entrevista

Químicos: as histórias de lutas de um sindicato que chega aos 80 anos

O coordenador do Sindicato dos Químicos e Plásticos de São Paulo, Osvaldo da Silva Bezerra, o Pipoka, reflete sobre mudanças no mundo do trabalho e sobre as três décadas de retomada da entidade

Jailton Garcia/RBA
Pipoka

Pipoca atua no ramo químico desde o início dos anos 1980

Nos anos 1980, tornou-se comum uma tática de paralisação irritante para as fábricas. O chefe sai, a seção para, ele volta, para-se outra. Nunca param todas ao mesmo tempo, mas havia sempre um cruzar de braços pipocando de seção em seção. Por ser um ativista da “greve pipoca”, Osvaldo Bezerra da Silva, então funcionário da Oxigênio, em São Paulo, facilitou para o inventor de apelidos que todo chão de fábrica tem. Desde então, é o Pipoka. Ele entrou na diretoria do Sindicato dos Químicos e Plásticos de São Paulo em 1988 e hoje é coordenador-geral da entidade, fundada em 1933. Pipoka fala dessa história, sobretudo das últimas três décadas, após a “retomada” contra a tutela do Ministério do Trabalho, analisa mudanças vividas pelo país no período e os desafios que o movimento sindical tem pela frente. A íntegra da entrevista pode ser lida no site da Rede Brasil Atual.

É um fato que quem chega hoje ao mercado de trabalho depara com relações mais avançadas do que há 30 anos. Os acordos são melhores, as condições individuais também. Isso, por outro lado, reduz o nível de engajamento

Um sindicato de trabalhadores completar 80 anos signi­fica uma relação íntima com a história do país, não?

É, começa com a história dos gasistas, início dos anos 1930, um pequeno embrião, que dura uns dois, três anos. Não era ainda um Brasil industrial. A partir da década de 40 é que ele se configura, quando a indústria química começa a surgir com um pouco mais de força. Mas a parte mais importante nessa trajetória a gente constata a partir da década de 80, porque, quando o país estava começando a desenvolver sua indústria, veio o golpe de 1964, e passou a ficar muito difícil fazer sindicalismo. Na década de 80, na esteira da reconstrução do movimento, começa a surgir um embrião da oposição que viria a retomar o sindicato, em 1982. Era o momento em que se davam, também, as condições para o fim da ditadura.

Naquela época, a direção do sindicato ainda estava sob o comando de um interventor nomeado pelo Ministério do Trabalho. Como foi possível construir uma oposição?

Uma parte da chapa de oposição saiu de dentro da diretoria comandada por um interventor. O Domingos Galante (que se tornaria presidente do sindicato dos Químicos) chegou a militar aqui dentro do sindicato, acompanhando os passos do último interventor, que era o Waldomiro Macedo. Ele conquistou espaço. Tinha uma sala aqui, representando os trabalhadores de base, e participava das negociações coletivas lá na Fiesp, junto com o presidente. O cara achava que o Domingos nunca iria ficar contra eles. Quando ele montou e fez o registro da chapa, com várias pessoas daquela diretoria, o Waldomiro Macedo quase morreu do coração: “Essa é a minha chapa! Como você me faz uma coisa dessas?” Isso em 82, e foi embate decisivo, ter gente lá dentro para conseguir juntar musculatura e fazer o enfrentamento na eleição de 82. A década de 80 foi muito marcante por conta disso. A gente era aquela força em movimento, esse embrião para a CUT. Foi uma avalanche de conquista de novos sindicatos, porque os pelegos estavam ali deitando e rolando, sem nenhuma oposição. De repente, apareceram essas oposições.

E as oposições dentro das oposições…

Em 88, houve um primeiro embate interno, com divergências no mesmo campo, entre as correntes Articulação Sindical e CUT pela Base. De um lado fica o Jorge Coelho, já uma liderança reconhecida dentro da CUT, e também integrante dessa gestão de 82, e do outro lado o Domingos, da CUT pela Base. E aí já não eram mais os movimentos de esquerda contra os pelegos e interventores. Era esquerda contra esquerda, e veio gente para apoiar os dois lados, do Brasil inteiro. Foi um grande embate. Foi o primeiro sindicato que teve uma disputa nessas características, resultante de uma cisão, de um racha. Domingos venceu por uma margem muito estreita de votos. No fim, essas disputas também representaram um processo de amadurecimento político. Quem participou daquele momento cresceu muito. Havia divergência de conteúdo político? Sim, mas não era preponderante. A diferença era principalmente de forma, de método, de como era melhor fazer as coisas.

