Os postais de Niemeyer e o modernismo

Ele assinou mais de 2 mil obras pelo mundo e arquitetou um Brasil moderno, mas a urbanização do país tomou rumos que não estavam em sua prancheta

Centro Niemeyer en Avilés, Asturias (Foto:Certo Xornal/ Flickr/ CC)

Palácios do Planalto, da Alvorada, prédios do Congresso Nacional e, aliás, as principais edifi­cações do Plano Piloto de Brasília. Parque do Ibirapuera e Edifício Copan, em São Paulo. Conjunto Arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte. Bolsa de Trabalho de Bobigny, a sede do Partido Comunista Francês,­ e Centro Cultural Le Havre, na França. Editora Monda­dori, na Itália. Universidade de Constantine, na Argélia. Pestana Casino Park, em Portugal. Alguns cartões-postais arquitetônicos de importantes cidades do mundo têm em comum a célebre assinatura de Oscar Niemeyer. Mas, além dos edifícios com um estilo bastante particular, ele projetou influências para muitas gerações de novos arquitetos. Talvez nenhum outro arquiteto tenha produzido tanto durante tão longo período de atividade como Niemeyer, nascido em 15 de dezembro de 1907.

“O vocabulário da arquitetura moderna brasileira deve muito ao seu trabalho inicial. Os arquitetos modernos brasileiros são todos seus seguidores. Ele influenciou a lógica de pensar o objeto arquitetônico e sua inserção, mais que na cidade, na paisagem”, define o professor Luiz Antonio Recamán Barros, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP). “Não podemos falar, porém, de uma escola ou mesmo de seguidores diretamente, ainda que muitos façam referência direta às suas soluções consagradas, mas em contexto bastante diverso. As condições políticas e nacionais que permitiram a extensa atividade de Niemeyer são dificilmente reproduzidas hoje, no Brasil ou em qualquer outro país do mundo.”

Oscar Niemeyer começou trabalhando na tipografia do pai, filho de um ministro do Supremo Tribunal Federal, até ingressar em 1929 na Escola Nacional de Belas Artes, onde se formou arquiteto e engenheiro cinco anos depois.

Seu primeiro projeto individual foi erguido em 1937, a Obra do Berço, no bairro da Lagoa, no Rio de Janeiro, marcada pela presença de pilotis e de planta e fachada livres, o que possibilitava a abertura total de janelas na fachada, do terraço-jardim e do brise-soleil, ou quebra-sol – clara inspiração nos elementos defendidos pelo franco-suíço Le Corbusier.

Essa influência repetiu-se em 1943, quando foi inaugurado o novo edifício do Ministério da Educação e Saúde Pública, fruto de uma assessoria pedida pelo urbanista Lúcio Costa ao escritório de Le Corwusier. Elevando-se da rua por meio do apoio de pilotis, o prédio contou com azulejos de Cândido Portinari, esculturas de Alfred Ceschiatti e jardins de Roberto Burle Marx. Ou seja, os maiores nomes do modernismo brasileiro e, por isso, considerado o primeiro marco da arquitetura moderna do Brasil.

“O projeto elaborado por integrantes de movimentos de vanguarda nas primeiras décadas do século 20, como Walter Gropius, Le Corbusier e Mies van der Rohe, tinha como premissa um espaço moderno, abstrato, apartado da tradição e da história. A cidade moderna será a concepção suprema do projeto moderno e, consequen­temente, da própria arte moderna. Oscar Niemeyer é o arquiteto que materializa a utopia das vanguardas”, afirma o professor Rodrigo Queiroz, do Departamento de Projeto da FAU-USP.

 

Mosaico

 

 

Da esquerda para direita:
Congresso Nacional e Catedral de Brasília (Ricardo Moraes e Ueslei Marcelino/Reuters); Igreja da Pampulha, Belo Horizonte (Rosino/Flickr/CC) e Centro Cultural Oscar Niemeyer, Avilés, Espanha (Eloy Alonso/Reuters); e Pavilhão da Bienal, Ibirapuera, São Paulo (flickr.com/stop_me) e Museu de Arte Contemporânea de Niterói (Guilherme Jófili/Flickr/CC)

A primeira obra de Niemeyer a alcançar grande projeção, a ponto de ser considerada por muitos seu melhor trabalho, é o Conjunto Arquitetônico da Pampulha. Em 1940, o então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, encomendou-lhe uma série de edificações para a área homônima situada na zona norte da cidade. Foram construídos, ao redor de um lago artificial, um cassino, uma igreja, uma casa de baile, um clube e um hotel. O desenho da Igreja São Francisco de Assis aborreceu o clero, que se recusou a benzer a obra por causa do cachorro junto ao santo no mural de Cândido Portinari.

