cultura

Ilê Aiyê: 40 anos de ritmo, força e raça na Bahia

Criado em plena ditadura, o grupo expõe a dignidade e a beleza da luta antirracista, inspirando de ritmos libertários ao ensino da história afro-brasileira

Cassimano
ilê aiyê

A paisagem sonora faz dançar, entoar versos, beijar. O cortejo acaricia a noite e as cicatrizes cotidianas que há séculos arranham a pele preta. Imperam congas, surdos, repiques, timbaus. Milhares de pessoas sobem o Curuzu, no bairro da Liberdade, em Salvador. “É hoje a saída do Ilê, você vai?” O asfalto e as paredes trepidam. “É na frente do terreiro, os percussionistas vestidos com a roupa do cortejo esperam as pombas, as cornetas e a pipoca sagrada, que é a bênção da Iyá. Eu chego cedo pra ver esse rio negro enchendo, inundando os becos, as ruelas e as ladeiras”, diz Daniela Luciana, associada do Ilê Aiyê há dez anos.

Orgulhosa, a abertura do carnaval do Ilê traz grandeza ao povo do bairro e de Pero Vaz, Boa Vista de São Caetano, Fazenda Grande do Retiro, Paripe e de tantas quebradas, vielas e escadarias de Salvador, há séculos violentadas. As vestes esbanjam elegância e cor, o cortejo é fino. “O mais belo dos belos” vem cantando reinos antigos, guerreiros contemporâneos, ciências milenares. Daniela ressalta: “Eu vou sentindo, cantando e sorrindo, vendo o trabalho de um ano ganhar corpo na rua. São médicos, motoristas, professoras, garis, baianas de acarajé, com suas fantasias esplêndidas de herança africana na saída do Ilê Aiyê, e aqui se misturam aos universitários, turistas e moradores. Sem cordas. O Curuzu não comporta amarras. Cada passo é lento e ritmado, cada movimento é denso. E é tanta gente aqui em volta que o espaço precisa ser bem usado para dançar”.

Em quatro décadas de percussão tesa, o Ilê almeja, sim, a divisão de poder. Na­ ­capital da Bahia, segue escancarada a­ ­divisão entre a podridão e o luxo, a marca de cor entre quem é esbofeteado, encarcerado ou assassinado e a leva de “gente bonita”, como Claudia Leitte defi­niu seus pares e seu público pagante no circuito carnavalesco da Barra-Ondina.

A história dos africanos não começa com o cativeiro, mas em calendários antigos, repletos de conhecimento geográfico, arquitetônico, matemático, astronômico, estético. Assim o Ilê Aiyê organiza um revide civilizatório, um reinado de autopreservação e resistência. E promove inspiração. Como conta Beth Belli, diretora do Bloco Ilú Obá de Min, que há anos abre o carnaval paulistano com sua bateria composta apenas por mulheres: “O que me inspirou foi ter ido à Bahia em 1990, ver o bloco do Ilê. Isso tem de ter em São Paulo, me ficou esse pensamento fixo, e depois fizemos o Oriaxé e o Ilú Obá de Min”.

A atriz Vera Lopes, da companhia Caixa Preta, em Porto Alegre, e ativista desde os anos 1970, também lembra a inspiração do Ilê: “Nos anos 80, Oliveira Silveira (poeta gaúcho que teve a ideia do 20 de novembro como feriado) e o grupo Semba divulgavam as músicas do Ilê em espetá­culos aqui no sul do Brasil. Era lindo. ­Todas nós queríamos ir à Bahia conhecer o Ilê e desfilar no bloco”, conta Vera, ­para quem as músicas do grupo baiano são uma trilha sonora da vida. “Na cola­ção de grau de minha filha Camila em Jornalismo, a música foi Coisa de Negro, do Ilê. Na minha colação em Direito, escolhi Minha Origem (‘Se me perguntar/ de que origem eu sou,/ sou de origem africana,/ com muito orgulho, sou’). E minha filha Quênia escolheu para encerrar a cerimônia de seu casamento a Que Bloco É Esse? (‘Eu quero saber./ É o mundo negro/ que viemos mostrar pra você’).”

Nos ensaios e concursos de beleza, as mulheres então são Candaces, as rainhas guerreiras núbias. No cortejo do Ilê Aiyê, o perfume das quilombelas exala por onde no dia a dia flui também o cheiro do abandono, do lixo não recolhido. No bairro da Liberdade se devolve a dignidade a uma comunidade acostumada à casca-grossa e ao descaso. O Elevador do Plano Inclinado, que liga as cidades alta e baixa, que transporta o povo da Liberdade à Calçada e dali às paragens ferroviárias suburbanas, está quebrado há tempos.

