entrevista

O dono da área

Um dos maiores zagueiros da história, Luís Pereira, hoje dirigente do Atlético de Madri, segue atento na marcação de empresários que tentam se dar bem à custa da molecada

João Correia
Luís Pereira

Luís Pereira conta um pouco de sua carreira e as dificuldades na Europa

O “paredão” Luís Pereira, como dizia o narrador Geraldo José de Almeida, foi um dos jogadores mais longevos. Começou na defesa do São Bento de Sorocaba (SP) aos 18 anos, em 1967, fez fama no Palmeiras, na seleção brasileira e no Atlético de Madri. Passou por Flamengo, Portuguesa, Corinthians e encerrou a carreira várias vezes. A última delas pelo “jovem” time do São Caetano ao lado de Serginho Chulapa, em 1997, com quase 48 anos. Em 1969, quando comandava a zaga da chamada Academia de Futebol do Palmeiras, ganhou o apelido de Luís Chevrolet depois de participar de uma propaganda do Opala. Baiano de Juazeiro, Luís Pereira está com 60 anos. Em Madri, é um dos mentores das categorias de base do Atlético, time pelo qual se consagrou como “el mago” ao vencer, junto com o colega de Academia Leivinha, a edição 1976-1977 do campeonato local. Lá, treina e ajuda a selecionar jovens promessas. Nesta entrevista à Revista do Brasil, conta um pouco de seu começo de carreira e da difícil realidade dos brasileiros que sonham com o sucesso na Europa – muitos abandonados à própria sorte por empresários e oportunistas. Se os jovens jogadores já não têm como tirar lições de seu futebol, vale a pena prestar atenção no que ainda tem para ensinar.

Muitos jovens jogadores saem do Brasil e vêm para a Europa com o sonho de jogar futebol. Como funciona a seleção nas categorias de base de grandes times como o Atlético de Madri?
Na verdade, não é tão simples. Para jogar nos times de base daqui é preciso estar ligado à Comunidade Europeia, ter um passaporte de algum país da Comunidade Europeia. Eu não posso pegar um menino brasileiro, mesmo que seja espetacular, e trazer prá jogar nas categorias de base se ele não tiver esse pré-requisito. Sem isso, você só pode jogar na Primeira e na Segunda Divisão, na base já não pode. Pouca gente sabe disso, mas é verdade. E isso é algo que valoriza o atleta daqui, estimula muito a garotada do país.

Então não tem brasileiro nas categorias de base do Atlético?
Tinha um no ano passado, mas era um garoto que tinha cidadania portuguesa. Isso, sim, acontece. Aliás, muita gente vai prá Portugal, onde é mais fácil, pros brasileiros, conseguir documentos para se legalizar. Ficam um tempo por lá, jogam em times de lá, e aí fica mais fácil. Mas tem outro ponto importante: além dos documentos o garoto precisa ser visto jogando. Não dá prá contratar ninguém no escuro. Houve, por exemplo, uma vez que um empresário trouxe um garoto aqui no Atlético de Madri, conversou com um diretor nosso e o diretor veio falar comigo. Contou que o empresário havia dito que me conhecia. Bom, mas eu não conhecia esse empresário. Acontece isso direto, de gente que diz que me conhece. Mas, se eu nem ninguém aqui conhece o garoto, não tem a mínima chance. Outro caso foi há uns quatro anos. Um senhor me telefonou do Brasil e perguntou se era verdade que eu ia colocar o filho dele no Atlético de Madri. Como vai pro Atlético de Madri? Nem tô sabendo de nada, pô! Aí ele começou a se ligar que esse empresário estava jogando com ele. “Claro que o cara está jogando contigo”, eu disse. E ele me contou que o tal empresário tinha pedido um dinheiro para passaporte, documentos no consulado etc. Perguntei aonde ele ia levar o tal dinheiro, e o cara me disse “num supermercado”… Pode?

Você já sofreu pressão ou ofertas de empresários para aprovar alguém, facilitar as coisas?
Já deram a entender várias vezes. Eu fiquei na minha e não disse nada, fiz que não tinha entendido. Não vou me queimar por isso. Mas a pressão dos empresários aqui é bem menor que no Brasil. Claro que existe, mas é bem menor. Aqui quem decide mais é o pessoal da equipe técnica, pois existe uma comissão que precisa decidir junto. No Brasil funciona só na base de empresário. E eles querem trazer para cá, porque, se põem um jogador aqui, eles se valorizam, o jogador e o empresário. Então, o que muitos deles fazem: trazem um monte de meninos para a Europa e vão distribuindo em vários lugares. Depois, quando veem que não vai dar certo um ou outro, abandonam os garotos. Vão distribuindo, um aqui na Espanha, outro na Inglaterra, depois deixam por aí. Acontece bastante. Tudo molecada. Ficam aqui sem nenhuma estrutura, pois vêm do Brasil meio “duros”, e aqui você tem de pagar um hotel, uma comida, se movimentar, pegar um ônibus, é tudo muito caro. Acontecem umas barbaridades, prometem o mundo e o fundo pros pais e pros garotos, e depois largam.