Falando em divergências, há alguns anos havia quem defendesse um projeto de redução gradual da jornada de trabalho. Algo como reduzir meia ou uma hora por ano, até cair das atuais 44 para 40 semanais. Se isso tivesse sido posto em prática, hoje o objetivo já não teria sido alcançado?

De fato, uma visão mais imediatista e menos estratégica permeou vários debates, e essa ideia mais ponderada (reduzir meia hora por ano) não prevaleceu. E assim não conseguimos reunir força suficiente para travar essa batalha no Congresso. Mas, certamente, já teríamos superado essa fase. Mas Cada demanda tem de ser avaliada com suas especificidades. No caso da batalha contra a terceirização, por exemplo, o movimento sindicou tem acertado os ponteiros. Lá atrás, no final do governo Fernando Henrique, tentaram aprovar uma lei que afrouxava a CLT e permitia a redução de direitos. Como não conseguiram, voltaram à carga agora com essa ideia de regulamentar a terceirização. Espero que as lições que temos tirado dessa batalha sirvam de referência também para outras que ainda temos pela frente, como o fim do fator previdenciário. E qual é o embate? Conseguir a mobilização social, o máximo de unidade no movimento, e convencer, com pressão e com negociação, quem tem de tomar decisões.

Diferenças à parte, você acha que o movimento sindical recuperou na última década parte do protagonismo abalado desde os anos 1990?

O antigo modelo industrial começou a saturar no final da década de 80, com a busca de novas tecnologias, novos processos de produção. O fato é que os empregos diminuíram radicalmente, mas a produção continuou igual ou maior, em grande parte dos casos. O faturamento melhorou bastante. Foi um momento em que a influência empresarial, sobretudo das grandes corporações, teve grande peso sobre as decisões governamentais no mundo todo, com aquelas teses de desregulamentar, globalizar e deixar o resto com o mercado. E as empresas tiveram mais êxitos que os sindicatos, até porque com desemprego o trabalhador fica na defensiva. Mas foi também uma coisa imediatista, sem ponderar que a crise de emprego é também crise de crescimento econômico e de mercado consumidor. E você ainda vê um retrato desse estrago por aí hoje, quando analisa a história, vê a situação da Europa. Com a retomada do crescimento e do nível de emprego, começamos a reverter aquela situação de pouco mais de uma década atrás, em que a luta principal era para manter direitos, e olhe lá. Agora conseguimos falar em mobilizar para ampliar direitos.

As empresas, no geral, ainda veem na redução de custo com pessoal um caminho mais rápido para aumentar lucros, em vez de apostar na satisfação do empregado para melhorar a produtividade?

Na maioria das empresas você não tem democracia ainda. Quem manda lá dentro é o empresário, e você não consegue ter o direito de organização, de uma comissão de fábrica, até das próprias Cipas, que são dominadas pelo empresário. Metade é eleita pelos funcionários e metade é indicada pelo patrão. Quando se abre a possibilidade de você ter uma organização mais efetiva no trabalho, ajuda a politizar o trabalhador. Ele precisa ser responsável pelo seu contrato individual de trabalho. De um outro lado, a empresa precisa ser mais flexível nessa operação. Não é mais uma relação de imposição. Um trabalhador que desenvolve uma ferramenta para melhorar o desempenho de uma máquina contribui com a empresa. Não precisa ter um muro de desconfiança. O trabalhador quer ser reconhecido pela sua capacidade. E uma negociação não é algo em que um tem de ganhar e outro perder.

Mas hoje se negocia muito mais do que há 20, 30 anos…

É importante que a gente reconheça que do lado empresarial tem empresários sérios, capazes de entender o momento, de dialogar, de se aproximar da pauta. Mas desde que do lado de cá tenhamos força de representatividade, senão você não será o interlocutor ideal para estabelecer negociações, ou não será respeitado. Durante a campanha salarial, um lado vai endurecer, outro precisa ter condição de mostrar força. Isso faz parte do jogo democrático.

