Crônica

Triste 11 de setembro

O dia em que o estádio onde o Brasil foi bicampeão do mundo virou campo de concentração

Mendonça
cronica

Desde 2002, o 11 de setembro virou data das vítimas do terrorismo, dos inocentes estadunidenses que morreram sem saber por quê, um ano antes. Compartilho a tristeza dos familiares e dos amigos das vítimas. Mas lembro com tristeza do 11 de setembro desde muito antes.

Só que os fatos que me levam a isso – ao contrário do acontecido em 2001 – tinham como vítimas não moradores dos Estados Unidos, e sim do Chile. E os terroristas, dessa vez, planejaram tudo em gabinetes governamentais de Washington.

Sim, o 11 de setembro de 1973 em Santiago do Chile – o golpe militar liderado pelo general Augusto Pinochet contra o governo democraticamente eleito do socialista Salvador Allende – teve como co-responsável o país que hoje se põe na condição de vítima do “terrorismo” e gasta bilhões de dólares com uma operação militar em defesa da “democracia”.

Antes de dar o tiro de misericórdia em Allende, os Estados Unidos, por intermédio da CIA, comandaram uma política de desestabilização de seu governo e da economia chilena. Chegaram a pagar caminhoneiros para não transportarem mercadorias, e muito mais do que eles ganhariam trabalhando. Por isso faltava até comida nas cidades. Depois partiram para o golpe final, comandado por Pinochet. Milhares morreram. Milhares desapareceram.

Numa área próxima a um bairro universitário, o Rio Mapocho, que corta a capital chilena, correu vermelho nesse dia. Muito sangue. O Estádio Nacional – no qual o Brasil conquistou sua segunda Copa do Mundo ao vencer a Checoslováquia por 3 a 1, há 45 anos – foi transformado em campo de concentração, prisão, centro de torturas.

O compositor Victor Jara, um dos mais populares do país, morreu ali. Seu corpo foi encontrado dias depois por sua mulher, crispado de balas e com as mãos decepadas para não mais tocar suas canções de amor e liberdade. Te recuerdo, Amanda…

Então, o papel de vítima dos Estados Unidos não me comove. E me comove menos ainda quando recordo outros atos que cometeram. Lembro-me, por exemplo, da história de um japonês que se tornou meu amigo.

Yoneda morou em Hiroxima, no Japão, até os 18 ou 19 anos, ainda durante a Segunda Guerra Mundial. Terminou o curso médio e foi a Tóquio, para tentar entrar numa faculdade. Saiu de Hiroxima em 5 de agosto de 1945. No dia seguinte, em Tóquio, soube que algo grave tinha ocorrido em sua cidade. Procurou descobrir o que estava acontecendo, tentou telefonar, não conseguia.

Resolveu voltar. A região estava toda cercada pelo exército, ninguém podia entrar. Ficou desesperado. Uma bomba atômica lançada pelos Estados Unidos destruíra toda a sua cidade. Não tinha mais amigos, não tinha mais família. Nada!

Em 1980 ele me mandou um depoimento, contando como foi, sua angústia, seu desespero. Publiquei no dia 6 de agosto daquele ano, na Gazeta de Pinheiros, o “Diário de Yoneda”. A última página inteira, falando da sua história, naquele aniversário da destruição de Hiroxima pelos estadunidenses.

Em 2001 eu o conheci pessoalmente. Yoneda veio ao Brasil, com setenta e tantos anos de idade, muito disposto e elétrico. Andava o dia inteiro. Numa noite, ficamos conversando com ele, o Kyoshi (seu filho) e a Mary Lou (sua nora), na casa da Lea e do Mário, nossos amigos comuns. Entre umas e outras, nos divertimos muito.

Claro, não falamos do 11 de setembro nem do 6 de agosto.

Mouzar Benedito, mineiro de Nova Resende, é jornalista e geógrafo. Publicou vários livros, entre eles o Anuário do Saci (Editora Publisher Brasil, 2006), ilustrado por Ohi