Encontro prodigioso

Uma trajetória incomum entre a arte e a natureza, plena de combates, beleza e dor. Assim é a vida do artista plástico e ativista ambiental Frans Krajcberg, prestes a completar 92 anos

Além das artes plásticas Krajcberg dedica-se também à fotografia, com a qual demonstra um olhar especial para os temas da natureza (Foto: Renata Braga)

Na década de 1970, Frans Krajcberg instalou seu ateliê no município de Nova Viçosa, no sul da Bahia. O lugar rodeado pela Mata Atlântica recebeu o nome de Sítio Natura, e lá o artista vive até hoje, numa casa construída em cima de um enorme tronco de árvore e onde também começou a construir um museu. Na fase madura de sua produção, numa batalha contínua que reúne sensibilidade e denúncia, Krajcberg expõe, por meio de fotografias e esculturas – feitas de matérias calcinadas da vegetação, como árvores, troncos, raízes –, a destruição causada por queimadas e desmatamentos no Brasil. 

O próprio artista não tem tido sossego em seu refúgio, porque ali passou por assaltos umas tantas vezes e o clima de tensão aumenta pelo fato de já terem ateado fogo à mata do sítio. É preciso ter boa reserva de disposição para a luta, matéria da qual se fortalece desde criança.  Nascido na cidade de Kozienice (Polônia), em abril de 1921, é o terceiro de cinco filhos de uma família judia. Em criança, costumava se isolar na floresta, onde fazia seus primeiros questionamentos existenciais. 

Adolescente, Frans Krajcberg começou a se politizar e a ter vontade de pintar, mas a dificuldade trazida pela pobreza era grande – faltava dinheiro até para comprar papel. Estranhamentos e traumas maiores ainda estariam por vir, num mundo assolado pela barbárie: em 1939, ele perdeu toda a família, vítima do Holocausto, no limiar da Segunda Guerra Mundial. Chegou a servir no Exército polonês por quatro anos e, terminada a guerra, abandonou a vida militar. Aprendeu arte e engenharia na Universidade de Leningrado, na Rússia. 

Em busca de novos ares para se lançar ao universo da arte, mudou-se para a Alemanha e ingressou na Academia de Belas Artes de Stuttgart. Conheceu a escola Bauhaus e os grandes movimentos da arte moderna. O mestre Willi Baumeister, depois de reconhecer o significativo talento de seu pupilo – ao qual já tinha premiado duas vezes –, aconselhou- o a continuar os estudos em Paris. Krajcberg chegou lá com uma carta de recomendação a Fernand Léger. Em certa ocasião, numa festa na casa do pintor Marc Chagall, um dos convidados, dono de uma agência de viagens, sugeriu-lhe morar no Brasil – que ele nem sabia onde ficava.

A passagem para o Rio de Janeiro, em 1948, e junto com ela o distanciamento de um continente que marcara Krajcberg por vivências traumáticas, foi presente de Chagall. Saído de uma atmosfera em que a morte era mais cotidiana do que a vida, da solidão e do silenciamento em torno de suas memórias dolorosas o artista foi arrancando o impulso para viver. 

Espaço FK CuritibaUma peculiaridade: ficar apenas em companhia própria não era nem foi uma opção que o assustasse, pois não teve filhos nem se casou. Nas dobras insondáveis de um futuro que estaria por chegar, sua mudança para o Brasil representaria a abertura a uma experiência desafiadora.

A obra do brasileiro nascido da Polônia foi consagrada, nacional e internacionalmente. O Espaço Cultural Frans Krajcberg, em Curitiba (acima), e o Espaço Krajcberg, em Paris, expõem pinturas, esculturas e fotografias do artista (Foto: Manu Dias/AGECOM)

Sem falar o idioma, e sem dinheiro no bolso, sua morada por certo tempo foi a praia de Botafogo e outros espaços igualmente precários. Mas isso não podia durar muito e, ainda naquele ano, rumou para São Paulo à procura de trabalho. Foi contratado como encarregado da manutenção do Museu de Arte Moderna de São Paulo e trabalhou com Mario Zanini, Volpi e Waldemar Cordeiro. 