CoordenadorNo setor químico as questões relacionadas a saúde no trabalho têm muito peso, não?

Temos um ambiente de trabalho muito nocivo à saúde, em quatro grandes setores: químico, farmacêutico, de embalagens plásticas e de cosméticos. A década de 80 foi muito emblemática no enfrentamento dessas condições de trabalho. As medidas de proteção determinadas por lei não eram respeitadas. E as empresas priorizavam as campanhas pelo uso de equipamento de proteção individual. Daí começamos a difundir: não basta usar esse equipamento se não mudarem as condições de trabalho, sem estabelecer um ambiente de proteção coletiva. O ambiente precisa estar adaptado aos nossos limites, e não expor nossa saúde, agredir a saúde. Esse investimento é mais caro.

Desde que entrei no sindicato vejo empenho grande na formação política e sindical. Nosso grande problema é a rotatividade. Você faz 3 mil sindicalizações e perde 3 mil num ano. É um retrabalho o tempo inteiro

No setor de embalagens plásticas, a maioria das empresas tinha uma máquina que era campeã de amputação de membros superiores – dedos e mãos. Em 1992, motivados pelo grande número de acidentes, arrolamos uma ação no Ministério Público com o levantamento da quantidade de amputações que eram feitas. Isso obrigou os patrões a montar um grupo de trabalho que resultou numa Comissão Permanente de Negociação, começamos a desenvolver máquinas com mecanismos de proteção, o que resultou na Convenção Preventora de Acidentes com Máquinas Injetoras de Plástico. Levou quase três anos para chegar a um instrumento pactuado entre as partes, mas foi muito efetivo na prevenção. Houve uma redução drástica do número de acidentes. Então, todas as máquinas, para continuarem a funcionar, eram obrigadas a ter pelo menos dois dispositivos conhecidos de segurança (existem três: um elétrico, um mecânico e um hidráulico), que travam a máquina se a pessoa, por exemplo, enfia a mão na área de prensagem. Hoje está convencionada em plano nacional a obrigatoriedade desses dispositivos.

E que tipos de risco ainda precisam ser superados?

Os principais problemas de hoje são as chamadas doenças modernas. Ainda está muito presente nas linhas de produção o aumento das lesões por esforço repetitivo – e a tecnologia acelera esse processo. Além das LERs, aumentou o sofrimento por assédio moral. Esse fenômeno começou a ser apurado a partir da pesquisa de um grupo de médicos da Santa Casa, que em dois anos identificou, entre trabalhadores, quase 2 mil pessoas com problemas de ordem psíquica, emocional. No setor de cosméticos, que é o primeiro setor a acelerar o processo produtivo, mais a pressão da chefia, é muito comum você ouvir relatos de como era o tratamento do chefe com aquele empregado que eventualmente tinha um rendimento inferior. E a perseguição era clara. Eram chamados de incompetentes, e isso vai se alojando na psique dos indivíduos. A ponto de incapacitar a pessoa a fazer as coisas.

E como diagnosticar um problema de saúde como originário de assédio moral?

Nos anos 80 era muito fácil reagir, fazer greve, por conta do tratamento dispensado aos empregados pelas políticas feudais das empresas. Era comum ter até controle de quantas vezes as pessoas iam ao banheiro e quanto tempo ficavam lá. As pessoas eram humilhadas. Você mal chegava na porta da empresa e já encontrava um monte de gente disposta a fazer greve. A organização empresarial demorou a perceber isso, que tinha de mudar a mentalidade, introduzir um novo gerenciamento de relação pessoal. No final dos anos 90 isso começa a melhorar. Existe a Associação Brasileira de Recursos Humanos, que passa a treinar esse povo por aí, a explicar que não há mais espaço para capataz. Hoje em dia, comprovar a nocividade do assédio moral à saúde não é tarefa fácil, porque o assédio pode ser resultado de uma orientação da empresa, mas não necessariamente. As vezes é ação individual de determinada chefia.

Como fica o sindicato quando as operações da fábrica afetam não só os funcionários, mas a saúde e as condições ambientais na comunidade onde ela está instalada?

