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O homem humano de Guimarães Rosa

O filme 'Lula, O Filho do Brasil' conta história de superação comum a milhões de nordestinos. A diferença é que esse homem não virou suco
12:27
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No final da década de 1970, em assembleia no Estádio da Vila Euclides

Uma parte importante da população da Região Sudeste, 7 milhões de habitantes, são pessoas que deixaram sua terra natal em algum estado nordestino em busca de uma vida melhor. Assim o fizeram Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello, a dona Lindu, que acabaria criando sozinha seus oito filhos. O sétimo, Luiz Inácio da Silva, dá título a Lula, o Filho do Brasil, livro da jornalista Denise Paraná editado pela Fundação Perseu Abramo. Eles são, antes de tudo, sobreviventes. Quando o garoto nasceu, em Garanhuns, no sertão de Pernambuco, a probabilidade de não completar o primeiro ano de vida era cinco vezes maior que hoje. Em 1945, a mortalidade infantil vitimava 188 de cada mil bebês nascidos vivos no Nordeste. “Quando eu era criança, tomava água do chão junto com o gado e ficava brincando com aqueles caramujinhos”, contava ele à autora, quando ainda era assessora do dirigente petista. Essa taxa hoje é de 36 no Nordeste e de 18 no Sudeste.

Dona Lindu viajou para São Paulo com sete de seus filhos durante 13 dias e 13 noites num pau de arara. Foi o filho mais velho, que já vivia com o pai em Santos, quem escreveu uma carta em nome de Aristides chamando a família. “Venda tudo e venha para cá”, anotou, enquanto o pai analfabeto ditava: “Aqui não é nada do que dizem. Trabalha muito e ganha pouco. Tudo o que temos está aí…” Alcoólatra, rude e incapaz de deixar os filhos estudarem ou brincarem, ele logo seria abandonado. “Nessa família não vai ter bandido nem prostituta”, dizia ela. Vavá, Ziza (Frei Chico) e Lula tornaram-se operários qualificados, Zé Cuia virou motorista, Jaime continuou estivador. Marinete, Maria e Sebastiana casaram-se.

No livro de Denise, cada um deles conta sob seu ponto de vista a trajetória da família. Em 2002, o livro foi parar nas mãos do cineasta Luiz Carlos Barreto, que comprou os direitos. Depois de um longo período de captação de recursos e preparações, as filmagens, com direção de Fábio Barreto, ocorreram este ano. A história é contada numa película de duas horas de duração, com fotografia, som, atores e montagem de primeira. O “épico”, como define o diretor, está pronto para a estreia nacional, em 400 salas do circuito comercial, em 1º de janeiro.

Da saída do sertão no pau de arara, passando pela chegada em Santos e a breve convivência com o pai, a mudança para São Paulo, a formação no Senai, os empregos no Ceasa e nas fábricas, à formação do líder sindical, a história é contada em simplicidade cronológica, sem se aprofundar em nenhum momento da vida de Lula. Mas permite uma leitura quase psicológica de sua formação, a criança atenta, o adolescente dedicado, o jovem apaixonado, que perde precocemente o grande amor e vai “ocupar a cabeça” na atividade sindical. Passa a contestar e a mudar a estrutura na qual mergulharia para se tornar o maior líder da história – sempre tendo como pano de fundo a personalidade, a sabedoria serena e a firmeza da mãe na condução de sua vida.

Rédeas do destino

“Um aspecto fascinante da vida de Lula é que, quando ele não toma as rédeas do destino, é como se o destino fosse até ele e o puxasse para a frente”, afirma Daniel Tendler, corroteirista do filme. Começou com a carta falsa do irmão, uma guinada no destino de toda a família. A militância também foi por acaso. Ele já era um herói para a família: tinha estudado, estava empregado, poderia ficar naquela vida para sempre. Apesar de já participar do sindicato quando era casado, foi na perda de Lurdes, no último mês de gravidez, que a militância ganhou um espaço que certamente não teria ocorrido em outras circunstâncias.

O diretor Fábio Barreto afirma estar preparado para as cobranças e a politização em torno da obra. “Pois é, como em jogo de futebol, no caso do Lula, todos se transformam em técnicos, especialistas no assunto, de uma maneira ou outra”, ironiza. “A história de Lula é muito mais cheia de incidentes do que está na tela, e muita coisa foi atenuada, como a violência do pai, ou a da avó, uma rendeira que expulsava a tiros os netos que iam pegar melancia em seu quintal. Sem falar que no velório da mulher e do filho houve uma enchente, o piso cedeu e a casa desabou. A cena foi filmada, mas não colocamos. Se o filme fosse contar a história toda, ninguém aguentaria”, diz o cineasta, que não tem medo de cobranças.