Escultura FK ParisEm 1951, conheceu o mecenas Ciccillo Matarazzo e conseguiu vaga para trabalhar na montagem da primeira edição da Bienal de São Paulo, evento no qual expôs alguns de seus quadros. No mesmo ano mudou-se para o Paraná, onde desempenhou a função de engenheiro numa fábrica de papel. A decepção, no entanto, foi tamanha que abandonou o emprego e decidiu isolar- se na floresta para pintar.

“Detestava os homens. Fugia deles. Levei anos para entrar em casa de alguma pessoa. Isolava-me completamente. A natureza me deu a força, devolveu-me o prazer de sentir, de pensar e de trabalhar. De sobreviver. Quando estou na natureza, penso a verdade, digo a verdade, exijo-me verdadeiro. Um dia me convidaram para ir ao norte do Paraná. As árvores eram como os homens calcinados pela guerra. Não suportei. Troquei minha casa por uma passagem de avião para o Rio”, relatou em entrevista concedida a Denise Mattar, para o catálogo de uma exposição de suas obras no Centro Cultural Banco do Brasil.                   

Nessa nova temporada no Rio (1956 a 1958), dividiu o ateliê com Franz Weissmann e logo começou a pintar uma série de samambaias. O projeto rendeu-lhe o prêmio de melhor pintor brasileiro na Bienal de São Paulo de 1957. A inquietação novamente bateu à porta, ele vendeu suas telas e foi para Paris. Em 1964, quando recebeu o prêmio na Bienal de Artes da cidade de Veneza, resolveu voltar ao Brasil e instalar seu ateliê em Cata Branca, próximo ao Pico do Itabirito, em Minas Gerais. Ali fez suas primeiras esculturas com troncos de árvores mortas. Não teve paragem. Seguiu para a Amazônia e para o Pantanal Mato-Grossense, denunciou desmatamentos por meio de esculturas feitas com cipós, raízes e troncos, além de séries de fotografias.

Ao lado dos amigos Sepp Baendereck e Pierre Restany, Krajcberg viajou pelos rios Solimões, Amazonas, Purus, Negro. Ficaram fascinados pela beleza excepcional da região, e estarrecidos com a devastação. “Hoje, vivemos dois sentidos da natureza: aquele ancestral, do ‘concedido’ planetário, e aquele moderno, do ‘adquirido’ industrial e urbano. Pode-se optar por um ou outro, negar um em proveito do outro; o importante é que esses dois sentidos da natureza sejam vividos e assumidos na integridade de sua estrutura antológica, dentro da perspectiva de uma universalização da consciência perceptiva – o Eu abraçando o mundo, fazendo dele um uno, dentro de um acordo e uma harmonia da emoção assumida como a única realidade da linguagem humana”, declaram, no Manifesto do Rio Negro, que lançariam em 1978.

A obra do brasileiro nascido da Polônia foi consagrada, nacional e internacionalmente. O Instituto Frans Krajcberg, em Curitiba, e o Espaço Krajcberg, em Paris, expõem pinturas, esculturas e fotografias do artista. 

casa FK bahiaEm fevereiro, a Assembleia Legislativa da Bahia aprovou projeto que cria a Fundação Museu Frans Krajcberg. Além de Nova Viçosa, o novo espaço também terá uma unidade em Salvador. O artista doou seu patrimônio ao Estado da Bahia.

A fantástica casa do artista, em Nova Viçosa, sul da Bahia (Foto:Eduardo Knapp/Folhapress)

Nas entrevistas que tem concedido, ele costuma se queixar da espera pela concretização de novos espaços para exposições permanentes de suas obras. Reclama também da própria falta de segurança que sente onde vive, no Sítio Natura. E, ainda, do surgimento no mercado de obras falsificadas atribuídas a ele.

Nada disso, no entanto, fez com que perdesse a gana de viver rodeado pela mata, pelas árvores frutíferas, pelas bromélias, pelo pau-brasil. E de falar sobre arte. De quando em quando lhe perguntam a qual movimento artístico se alinha. A nenhum, expressou certa vez: “Os únicos movimentos que me levam são os dos astros, marés e ventos. A Natureza é a minha arte – como posso fugir dessa realidade?” A natureza e a arte, entrelaçadas por forte comprometimento socioambiental na paleta e na vida do artista, são testemunhas da fidelidade de Krajcberg a esse princípio.

Flor do Mangue

 

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