Ainda hoje há um bom embate com isso. Na estrutura do sindicato tem uma Secretaria de Saúde, não só discutindo saúde nos ambientes de trabalho, mas levando em conta a importância do ambiente saudável também fora dele. Em 1992, ano da conferência da ONU no Rio de Janeiro (Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, Eco 92), já era forte esse entendimento no sindicato. Já tivemos enfrentamento com uma indústria que tinha aqui em Santo Amaro (bairro da zona sul paulistana), que era uma estatal, chamada Nuclemon. Trabalhava com beneficiamento de terras raras para a extração e o enriquecimento do urânio. Havia vários trabalhadores contaminados e o resíduo produzido oferecia risco às comunidades vizinhas. O fechamento da empresa significava também o fechamento de postos de trabalho, e isso é sempre um dilema para um sindicato, mas o bom senso prevaleceu. Então, defendemos fechar a indústria. Foi um dos primeiros embates em que deixamos clara a importância de que a atividade de uma fábrica não pode oferecer risco às gerações atuais nem às gerações futuras. Não pode degradar ambiente, subsolo, ar.

Hoje em dia é mais comum ver gente brigando para dividir bases e categorias sindicais do que para se juntar. Como vocês conseguiram unificar categorias que se organizavam em sindicatos separados?

Nós fizemos a unificação em 1994. Antes, havia o sindicato dos plásticos e o dos químicos. Na época em que fizemos a fusão, cada base tinha em torno de 70 mil, até um pouco mais. Então, pode-se dizer que havia uma base de 140 mil trabalhadores. Rapidamente, em menos de três anos, a categoria se reduziu quase à metade. E o emprego continuou caindo. Foram muitas fusões, muitas empresas fecharam. Houve recuperação nos últimos dez anos. Hoje, contabilizamos uns 90 mil trabalhadores, e o emprego está em expansão.

O pessoal mais jovem também está chegando com maior qualificação?

Esse perfil da categoria vem mudando também por conta disso. A qualificação está melhorando, isso é um fato. Mas também é um fato que quem chega hoje depara com relações de trabalho mais avançadas do que há 20, 30 anos. Os acordos coletivos são melhores, as condições individuais também. Isso dá num nível de engajamento menor do que tinha na década de 80.

O movimento sindical está se preparando para acompanhar essa evolução? Vocês estão?

Existe muita preocupação e há algumas iniciativas. Talvez não as ideais ainda, mas ações estão sendo experimentadas. Ainda falta um pouco de ousadia. A gente vive numa rotina que não permite parar muito para pensar, elaborar mais. Em vez de fazer uma ação fraca, é melhor você não fazer e se preparar para uma ação mais rigorosa. Eu acho que a tendência, daqui pra frente, é aprofundar um pouco mais, desenvolver estratégias com esse objetivo. Hoje você tem setores como o de juventude, o de mulheres, o de negros, e quem milita nesses grupos é gente mais jovem, e é maioria na diretoria. Essas pessoas estão em formação intelectual.

Se não fizer a leitura exata da demanda dessa “nova classe trabalhadora” de hoje, o que será do sindicato do futuro?

Isso é o que mais nos preocupa hoje. Eu ainda vejo iniciativas tímidas, e não é só uma particularidade do meu sindicato. É no movimento sindical como um todo. A gente ora está defendendo o governo – quando vai na direção de dialogar e atender às demandas dos trabalhadores, o que não ocorria em governos anteriores –, ora está travando lutas, porque parte do poder econômico também defende seus interesses dentro do governo de coalizão. Antes, o inimigo a ser enfrentado tinha lado e forma claramente definidos. Hoje, não. Hoje parecemos caminhar na multidão com uma bandeja de copos de cristal na mão. Mas algo muito interessante é que nós conseguimos saber o que pode ou não acontecer conosco, olhando para o que já acontece na Europa. Onde a esquerda vacilou na defesa do Estado de Bem-Estar Social, a direita neoliberal ocupou espaços para pôr conquistas históricas a perder.

