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Só falta a massa

O cinema brasileiro é bem servido de recheio. É rico em diversidade, criatividade e tem personalidade. Mas ainda enfrenta os obstáculos da distribuição e busca novos atalhos para se exibir ao grande público

gerardo lazzari
filmes

O cinema nacional ainda sofre para entrar em cartaz e está esperançoso de que algumas novidades aprovadas no final do ano possam ajudar a mudar essa cena. Mais que melhorar o potencial de produção, é preciso aumentar a chance de chegar ao espectador, para que ele mesmo confira nossa crescente qualidade. Uma das mudanças está no Fundo Setorial do Audiovisual, que oferece novos mecanismos de fomento à atividade, em conjunto com a antiga Lei de Incentivo à Cultura (Rouanet, de 1991), que continuará sendo utilizada por empresas ou pessoas físicas interessadas em apoiar curtas-metragens, documentários e séries para TV com até três episódios. O estímulo vai da dedução fiscal à possibilidade de o investidor tornar-se cotista do direito de comercialização da obra.

“O Fundo Setorial do Audiovisual receberá o imposto cobrado de todas as produções audiovisuais brasileiras e importadas. O recurso, que antes era recolhido para o caixa do governo, agora retorna diretamente para a atividade, com a inovação de ser utilizado não só na produção, mas também na distribuição e exibição”, explica Leopoldo Nunes, diretor da Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Para Carlos Gerbase, um dos sócios da Casa de Cinema de Porto Alegre, o fundo é uma iniciativa boa para aqueles que não têm trânsito tão livre com as empresas, seja por realizarem algum tipo de trabalho mais alternativo, seja por ainda não serem conhecidos. “Dificilmente fazemos um filme financiado de um jeito só. Muitas vezes você ganha um concurso do BNDES, outro da Petrobras, aí consegue uma grana pela Lei do Audiovisual e mais um pouco pela Lei Rouanet. É uma espécie de quebra-cabeça até completar o orçamento. A lei pode ser mais uma possível entrada de recursos. O modelo de financiamento da produção até que tem funcionado razoavelmente, apesar de já ter sido melhor. Mas o de distribuição e exibição está falido”, alerta Gerbase. Cerca de 80 produções são finalizadas por ano sem que as bilheterias acompanhem esse ritmo.

“Em 1982, a produção nacional ocupou a taxa recorde de 32% do mercado interno. O governo Collor (1990-1992) desmantelou a estrutura do cinema, extinguiu a Embrafilme e assistiu ao número de salas despencar de 3.500 para cerca de 600”, observa o crítico Sérgio Rizzo. Em 2005 e 2006, pouco mais de 12% dos ingressos vendidos foram de um filme nacional. “Ainda é pouco em relação à virada dos anos 70 para os 80”, avalia Rizzo. “O grande público do cinema brasileiro sempre foi o povo, as classes C, D e E. Essa faixa não vai mais ao cinema, porque não há salas para ela.” O recorde da retomada do cinema nacional pós-Collor foi em 2003, 21%, quando Carandiru foi visto por 4,6 milhões de espectadores, bilheteria só superada pelos 12 milhões de Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976).

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Segunda maior bilheteria nacional foi Carandiru, de 2003, com 4,6 milhões

Cota de exibição

Diante disso, parece um contra-senso a nova Cota de Tela definida pelo governo federal para este ano. Cinemas de apenas uma sala estão obrigados a passar filmes brasileiros por 28 dias, contra 35 do ano passado. Os de duas salas devem exibir produções nacionais por 70 dias, contra 84. Os de três salas devem fazê-lo por 126 dias, eram 147 em 2006. E os de quatro, 196 dias, contra 224. Já para os cinemas com cinco a oito salas, as cotas permanecem as mesmas (veja quadro à página ao lado). A partir dos complexos com nove salas, a obrigatoriedade de tempo de filmes brasileiros em cartaz aumentou de 448 dias, em 2006, para 468 este ano. Já nos complexos acima de dez salas, a cota aumentou de 6,5% a 25%.

Leopoldo Nunes diz que a maioria dos países utiliza a Cota de Tela para garantir a presença de sua cinematografia no mercado e que o mercado brasileiro é abastecido principalmente por cinco companhias norte-americanas. “Warner, Fox, Universal, Columbia e Paramount têm obrigação de lançar no Brasil, por ano, 250 títulos, o que cria a chamada pressão de tela. Se um filme brasileiro não tem mecanismos que garantam uma presença mínima em cartaz, é rapidamente atropelado para entrar outro filme”, explica. “Como é nos multiplexes que há mais público e para lá vão os grandes investimentos de marketing de lançamento, é ali que precisa aumentar a obrigatoriedade do filme brasileiro. E para os pequenos exibidores, que representam cerca de 30% do mercado nacional, é mais sacrificante conseguir cópias para cumprir a obrigatoriedade”, justifica o diretor da Ancine.