“Entre seus mais de 2 mil projetos, creio que os mais importantes foram os que deflagraram uma nova linguagem para a própria arquitetura moderna no Brasil. No conjunto da Pampulha, pela primeira vez Niemeyer experimenta a curva de modo mais livre. Nos edifícios de Brasília, está representada uma revisão crítica sobre sua própria linguagem”, explica Queiroz. Para Recamán Barros, o projeto da Pampulha definiu os caminhos da arquitetura nas décadas seguintes.

“Em São Paulo, temos o Copan e o Parque do Ibirapuera, definitivos para enfrentar o grande desafio que se apresentava ao país: a urbanização paulista, a grande metrópole. Foram fundamentais para as soluções encontradas em Brasília, sem dúvida um marco para a arquitetura internacional.”

O projeto da nova capital federal surge como mais um convite de JK, agora presidente da República, ao arquiteto, que em 1957 abre concurso público para o Plano Piloto. O projeto vencedor é de Lúcio Costa, seu amigo e ex-patrão. A construção de uma cidade em tempo recorde chama atenção, assim como seus edifícios, caso da Catedral de Brasília e do Palácio do Planalto, e os conceitos modernistas postos em prática, como o privilégio ao automóvel e os blocos de edifícios afastados, em pilotis sobre grandes áreas verdes.

“Niemeyer foi responsável pelos edifícios mais importantes e Lúcio Costa, pelo Plano Piloto. Um evento com tamanha complexidade não pode ser avaliado em termos de acerto ou erro. Brasília foi projetada e construída quando muitos pressupostos sobre os quais foi idealizada já estavam sendo revistos no debate sobre cidade e arquitetura, como o zoneamento restrito, a ênfase na circulação de automóveis”, avalia Recamán Barros. Seu principal problema foi a impossibilidade de tratar a questão social e habitacional dos trabalhadores que a construíram e daqueles que para lá foram atraídos. “As cidades-satélites, que herdamos desse audacioso projeto, representam a dimensão desse problema.”

Uma proposta inicial de Brasília era que todas as moradias pertenceriam ao Estado e seriam utilizadas pelos funcionários públicos, algo então considerado próximo do ideal socialista.

Niemeyer sempre esteve envolvido com a luta política, foi filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e emprestou a própria casa para que Luiz Carlos Prestes montasse o comitê do partido. Durante alguns anos do regime militar, foi morar na França. Mas segundo o cineasta Fabiano Maciel, diretor e roteirista do documentário A Vida É um Sopro, a respeito do centenário do arquiteto, sua obra não foi tão marcada por suas predileções políticas. “Ele mesmo discordava da arquitetura soviética, por exemplo.”

Nenhum outro arquiteto brasileiro, na opinião de Recamán Barros, soube interpretar os anseios e conflitos da modernização social do país e a necessidade de criação de fortes emblemas nacionais durante o processo de formação do Estado moderno, dos anos 1930 até a construção de Brasília.

“Ele foi responsável por uma das mais fortes e constantes imagens da nacionalidade.” O professor da FAU-USP é autor de tese de doutorado em Filosofia – Oscar Niemeyer: Forma Arquitetônica e Cidade no Brasil Moderno. “O grande problema da arquitetura moderna brasileira é exatamente o fato de não considerar a complexidade das cidades e do processo de urbanização que o país viveu desde os anos 1940. Os importantes edifícios não lograram interferir, positivamente, na estrutura urbana que ­estaria por vir.”

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Museu de Arte Contemporânea, Niterói (Foto:Sergio Moraes/Reuters)Passeio em Niterói

Desde o início de novembro, está aberto à visitação o Caminho Niemeyer, em Niterói (RJ), que percorre 3.500 metros da orla da cidade e passa por várias construções projetadas pelo arquiteto, como Teatro Popular, Fundação Niemeyer, Memorial Roberto Silveira, Praça JK, Centro Petrobras de Cinema e Estação Hidroviária de Charitas, terminando no já tradicional Museu de Arte Contemporânea da cidade, inaugurado em 1996. “O Caminho Niemeyer pronto vai causar uma revolução cultural-turística e produtiva na cidade de Niterói e uma repaginação do centro. A cidade passa a ser a segunda do mundo com a maior quantidade de obras projetadas por ele”, diz Liberato Pinto, diretor da Niterói Empresa de Lazer e Turismo, autarquia subordinada à prefeitura.

 

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