“Não vai faltar nenhuma, a começar pela família, passando por questionamentos de o filme ser lançado em ano eleitoral e atuar como peça de propaganda. Mas Lula não precisa do filme. Nós é que estamos tirando uma casquinha da popularidade do presidente.” Fábio Barreto destaca que o filme não foi feito para entender o Lula, mas para as pessoas verem que mesmo nas piores condições é possível chegar aonde ele chegou. “Ele é um migrante nordestino, um ex-operário, e o principal bem que fez ao país foi o aumento da autoestima, como se dissesse o tempo todo ‘eu sou igual a você, nós somos iguais. Eu estou aqui porque eu teimei muito. Não fiquem aí reclamando da vida’.”

O ator Rui Ricardo Diaz, que interpreta o Lula adulto, não teve acesso ao presidente para compor seu personagem, mas a seus irmãos, parentes, amigos. “É só falar na dona Lindu e todos choram. Eu me emocionei muito com uma história tão verdadeira. Hoje compreendo essa emotividade tão presente no Lula – ele passou por perdas muito grandes, do pai, que na verdade nunca teve, da mulher e do filho, a perda do dedo. E após cada perda ele se transformava e ficava mais forte.”

A dona da história

A idéia de filmar Lula, o Filho do Brasil foi de Luiz Carlos Barreto. Ele conta que em viagens ao exterior, quando dizia que era brasileiro, as pessoas sempre perguntavam sobre Pelé, Ronaldo, Ayrton Senna e, depois da primeira eleição do líder sindical metalúrgico, em 2002, passou a ouvir “quem é o Lula?”. “A pergunta vinha de motorista de táxi, de porteiro de hotel, de gente do meio artístico, em festivais. De tanto ouvir ‘quem é o Lula?’, percebi que eu também não sabia. Como a maioria das pessoas, sabia que ele era presidente da República, tinha sido líder sindical, fundador do PT. E nada além. Um dia, em Brasília, conversei com Gilberto Carvalho e contei essa história. Ele perguntou: ‘Você quer mesmo saber?’ Abriu a gaveta e me deu o livro Lula, o Filho do Brasil. Comecei a ler no voo, continuei no táxi, virei a noite lendo, e só parei quando terminei. Ao fechar o livro, sabia que tinha um belo filme nas mãos, não sobre um político ou o presidente da República, mas sobre um homem comum, sua família e a extraordinária capacidade de superar dificuldades.”

Lucy Barreto, mulher de Luiz Carlos e sua sócia na LC Barreto produções, conta que acompanha a trajetória de Lula desde os anos 1970. “O filme, no entanto, não aborda sua trajetória política, que todo mundo conhece, mas mostra a história de um brasileiro comum, de um Silva, equivalente a um Smith nos Estados Unidos, a um Dupont na França. Esse Silva deu inúmeras provas de uma extraordinária capacidade de superação.”

Lula, o Filho do Brasil é também um filme sobre dona Lindu, talvez mais do que sobre seu filho. “Segundo relato dos outros filhos e de parentes, ela era extremamente filosófica. O grande ideólogo de Lula não foi Lenin, Marx, Fidel Castro. A ideologia de Lula foi extraída dos ensinamentos da mãe, que tinha um lado pragmático que ele também apresenta”, acredita Luiz Carlos Barreto, que refuta os que acusam a obra de ter objetivos eleitorais. “O filme não mitifica o Lula, até porque ele já é um mito. Na verdade, vai em direção oposta – desmitifica, desconstrói, humaniza o Lula. Conta a história de uma pessoa simples e sua capacidade de superar as dificuldades. É difícil falar em destino, mas aquela família não aceitou que o destino fosse inexorável. E essa força da transformação é o maior motivo do filme.”

A jornalista Denise Paraná, também corroteirista do filme, sabe que em 2010 muitos interesses estarão em jogo durante a campanha presidencial. “Os ânimos estarão acirrados. Mas eu espero que os meios de comunicação avaliem honestamente o filme, pelas suas qualidades e defeitos reais. Porque quem for vê-lo perceberá facilmente que não se trata de uma peça publicitária; ao contrário, verá que ali não há exaltações ou mitificações, mas apenas ‘homem humano’, como dizia Guimarães Rosa. É preciso lembrar que Lula nem é candidato à reeleição”, ressalta.