Na Argentina, há uma sala de exibição para cada 40 mil habitantes; no México, uma para cada 35 mil; e nos Estados Unidos, uma sala para cada 7 mil. O Brasil possui apenas uma sala para cada 90 mil habitantes. A maioria está concentrada nas capitais e 90% dos municípios não têm nenhuma. “Estamos trabalhando para diversificar e ampliar os circuitos populares e de rua, principalmente em cidades do interior. As salas de cinema já foram a maior fonte de renda para o filme, hoje são a menor. Mas são a janela que agrega valor ao produto. Por isso, são necessárias”, diz Leopoldo Nunes.

É no mercado de vídeo doméstico e da programação de televisão aberta ou por assinatura que está a maior fonte de renda de um filme atualmente. Se grande parte dos filmes nacionais anteriores à década de 90 permanece inédita em DVD, na televisão a situação não é melhor. Os filmes norte-americanos representavam 87% do total de produções exibidas pelas emissoras abertas no primeiro semestre de 2006, contra apenas 4,3% de filmes nacionais, de acordo com a Ancine.

“A maior dificuldade hoje do cinema brasileiro é a postura mercantilista das emissoras. Enquanto não houver pelo menos uns 30% de presença de nossos filmes na TV, continuaremos nos arrastando”, opina Ricardo van Steen, diretor do longa-metragem Noel, o Poeta da Vila, que retrata o compositor carioca. Rede TV!, Bandeirantes e Record não programaram nenhum título nacional. O SBT programou um, O Dia da Caça (1999), de Alberto Graça. A Globo passou 38, de preferência do selo Globo Filmes.

Essas produções são as que conseguem boas bilheterias num mercado em que 80% dos 68 títulos nacionais lançados em 2006 foram vistos por menos de 100 mil espectadores. Apenas Didi – O Caçador de Tesouros e Se Eu Fosse Você, dirigido por Daniel Filho, venderam mais de 1 milhão de ingressos. A comédia estrelada por Tony Ramos e Glória Pires, na época par romântico na novela Belíssima, ficou atrás apenas dos internacionais A Era do Gelo 2 e O Código da Vinci.

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Inesquecível – A cena final de Dona Flor e Seus Dois Maridos é simbólica: foi o auge do grande público do cinema nacional

Circuitos alternativos

Manoel Rangel, presidente da Ancine, diz que um de seus principais objetivos será estimular as parcerias entre emissoras de televisão e o cinema brasileiro. Emissoras abertas e programadoras por assinatura poderão deduzir de seu Imposto de Renda investimentos em obras audiovisuais brasileiras. “Essa medida fará com que se torne mais interessante para as redes de televisão produzir filmes. O problema é que, salvo algumas exceções, elas têm pouco dinheiro para investir”, avalia Carlos Gerbase, da Casa de Cinema de Porto Alegre. “Não é combatendo a Rede Globo ou outras empresas que se fará alguma coisa. O interessante é que mais emissoras e produtoras surjam”, acrescenta Leopoldo Nunes.

Essa possível parceria poderia ajudar a combater as dificuldades de exibição. Segundo a Ancine, dos 143 títulos brasileiros atualmente inéditos ou em fase de produção e finalização, apenas 43 têm contrato de distribuição e estréia assegurada. O restante corre o risco de ficar restrito a circuitos alternativos e festivais, como aconteceu com Noel, o Poeta da Vila, destaque da 30ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

“Noel foi difícil de ponta a ponta. A criação do roteiro levou cinco anos, a captação de recursos, quatro. Com poucos recursos, filmamos em 30 dias! E levamos quase dois anos na montagem. Agora estou nessa loucura que é fechar negócio com distribuidor, o que já tomou cinco meses. Até aqui não ouvi nenhum ‘não’. Todos estão julgando o potencial do filme. Por enquanto, vou passando nos festivais e ganhando os preciosos comentários boca-a-boca, que no caso do Noel têm sido fantásticos. Além disso, nas mostras a gente encontra nossos semelhantes, conversa e descobre maneiras de vencer obstáculos”, relata o diretor Van Steen.