Já é chacota internacional, e a piada teria graça não fosse desesperadora a subida com varizes, crianças de colo, marmitas e sacolas. O pessoal então desce traquejado o escadão íngreme ou inventa caminho pelas frestas e matagais do morro, que só quem é de lá conhece. Ou para subir encara as horas de espera pela perua que a prefeitura arranjou. A cidade se entope num colapso e cada vez menos ilude quem chega a Salvador com a cabeça na Itapuã de Dorival Caymmi.

A efervescência é negra

antigona br, direção jesse oliveira/foto bruno gomesInspiração Caixa Preta
Inspiração Caixa Preta, de Porto Alegre: “Nós queríamos ir à Bahia conhecer e desfilar no Ilê”

Pesquisas atestam o fluxo de objetos e ideias durante toda a história da diáspora africana pelas Américas. Nos anos 1970, os jovens baianos, antenados com a efervescência que vinha da descolonização dos países africanos desde os anos 1950 e com a força artística e política dos movimentos negros dos Estados Unidos, como o Black Power e o Soul Funk, e a luta por direitos civis, também se nutriam das bandeiras esparramadas pelo mundo com o sucesso e a filosofia rastafári do ­reggae jamaicano.

Em plena ditadura, com data de fundação registrada em novembro de 1974, o Ilê Aiyê se batizaria com o nome Poder Negro, mas foi advertido do perigo de afrontar o controle nacional dos generais. O escritor baiano Landê Onawale registra: “Era uma época pré-abertura política. Tudo que parecesse interferir na tal ordem não era visto com bons olhos”.

Salvador é uma das cidades mais importantes da diáspora africana, com cerca de 80% da sua população composta por ­afrodescentes. Marcas coloniais da antiga­ capital do país estão na sua ­arquitetura ­residencial ou nos fortes que pintam o ­litoral. E também na nítida divisão de classes e cores marcada pela desigualdade no acesso ao dinheiro e aos equipamentos públicos de qualidade.

A frase “Não me peça pra te dar a única coisa que tenho para vender” se impôs na entrada do Ilê por anos, rastro aceso da história da gente que, segundo as leis da Colônia ou do Império, eram peças, e não pessoas. Gente que saía para vender ofícios ou alimentos na cidade, escravos de ganho que voltavam depois com as ­moedas para o dono, mas também juntando cobres para comprar a própria alforria, a da família ou ajudar na coleta e na organização de grupos e levantes negros, grande temor dos senhores no século 19. Nessa época, pelo Atlântico, imensa parcela de chegados ao porto da Bahia vinha do oeste africano, onde hoje estão países como Nigéria, Senegal, Mali.

Das quebradas soteropolitanas também surgiram grandes revoltas urbanas de escravizados. A mais célebre foi o Levante dos Malês, em 1835, que culminou numa série de outras revoltas que pipocavam desde os rumores da independência do Haiti, em 1792. O Levante dos Malês, que condenou seus líderes ao degredo, evidenciou como a efervescência social em qualquer ponto da África se ligava ao chão de cá, no caso a presença islâmica nos conflitos por reinos, divisas e rotas do tráfico de minérios e de pessoas.

“Penso que a relação mais íntima que temos com a história da cidade é a do inconformismo. Nunca aceitamos plenamente a ideia de que somos uma subcategoria de cidadão, e nos insurgimos pelos meios mais diversos – alguns até travestidos de submissão”, diz Landê Onawale. Por exemplo, como explica o escritor, a relação ambígua entre vários blocos, mestres, artistas e terreiros e o governante de plantão, sobretudo Antonio Carlos Magalhães. “A relação de várias organizações negras com a chamada direita era de troca, como são as relações políticas em geral. Poderia dizer que uma troca muito desigual, mas uma troca. A turma queria botar o bloco na rua e via no governo um óbvio aliado. Para o carlismo, era a possibilidade de evidenciar uma suposta aliança com o povo – o povo negro, no caso da Bahia…”

Educação com autonomia

CassimanoRitmo e atitude
O bloco Ilú Obá de Min há anos abre o carnaval paulistano com sua bateria composta apenas por mulheres

Em 2003, a Lei nº 10.639 instituiu o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas. Enquanto ainda se batalha em muitos cantos do país para que currículos, didáticas, formação de professores e espaços físicos das escolas estejam aptos à concretização da lei, o Ilê já há décadas cristaliza seu propósito com a Escola Mãe Hilda.

