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A transformação do barro em arte no interior de Pernambuco

A intervenção do trabalho e do talento, dos pés às mãos, na fabricação de peças utilitárias que têm a terra como matéria-prima

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Os salários, pagos geralmente por semana, vão de R$ 150 a R$ 360, sendo o mais baixo o de servente e o maior o de oleiro

Tudo pode parecer uma tremenda bagunça aos olhos desavisados, uma situação desgovernada em que ninguém se entende, tal o vaivém de enlameados. Mas cada um sabe bem a tarefa que exerce. As funções são sabiamente decididas, e do trabalho de cada um depende o sucesso da coletividade. Panela de Formiga é a tradução da palavra tupi-guarani tracunhaém – que também dá nome a uma cidade da zona da mata norte de Pernambuco, a 65 quilômetros de Recife. As formigas podem ser uma representação do papel dos trabalhadores de uma olaria; a panela, onde são produzidos filtros, moringas, jarras, quartinhas, panelas, mealheiros e outros artigos de barro, em diversos tamanhos e formas.

O trabalho é todo feito em conjunto, passando de uma mão a outra até chegar ao ponto em que as peças são distribuídas para os revendedores. Um processo em que, se uma engrenagem humana falha, toda a linha de produção é comprometida. As mãos que puxam o barro do chão encontram outras que o passam numa máquina semelhante a uma moenda, a produzir uma liga homogênea. Outros pares de mãos a conduzem a um galpão, onde aguardam criativas mãos e pés de oleiros. Antes, entretanto, há dedos que catam do barro as impurezas, pequenos e inconvenientes grãos de pedra, e palmas que modelam bolas, no tamanho exato de cada peça que se quer fazer.

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Torneadas, as bolas são carregadas por braços e pernas para outros galpões, onde precisam de dois processos de secagem. Primeiro descansam por cerca de seis horas. Decorrido esse tempo, são levadas às mãos dos brunidores, talentosas para o trabalho de polimento. Quem as traz sem brunir, as leva polidas de volta ao mesmo lugar. Por outras 12 a 24 horas – dependendo da peça confeccionada e da programação da olaria – serão deitadas ao chão, à sombra, até novas e velhas mãos e pés e pernas e braços as conduzirem aos fornos, onde o barro conhece o fogo. E a cerâmica nasce para tomar lugar no cotidiano nordestino.

Para a queima das peças, primeiro é preciso empilhá-las nos fornos. Uma a uma, são postas como quem monta um quebra-cabeça, obedecendo às necessidades de colocar o máximo de objetos com a melhor disposição, de modo que o calor circule uniforme entre elas. Conseguido isso, é iniciado o processo de cozimento, que consumirá cerca de oito horas e muitos metros cúbicos de lenha. A queima, ou cozimento, da cerâmica é feita pelas altas temperaturas obtidas com a brasa que vai sendo produzida dentro dos fornos, um processo lento e gradual, de cerca de seis horas, chamado de esquenta.

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Para a queima das peças, primeiro é preciso empilhá-las nos fornos. Uma a uma são postas como quem monta um quebra-cabeça, obedecendo às necessidades de colocar o máximo de objetos com a melhor disposição, de modo que o calor circule uniforme entre elas

Ao fim desse processo, o forno está vermelho de brasas e as temperaturas já atingem entre 600 e 800 graus centígrados. Agora é hora do cardeio, adicionando toras de madeira em grande quantidade, de forma a elevar o calor sobre as peças. O fogo se alteia em labaredas que tocam as peças como se estivessem lambendo uma a uma. O cardeio perdura de uma a duas horas. Esperam-se pelo menos outras 12 horas para retirar as peças dos fornos. As que precisam de um toque final o recebem pelas mãos dos pintores, outras vão direto para os embaladores e depois passadas aos carregadores, que abastecem os caminhões que vão e vêm, levando e buscando a tradição que é espalhada por todos os cantos e cidades do Nordeste.

Os irmãos Pedro e Sebastião do Prado trabalham juntos na olaria que mantêm em Tracunhaém, empregando cerca de 60 trabalhadores. As funções são divididas em catador (limpa o barro de impurezas), pisador (mistura o barro antes de ir para a maromba, a máquina que dá a liga certa do barro), brunidor (faz o polimento das peças antes de serem levadas ao forno), queimador de forno (responsável pelo cozimento das peças), oleiro (que modela as peças no torno) e serventes (fazem serviços gerais). Os salários, pagos geralmente por semana, vão de R$ 150 a R$ 360, sendo o mais baixo o de servente e o maior o de oleiro.

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“Eu praticamente nasci dentro do barro”, avalia o oleiro ­Edvaldo Pereira da Silva, 49 anos. “Meu pai me ensinou a trabalhar com o torno quando eu tinha 9 anos.” Uma vida inteira tirada do ofício. Em uma semana cada oleiro chega a moldar 200 filtros, peça que é o carro-chefe da produção. Um programa do governo estadual destina milhares deles a famílias que sofrem os efeitos da seca. Um incentivo para que as pessoas filtrem a água antes de consumi-la.

Além dos filtros, as moringas são objetos comuns nas casas do interior do Nordeste. Trata-se de vasos bojudos e de gargalos estreitos, usados para acondicionar e conservar fresca a água. “Enterradas, gelam a água melhor que uma geladeira, ela fica mais gostosa”, ensina Pedro Ismael do Prado. A técnica foi comprovada pela reportagem. A água fica refrescante e numa temperatura prazerosa de consumir. Assim como comer o feijão e o peixe com maxixe cozidos nas caçarolas e panelas de barro é muito mais gostoso.

As quartinhas são pequenos recipientes para água potável, com ou sem tampa, utilizadas pelos sertanejos nas incursões pela caatinga. Mealheiros são pequenos cofres com uma fenda por onde se enfiam moedas para economia, uma espécie de poupança popular também comum na região. Há diversas variações para a palavra no Nordeste, como miaeiro, milhaeiro ou minhaeiro. E, para cada economia consumida, um novo mealheiro é posto em ação para manter a tradição e sustentar a produção.