Fórum Social Mundial

O Brasil visto da África

Em Nairóbi, o país-berço do FSM perdeu espaço para as novas estrelas da América Latina, mas segue bem situado no imaginário dos africanos

verena glass/carta maior
dixon

Dixon Hatata trabalhou como segurança no Fórum. Ele acredita que a pobreza está diminuindo no Brasil, embora Lula não tenha o mesmo “impacto” de Hugo Chávez

Os movimentos sociais do continente-berço da humanidade olham para a América Latina com ares de irmão mais moço. Ainda se reerguendo das recentes lutas pela independência ou buscando contornar anos de guerras fratricidas, a África que recebeu o Fórum Social Mundial vê nos países latino-americanos exemplos de processos de fortalecimento da sociedade civil organizada que levaram ao surgimento de governos populares.

Foi nesse contexto “latino” que o Brasil foi lembrado pelos ativistas do outro mundo possível que se reuniram em Nairóbi, no Quênia. Aos olhos dos ativistas africanos, em especial, o Brasil tem status de país movido por uma sociedade civil forte, com movimentos sociais e populares capazes de produzir uma resistência eficiente, mas ainda não logrou transformar o governo de um ex-operário em uma experiência exemplar de mudança social. Depois de quatro anos de governo Lula e sete de Fóruns Sociais Mundiais, segue sendo o país da promessa, enquanto os demais sul-americanos teriam dado mostras mais significativas desse movimento de mudança.

Fora do Espaço Brasil – estande montado pela Petrobras para promoção do país e dos programas sociais apoiados pela estatal – e das atividades organizadas por entidades brasileiras, o país foi pouco lembrado. As citações sobre o Brasil, sede do FSM por quatro vezes e presente em Nairóbi com mais de 400 delegados, diluíram-se nos debates sobre a América Latina e dividiram espaço com estrelas ascendentes, como Evo Morales (Bolívia), Rafael Correa (Equador) e Hugo Chávez.

“Os movimentos sociais de todo o mundo têm uma dívida com os movimentos e mesmo com os governos do Brasil, porque foi o primeiro país a receber o Fórum Social Mundial sem nenhuma ingerência. Mas acredito que seu governo esteja já um pouco comprometido. Espero que o segundo mandato seja uma oportunidade para se afastar de vez do neoliberalismo”, resumiu Sara Longwe, integrante do Conselho do Fórum Social Africano e militante da Rede de Mulheres Africanas pelo Desenvolvimento e pela Comunicação, na Zâmbia.

Em uma das raras vezes em que o papel geopolítico do Brasil foi mencionado, esta citação veio de forma temática. A Nobel da Paz queniana Wangari Maathai lembrou da responsabilidade planetária do país com relação à preservação da Amazônia. Segundo ela, o Brasil vive entre duas pressões internacionais: uma para preservar a maior floresta do mundo, outra para derrubá-la e transformá-la em pasto. “Até agora, o governo brasileiro tem sido sensível à nossa pressão pela preservação”, disse.

Apesar dessa dose de cautela, a imagem que prevalece entre os participantes africanos do evento é a de um país próspero, que tem logrado diminuir a pobreza e aumentar a justiça social. Assim o descreveu Dixon Hatata, queniano que trabalhou na segurança do Fórum. Citou, por exemplo, que os índices de pobreza vêm diminuindo mais aceleradamente, embora “Da Silva” não consiga ter o mesmo impacto que “o presidente Chávez, da Venezuela”. O conhecimento demonstrado por Hatata sobre o Brasil está bastante acima da média do verificado dentro da seleta amostra da população africana que freqüentou as dependências do Moi International Centre durante o FSM.

Via satélite

É perceptível que informações sobre o Brasil, cujo presidente foi às Nações Unidas reclamar a participação dos países ricos no combate à miséria que assola o Hemisfério Sul, não circulam com freqüência no continente mais empobrecido do planeta, nem mesmo entre os militantes dos movimentos populares. George Kirabira, integrante da Coalizão pela Agricultura Orgânica em Uganda, afirmou que as únicas informações que os ugandenses têm chegam através de ONGs que trabalham nos dois lados do Atlântico.

Agricultor, Kirabira nunca ouviu falar do Fome Zero ou dos programas de combate à pobreza brasileiros. “Eu sei que Da Silva é o presidente, mas não sabemos muito sobre o que tem feito”, disse. Se o Brasil poderia servir de exemplo à África, seja por suas ações de governo, seja pelas dos movimentos sociais, Kirabira foi taxativo: “São duas realidades muito diferentes para alguém servir de exemplo a alguém”.

Nos países de língua portuguesa, a quantidade de informação disponível aumenta e, na mesma proporção, a identificação entre africanos e brasileiros. “O tema do combate à pobreza é algo que toca muito os africanos e, em especial, os angolanos. Por isso, o Brasil e Lula ainda são uma grande referência”, disse Maria Fernanda Francisco, secretária-adjunta da União Nacional de Trabalhadores de Angola. A sindicalista, entretanto, adverte que os angolanos guardam uma imagem “distorcida” do país. “A imagem é a que passam os meios de comunicação, de que tudo no Brasil é bom, que há muita justiça social, que todo mundo tem chance de ascensão social”, afirmou.

Vindo de Moçambique, Rômulo Ventura, educador da Fundação de Apoio Amigo, fez um apelo para que as relações entre seu país e o Brasil ultrapassem a barreira “da televisão”. Para ele, os africanos de língua portuguesa constroem sua imagem do Brasil através dos programas de TV das redes Globo e Record, transmitidos via satélite para o resto do mundo. “Não há negros no Brasil que mostram as novelas, não há pobres. Eu queria que vocês fossem porta-vozes para dizer aos donos desses canais que nós queremos saber do Brasil de verdade”, concluiu Ventura.