“Só conseguem espaço no mercado os filmes brasileiros distribuídos pelas majors, que, por sua vez, se interessam apenas por um tipo de produto capaz de fazer carreira nos circuitos de multiplex, a maioria instalada em shoppings e já habituada ao produto estrangeiro de consumo fácil. Uma possível solução seria investir na criação de um circuito popular que alcance as médias e pequenas cidades e a periferia das metrópoles, com preços acessíveis; e no fortalecimento de uma ou mais distribuidoras voltadas para a inserção de filmes brasileiros nesse novo mercado”, aposta o crítico Sérgio Rizzo.

O presidente do Centro de Promoção do Cinema (CPCine) e coordenador do Grupo de Trabalho para Distribuição e Exibição Alternativo, Felipe Macedo, também aposta nos circuitos alternativos: “Menos de 1% da população brasileira vê filmes nacionais devido a um modelo muito excludente de distribuição e exibição, que não está à altura da cultura brasileira. É preciso estudar fórmulas alternativas. Isso não significa se indispor com esse mercado, mas pensar em formas de ampliação”.

O desempenho dos nacionais em 2006

cassetas

Filme e público
Se Eu Fosse Você 3.644.618
Didi, Caçador de Tesouros 1.011.719
Zuzu Angel 732.033
Casseta e Planeta, Seus Problemas se Acabaram 560.228
Xuxinha e Guto contra os Monstros do Espaço 501.112
Trair e Coçar É só Começar 423.762
Muito Gelo e Dois Dedos d’Água 287.443
O Maior Amor do Mundo 247.181
Irma Vap − O Retorno 247.065
Gatão de Meia Idade 81.895
Anjos do Sol 77.487
A Máquina 55.577
As Mulheres do Brasil 48.293
Tapete Vermelho 44.850
Acredite! Um Espírito Baixou em mim 30.536
Estamira 30.458
Depois daquele Baile 28.547
Árido Movie 20.652
Crime Delicado 20.573
Vinho de Rosas 20.408
Wood e Stock 13.985
Cafundó 16.061
A Concepção 16.727
Brasília 18% 15.625
Soy Cuba − O Mamute Siberiano 14.857
Achados e Perdidos 14.217
Maria Bethânia – Música É Perfume 12.694
Boleiros 2 10.712
A Festa de Margarette 9.486
O Sol: Caminhando contra o Vento 8.280

Lançados até outubro de 2006. Fonte: Ancine

A opinião dos diretores
“Houve avanços. Porém, o problema não está unicamente na produção e distribuição, mas no desinteresse do público pelo filme nacional. É preciso trocar o discurso a respeito do mercado como panacéia para a crise e difundir a importância da existência do cinema nacional como patrimônio cultural”
Carlos Reichenbach, diretor de Garotas do ABC (2003), Dois Córregos (1999),
Anjos do Arrabalde (1986)

“Em todo o mundo a cultura é subsidiada. Como afirma o ministro Gilberto Gil, 7% da economia brasileira gira em torno da cultura. E o cinema tem relação internacional. Pode atingir muita gente, tem importância documental. O subsídio ao cinema é um dos mais importantes. Pela luta que envolve, o cinema é talvez o que precise mais”
Paulo Betti, ator, diretor e produtor, atuou em Lamarca (1994), Guerra de Canudos (1997) e dirigiu Cafundó (2006)

“Não conheço bem a lei, mas parece que este é o caminho: a facilidade de todas as produtoras terem chance de fazer trabalhos para a televisão. Nosso mercado já não é um grande mercado para o cinema brasileiro e, se nós não forçarmos a mão, não tivermos um espaço para distribuição, já bem comprometido, vai ficar mais difícil mesmo”
Suzana Amaral, diretora de Uma Vida em Segredo (2002), A Hora da Estrela (1985), Minha Vida, Nossa Luta (1979)

“A nova lei significa aproximação maior da televisão com o cinema brasileiro. Estrategicamente, é importante. Além disso, mantém a Lei Rouanet e cria novas modalidades de financiamento. Quando se abrem novas possibilidades é sempre interessante. A diversificação de mecanismos tende a diversificar mais a produção”
André Klotzel, diretor dos longas Memórias Póstumas (2000), Capitalismo Selvagem (1994) e Marvada Carne (1986)

“O Brasil tem cinematografia muito própria, vários caminhos e tendências. Fico feliz de estar fazendo um filme de projeção grande. Mas, infelizmente, nós estamos ainda muito dependentes do Estado para abastecer nossa reserva de mercado, e isso acho muito importante. O cinema é o espelho de um país, reflete a sua cultura”
Maurício Farias, diretor de A Grande Família, O Filme (2006) e O Coronel e o Lobisomem (2006)