E há muitas empresas que atuam aqui que também têm presença lá, conhecem os contrastes…

Então, há essas relações internacionais que nos permitem saber como está a indústria lá, como está a organização sindical, em que eles estão atuando, como está o cenário social. Lá, aliás, eles têm uma experiência sindical centenária, e também tentam caminhar mais nesse rumo de se preparar para o futuro. O menor aprendiz lá tem um foco da atuação sindical. Enquanto é preparado profissionalmente, também é preparado para se tornar um representante sindical. Aqui ainda temos essa dificuldade, porque essas escolas preparatórias, como Sesi e Senai, são de domínio exclusivo dos empresários. O ideal era que esses centros de iniciação na carreira profissional tivessem disciplinas como direito sindical, direito de representação, importância na negociação e da preocupação com o coletivo.

E é possível se aproximar disso aqui na hora em que se discutem os acordos coletivos?

Na Alemanha eles têm um acordo em que o jovem, ainda no ensino fundamental, tem a oportunidade de conhecer, por meio da atividade escolar, o ambiente onde o pai trabalha. Então eles vão à empresa, veem como funcionam as operações de integração, como é um dia de trabalho, até para entender melhor as razões de parte a parte. O cara já vai crescendo com um visão de como funciona. Nós temos outras grandes tarefas a serem enfrentadas, mas essa continua sendo o maior desafio. São muitas empresas e muito diluídas. As que vão sobreviver são as grandes. Toda a política industrial pensada pelo governo é de dar musculatura à indústria nacional, de maneira que ela possa competir no mercado internacional. A indústria farmacêutica tem feito vários convênios com o governo federal, no sentido de ampliar a produção, desenvolver pesquisas. Daqui uns 10, 15 anos, a indústria farmacêutica será completamente diferente. Ela está se preparando para isso. Já tem, no mínimo, duas indústrias nacionais que viraram multinacionais. Capital nacional que está indo para a Argentina, para os Estados Unidos. Então, eu acho que o parque industrial será outro e, consequentemente, o perfil do trabalhador será outro. Os sindicatos também terão de ser outros, senão não vão representar, estarão fora dessa relação. O grande desafio hoje é como fortalecer o sindicato para essa interlocução.

Como disputar com os meios tradicionais de comunicação a audiência da chamada “opinião pública”? Você não acha o movimento sindical tímido na construção de um polo de comunicação de massa?

Eu não sei se é só timidez. Acho que falta liderança e segurança em se canalizar recursos, hoje pulverizados em muitas iniciativas nessa área, para se construir um grande instrumento de comunicação, que nos ajude a superar nossa fragilidade. Alguma coisa precisa ser feita. A Revista do Brasil é uma grande iniciativa, mas que tem trinta e pouco sindicatos contribuintes, apesar de que no campo da CUT existirem 3.800 sindicatos. Talvez esse seja o salto que precisa ser dado. Você precisa convencer, porque nós temos condições de potencializar esse instrumento. Essa questão da comunicação é fundamental porque tem uma disputa permanente. O conteúdo é fundamental, e temos capacidade de produzir, mas carecemos de infraestrutura para fazer esse conteúdo chegar ao grande público, e disputar a atenção dele com os meios tradicionais.

Em resumo, podemos concluir que você trabalha com a perspectiva da formação, o que inclui acesso a informação, e da democracia nas relações de trabalho como os principais desafios do sindicalismo contemporâneo?

A nossa grande luta é por maior democracia no local do trabalho, que permita o acesso da representação sindical até como forma de que os novos trabalhadores entendam o papel do sindicato, participem, vislumbrem participar do processo de renovação da diretoria. Temos uma única comissão de fábrica só. Isso ainda é um desafio para nós. Temos um projeto de formação sindical há 11 anos. Todo ano é desenvolvido um módulo que dura quatro meses de formação, com temas que vão de questões mais amplas, como discussão política, conjuntura, técnicas da negociação, a questões mais específicas, como de gênero, saúde. Sete sindicatos do estado de São Paulo participam desse núcleo de formação. Quem coordena o Forma Aqui é a Confederação Nacional dos Químicos da CUT, que desenvolve esse programa nos outros estados também. Desde que entrei no sindicato vejo um empenho muito grande na formação política e sindical do indivíduo. Nosso grande problema é a rotatividade. Você faz 3 mil sindicalizações e perde 3 mil num ano. É um retrabalho o tempo inteiro.