A produção consumiu R$ 12 milhões, maior orçamento do cinema nacional, e não contou com recursos públicos de leis de incentivo. O maior desafio, segundo a produtora Paula Barreto, foi garantir a fidelidade das imagens de época e não glamorizar as casas, as roupas, os objetos, as pessoas. “Não ter medo da dureza, da aridez, da falta, da miséria. Para evitar qualquer tentação nesse sentido, contamos com o olhar atento de Ziza (Frei Chico), irmão de Lula, que acompanhou todas as filmagens. Ele era a memória viva daquela época e nos dizia: ‘Nós não éramos pobres, éramos miseráveis, as crianças usavam calça de saco, camisas rasgadas, não tinham o que calçar’. Não havia motivo para maquiar essa realidade”, afirma Paula.

São 130 atores com alguma fala. Os sete irmão de Lula foram interpretados por 21 atores, uma leva para cada fase: infância, adolescência e idade adulta. E deveriam ter alguma semelhança. Até um mês antes das filmagens, Lula seria interpretado por Tay Lopes, que por ser hipertenso não poderia passar pelos processos de variação rápida de peso que o papel exigia. “A escolha de Rui Ricardo levou à mudança de todos os irmãos, em todas as fases, em busca de uma semelhança. No total trabalhamos com 3 mil figurantes”, diz a produtora, que até no que se refere à expectativa de público para o filme vê uma ironia do destino. “Quem gosta de Lula não pode pagar o preço do ingresso, e quem pode pagar não gosta de Lula.”

Uma história, dois livros

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A jornalista Denise Paraná trabalhou com Lula em 1989 e nos anos 1990. De tanto ouvir as histórias do chefe, jogou fora uma tese quase acabada de doutorado na USP, sobre a mão de obra feminina no início da industrialização, e pediu para entrevistá-lo. Faria da narrativa biográfica a sua nova tese. O então dirigente petista toparia, mas com condições: “Se for para fazer um panfleto, puxar meu saco, eu não topo; agora, se você ajudar a explicar como é que eu surgi, vou arranjar um jeito”. Daí saiu a obra que deu origem ao filme, uma tese de 500 páginas assim descrita por Antonio Candido: “Esse livro esclarece isso e muita coisa mais, fazendo o leitor sentir como o dirigente e o partido se construíram como vasto esforço para arrancar os oprimidos da ‘cultura de pobreza’ e, passando pela ‘cultura da transformação’, aqui encarnada em Lula e sua família, lutar por aquilo que é a essência do socialismo, o esforço para chegar a uma sociedade na qual a distribuição dos bens seja pelo menos tão importante quanto a sua produção”. Lula, o Filho do Brasil foi publicado em 2002 pela Editora Fundação Perseu Abramo e inspirou o filme, com roteiro de Denise, Daniel Tendler e Fernando Bonassi. Depois da produção, Denise elaborou nova versão, A História de Lula, o Filho do Brasil (Editora Objetiva, 144 páginas), com narrativa mais enxuta. “Um romance de não ficção”, define.

Making of

A trajetória de Lula é contada de 27 de outubro de 1945, seu nascimento, a 12 de maio de 1980, data do velório de dona Lindu, quando ele tinha 35 anos e estava preso pela ditadura, e Romeu Tuma, então chefe do DOPS, o liberou para ir ao enterro. 

Lula é representado por cinco atores: um bebê de 3 meses, um menino de 2 anos, um de 7, um adolescente e Lula adulto.

A casa da família foi reconstituída na Serra do Tará, próximo a Caetés, ex-distrito de Garanhuns (PE).

A cena da partida do pau de arara, na zona rural de Capoeiras, foi filmada 12 vezes até ser aprovada. O caminhão é um De Soto 2951, o mesmo de Cinema, Aspirina e Urubus (2005, de Marcelo Gomes).

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Lucélia Santos, que a pedido de Glória Pires fez a professora de Lula no primário, nasceu em Santo André, no ABC.

A pernambucana Mariah Teixeira, que vive Marinete, irmã de Lula, foi revelada por Cláudio Assis como a adolescente prostituída de Baixio das Bestas.

O Estádio da Vila Euclides, hoje chamado 1º de Maio, é um marco na trajetória de Lula, onde ele fez comícios para 80 mil pessoas.

As filmagens foram realizadas entre 20 de janeiro e 18 de março de 2009, em Pernambuco (região de Garanhuns e arredores) e São Paulo (Santo André, São Bernardo, São Caetano, Santos, Itapema e capital). Foram, ao todo, 70 locações. O skyline de SP dos anos 60 foi filmado em Recife.

A montagem reproduz trechos dos seguintes filmes: ABC da Greve (de Leon Hirzman), Braços Cruzados, Máquinas Paradas (de Roberto Gervitz e Sérgio Toledo, 1979) e Greve!, de João Batista de Andrade, todos de 1979; além de Linha de Montagem (de Renato Tapajós, 1982) e O Noivo da Girafa (com Mazzaropi, de Victor Lima, 1957).