavam-se com a miséria de nosso povo e estavam unidos pela mesma crença política”.

Em 1945, o Partidão elege Luiz Carlos Prestes para o Senado e Jorge Amado deputado. Portinari foi candidato naquele ano e também em 1947, quando esteve perto de se tornar senador. Pouco depois, o partido voltaria à clandestinidade – e o artista parte para “exílio voluntário” no Uruguai. Chegou a ser proibido de entrar na França em 1961, só obtendo um visto de 60 dias após um acordo para que não fizesse declarações políticas. Já estava doente, intoxicado pelas tintas.

Morre em 6 de fevereiro de 1962, aos 58 anos, no Rio. Em seu velório estavam JK, comunistas já clandestinos como Prestes e Carlos Marighella, e o governador Carlos Lacerda, um anticomunista. O escritor Antonio Callado cita sua obra como “um protesto contra essa falta de intimidade que existe entre nós e aquilo que se chama realidade brasileira”. Carlos Drummond de Andrade dedica-lhe o poema A Mão: “Entre o cafezal e o sonho/ o garoto pinta uma estrela dourada/ na parede da capela, e nada mais resiste à mão pintora./ A mão cresce e pinta/o que não é para ser pintado mas sofrido”. Segundo o poeta, Portinari tinha “a mão-de-olhos-azuis”.

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O desafio da restauração

Ao entrar na Igreja Matriz de Batatais, chama a atenção a tela que mostra Jesus e os apóstolos, acima do altar principal. As obras de Portinari estão espalhadas pelas paredes. De perto, é possível notar danos em algumas. O caso mais evidente é A Sagrada Família (1,37 por 1,58 metro), que há alguns anos passou por processo de descupinização – ainda se veem pequenos furos no canto inferior direito. A restauração enfrentará desafios impostos pela policromia (várias cores em uma mesma superfície), perfurações de cupins e limpeza.

O local não é o mais adequado para abrigar essas obras, por questões de luminosidade e climatização, o que mais adiante deverá exigir adaptações. Também há o envelhecimento natural das obras. A restauradora Florence Maria White de Vera já atuou na recuperação de acervo de Portinari na sede do Banco Central, em Brasília – são 15 tela­s dos anos 1950, parte de uma série chamada Cenas Brasileiras. O conjunto foi encomendado por Assis Chateaubriand para decorar o saguão da revista O Cruzeiro.

Mesmo destacando a importância da obra de Portinari, a restauradora observa que o trabalho é importante independentemente do autor. O ateliê será instalado em um espaço na parte superior da igreja. Durante 15 dias por mês, ao longo de quase um ano, quatro técnicos se dedicarão ao trabalho. “À medida do possível, a gente vai permitir visitações. É importante que o público acompanhe.”

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