Na sua época empresário tinha essa força toda?
Já existia empresário, mas não era tanto. O que era igual é que o jogador sempre tem o sonho de jogar na seleção brasileira. Eu, prá falar a verdade, por muito tempo não tive essa ilusão porque trabalhava duro. Depois que comecei a jogar futebol, aí sim, comecei a sonhar com isso. Trabalhei em metalúrgica. Bom, na verdade eu trabalhei em tudo. Nessa época o importante era trabalhar e ter o dinheirinho, ajudar a família, família humilde. Até que tive oportunidade no São Bento. Embora eu tivesse trabalho, fui fazer uma prova e me ofereceram um salário maior, com contrato por um ano. Aí eu pensei: poxa, vou ganhar mais prá fazer o que gosto, não sou tonto de dizer não. E depois de dois anos estava no Palmeiras.

João Correialuis
Tem empresários que trazem um monte de meninos para a Europa e os distribuem em vários lugares. Depois, quando veem que não vai dar certo, abandonam

Como foi sua contratação, tinha empresário?
Não, foram amigos que me incentivaram e eu fui fazer o teste. Não teve nada de empresário. Nunca tive empresário. Naquela época também havia empresário, mas minha história é diferente. Eu vim para a Espanha porque o Palmeiras jogava todo ano aqui, no torneio mais importante da Espanha, o Troféu Ramón de Carranza, fomos campeões quatro vezes. Então fomos convidados prá fazer uma preliminar de um jogo do Atlético, uma despedida de um jogador, uma baita festa. Fizemos a despedida e, na viagem de volta, no avião, me chamaram lá na primeira classe, o vice-presidente e o médico: “Você gostaria de jogar na Espanha?” Naquela semana vencia o contrato aqui no Brasil, com o Palmeiras. Isso foi numa terça-feira. Chegamos na quarta no Brasil. À noite me chamaram. Já tinham me vendido. Eu nem estava sabendo.

Mas você não tinha dito “tudo bem” no avião?
Saca só: eu estou viajando para o Brasil, tomando umas cervejas, o “nego” me chama e pergunta se quero jogar no Atlético de Madri? Disse que sim na hora, claro. Na quinta de manhã fiz o exame médico e à noite tive de voar para a Espanha porque na sexta encerravam as inscrições de novos jogadores.

Na época não tinha essa coisa de ficar milionário vindo prá cá?
Não. Ganhava-se muito, claro, mais do que no Brasil, mas hoje é um absurdo. Se o cara tiver cabeça, ele compra um apartamento por mês. E se ele ficar com um contrato de três anos numa equipe ele está “de puta madre” (expressão espanhola que significa estar muito bem), compra um bairro (risos). O problema é que uma parte dos jogadores não sabe lidar com isso. Quem anda de fusquinha vai querer comprar uma Ferrari. Precisa ter uma estrutura, ou vai pro buraco. Um assessor, um advogado, isso tudo pode ajudar, mas também pode danar o cara, depende de com quem ele está. O problema muitas vezes é que o cara pega um empresário que só gosta do dinheiro. Fica indo de um lado pro outro porque vai ganhar mais dinheiro aqui ou ali, e o jogador fica deslumbrado. Veja o Robinho: saiu brigado do Real Madri, foi para a Inglaterra achando que era o dono da cocada preta e acabou no banco, cheio de problema.

Tem jogador que não se adapta?
Aqui na Espanha nem tanto. Você pega uns meses de inverno, mas pega verão de 40 graus. De qualquer forma, se você está pensando em ser jogador de futebol tem de estar disposto. Eu aqui me adaptei bem, sou um cara muito aberto prá tudo. O idioma também não é tão complicado. Além disso, é um país que acolhe os brasileiros muito bem, minha família vive toda aqui.

Você tem acompanhado o futebol brasileiro? O que acha da atuação do Dunga na seleção?
No Brasil há muitos treinadores que já demonstraram ter mais condições, como o Luiz Felipe Scolari, o Leão, o Wanderley Luxemburgo, o Muricy Ramalho. O Mano Menezes também, pois fez um trabalho incrível no Grêmio e agora no Corinthians. Não tenho gostado da forma de jogar da seleção brasileira, do estilo de jogo do Dunga, um jogo muito amarrado, que vem desde o Zagallo. A questão é que o Brasil tem tido a sorte de ter bons jogadores que acabam resolvendo uma partida. Isso ajuda. Mas não sei até quando.