“As ações da escola e todo o nosso projeto pedagógico antecedem as dis­cussões da lei”, diz ­Edmílson Alves, um dos responsáveis pelo Projeto de Extensão­ Pedagógica do Ilê Aiyê. “­Todos os ­temas que o Ilê, ao longo destes anos, ­trabalha de forma interdisciplinar sempre ­trazem importantes conteúdos históricos e ­pedagógicos sobre a população negra, sejam temas que já descansam no berço da história, sejam ações contemporâneas.”
Povos Ashanti, heróis Mandinka, civilizações Bantu, façanhas da história da Guiné, de Minas Gerais e do Equador. Esses temas já cantados pelo Ilê frequentaram também os Cadernos de Educação, livros desde 1995 editados com uma plástica que destaca a estética africana.

“Não estamos falando do aprendizado estático, estamos falando de vivência educacional de identidade cultural e social cotidiana. Ela flui a cada cidadão do bairro da Liberdade e seu entorno. E o princípio referencial de tudo é o Ilê Axé Jitolú, um templo de candomblé, uma casa matriarcal por excelência”, completa Edmílson.

Crianças com baixo aproveitamento passaram a apresentar níveis qualitativos acima dos 80% de aprovação, a partir de metodologias e materiais que dialogavam positivamente com suas histórias e corpos. Visitas a museus, terreiros de candomblé e bibliotecas, pautadas no respeito e no conhecimento da história e da cultura afro-brasileira, foram fundamentais. “A escola foi idealizada por uma matriarca, aguerrida, comprometida com os direitos civis. No mês de setembro temos a Semana da Mãe Preta, com seminários, palestras, oficinas, em que mulheres reconhecidas e anônimas são homenageadas. A escola é laica e a orientação religiosa das crianças é diversificada, respeitando a pluralidade e o multiculturalismo”, afirma a coordenadora pedagógica Jô Guimarães.

É uma resposta aos impactos do racismo que atinge a saúde mental e física. Prevalece uma razão antiga, irmanada aos dilemas de seu povo, mantendo a sede e a fonte limpas, já que o que vem de longe nenhum racismo, nenhum colonialismo pode aniquilar: a alma dos povos ancestrais em suas expressões vitais.

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Do mocambo ao show

De janeiro em diante, nas esquinas se debate o fervor do carnaval. Os hits fabricados para a estação dominam o volume máximo e trazem um leque de novas celebridades ao palco dos já miliardários agitadores da folia. É tempo também de turismo voraz, de gente de todo canto pagando alto por abadás que a proteja da porrada que sobra aos pipocas – os que acompanham os trios elétricos na beirada das cordas que os dividem dos pagantes.

O mote “sorria, você está na Bahia” é contestado o ano todo por vários movimentos sociais, mas no carnaval a onda é sair da frente. Estatísticas de 2010 dizem que apenas 22% da população de Salvador participa do carnaval. Decresce assim como o percentual de paulistanos ou cariocas que integram os carnavais oficiais em suas cidades. Há algo muito sintomático quando escolas como a Unidos de Vila Isabel chegam a anunciar em jornais, em 2011, que buscam negros para compor suas alas… E quando boa parte dos que desfilaram na Portela em 2011 eram não moradores do Rio que compravam a fantasia na véspera, decorando apressadamente o samba-enredo.

Em Salvador, desde os anos 1980, músicas de sucesso das quadras dos blocos afro eram compradas por atentos emissários das bandas de trio. Os compositores recebiam trocados pelos direitos autorais, e o mercado fonográfico e as produtoras de shows de trios elétricos arrecadavam fortunas com os refrões dos discos de platina, alimentados por participações em programas de auditório, as repetições nas FMs e os carnavais “fora de época” em várias cidades do país.

A relação entre bandas de trio elétrico e blocos afro a partir dos anos 1980, tanto no uso de direitos das músicas geradas pelos blocos negros como na distribuição de verba municipal e de publicidade em Salvador, extremamente desigual, proporcionou, porém, novas musicalidades e ocupações do espaço cênico ou comunitário. Ações de raiz comercial eram respondidas aqui e ali com reações de raiz cultural. Nesse tom, blocos como o Ilê Aiyê, Muzenza e Malê Debalê mantiveram suas características primeiras, com a percussão acústica da vasta bateria mais a rainha do bloco e seus cantores sobre a caminhonete que puxa o cortejo.