Crônica

Desculpologia

'O importante é negar sempre'

mendonça

Esse poderia ser o lema dos políticos brasileiros. Nenhum deles jamais assume culpa nenhuma. Aconselhados por advogados, marqueteiros, assessores de imprensa ou pela própria experiência, os políticos aprenderam que um dos primeiros passos para escapar da Justiça é jamais aceitar uma acusação.

Poucos têm a coragem de fazer o que fez Jânio Quadros, que disse “Fi-lo porque qui-lo!” Hoje em dia ninguém diz que faz. E, se faz, não faz por querer.

Com essa insistência em negar, os políticos acabaram criando a desculpologia, uma mistura de ciência, filosofia e religião.

Um dos baluartes desse novo campo do saber é Renan Calheiros, que jurou de pés juntos que era seu o dinheiro entregue à mãe de sua filha por um lobista da construtora Mendes Junior. É claro que não conseguiu explicar por que ele mesmo não o entregava, já que ele e a jornalista continuaram se encontrando por um bom tempo. Mesmo assim continuou negando.

Um precursor da desculpologia é Paulo Maluf, que dizia não ter nenhuma conta secreta no exterior e que, se descobrissem dinheiro seu na Suíça, o descobridor poderia ficar com tudo (na verdade a bufunfa estava nas Ilhas Virgens).

Na área econômica não podemos nos esquecer do ministro Mantega, que ficou conhecido por dizer que o caos aéreo é o preço do bom desempenho da economia.

Um dos recursos mais comuns dos desculpólogos é culpar a imprensa. Foi o que fez, por exemplo, Mangabeira Unger, que chamou o governo Lula de “o mais corrupto da história” e depois foi trabalhar nesse mesmo governo. Com seu estranho sotaque, ele disse que fez tal afirmação por influência da mídia. Faltou criatividade. Se já houvesse uma faculdade de desculpologia ele não passaria na prova de Novas Justificativas para Velhos Vícios.

Lula, no caso do mensalão, criou o bordão “Eu não sabia”, Rogério Magri apelou para o nonsense quando disse “O cachorro também é um ser humano” e João Alves, um dos anões do orçamento, criou uma desculpa religiosa: “Sou rico porque Deus me ajudou e eu ganhei na loteria muitas vezes”.

A bem da verdade, a desculpologia não é exclusiva dos políticos brasileiros. Os norte-americanos também vêm desenvolvendo essa ciência, que lá se chama excuselogy. Tanto que Bill Clinton ficou célebre com o “Fumei mas não traguei” e com o não dito mas afirmado “Gozei mas não transei”.

Mais explosiva foi a desculpa de George W. Bush, que disse que faria um ataque preventivo. Uma pérola! Sem dúvida é o mestre maior dessa nova fé.

Porém, confessemos, a desculpologia não é uma ciência exclusiva dos políticos. Até rabinos e estilistas têm recorrido a essa moderna filosofia. Aliás, Henry Sobel e Ronaldo Ésper devem até tê-la estudado juntos, pois usaram a mesma justificativa: um remédio os impeliu a roubar gravatas e um vaso de cemitério.

Os técnicos de futebol, por exemplo, sempre põem a culpa no juiz:
“Se ele não tivesse marcado aquele pênalti contra a gente…”
“Mas o jogo foi quatro a zero?!”
“Detalhes, detalhes…”

E aposto que muitos dos varões que lêem esta coluna já devem ter dito o clássico “É a primeira vez que isso me acontece”.

Mas, enfim, caso você não seja um mestre da desculpologia, sempre pode partir para o sarcasmo e dizer “Relaxa e goza”.

José Roberto Torero é escritor, roteirista de cinema e TV (Pequeno Dicionário Amoroso, Retrato Falado), colunista de Esporte na Folha de S.Paulo e blogueiro (blogdotorero.blog.uol.com.br)

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