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Infeliz aniversário

Kassab entra em seu último ano de mandato com nota de reprovado como prefeito
Publicado por Suzana Vier
16:15
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O prefeito tem nota 4,5 após seis anos (Foto: Fábio Rodrigues Pozzebon/ABr)

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, entra em seu último ano de mandato em 2012 com nota vermelha. A poucas semanas de a cidade comemorar seus 458 anos, uma pesquisa apurou a nota que a população lhe dá: 4,5. Depois de assumir a prefeitura em 2006 no lugar de José Serra e ganhar nas urnas, em 2008, o direito de permanecer, Kassab destacou-se por suas lições sobre como valorizar imóveis. Se o presidente do PSD desistisse da política, o ramo imobiliário o esperaria de braços abertos. Não por acaso, ele já foi membro do Conselho Regional de Corretores de Imóveis.

Em seus quase seis anos de gestão, Kassab jogou em muitas posições, defendeu, atacou e marcou muitos gols para o time das construtoras, empreiteiras e incorporadoras. Outros, ele ainda espera marcar em seu último ano, como a venda de 20 terrenos municipais para a iniciativa privada em troca da construção de creches. Quanta bondade. Vender terrenos em áreas nobres, das mais caras do mundo, suspeitas de inflar uma bolha imobiliária, em troca de creches. Estariam aí as 140 mil vagas que a maior cidade do continente precisa?

Tirando as do mercado imobiliário, o prefeito se mostrou ruim de metas. Atingiu 23,8% das que ele mesmo se deu. Deixou de construir três hospitais e corre com o asfalto atrasado, pois outubro vem aí

Ah, tem a desapropriação de milhares de imóveis – fala-se em 10 mil –, de bairros do distrito do Jabaquara, zona sul. A operação urbana consorciada Água Espraiada vai remover perto de 30 mil pessoas para a construção de um túnel de alguns bilhões de dólares para ligar a Avenida Roberto Marinho à Rodovia dos Imigrantes. Outro projeto aplaudido pelas incorporadoras é a desapropriação de 45 quarteirões da região histórica da Luz e de Santa Ifigênia. Pela proposta da prefeitura, os dois bairros serão administrados por quem pagar mais e ganhar a licitação. Em troca, a empresa ou grupo poderá desapropriar imóveis de quem mora ou tem negócio por lá.

E, como nenhuma profissão é um mar de rosas, Kassab também entrou em bolas divididas e causou expulsões. Por muito tempo, artistas de rua foram reprimidos e impedidos de exibir-se­ na cidade. Que perigo uma estátua viva representa? Ou um garotinho cantor que sonha com o estrelato? Ou uma dupla de repentistas desafiando-se enquanto provoca risos a sua volta?

Outro jogo feio foi a tentativa de reduzir a merenda de creches, aumento do IPTU em até 300%, jogar jatos d’água em morador de rua de madrugada, fechar albergues, mandar a guarda civil retirar à força pessoas em situação de rua, virar as costas aos dependentes de crack, criminalizar movimentos sociais, mandar a polícia em cima de estudantes contrários ao aumento do ônibus, retirar terreno de catadores de materiais recicláveis, não usar os recursos para obras antienchentes.

Para os trabalhadores dos serviços públicos, dá-lhes vale-coxinha, que ainda pode virar vale-ossinho. Discutir salário é bola dividida, e ele chuta para o lado que está virado. Nesse jogo, teve também cabeçada em camelôs, cheques-despejo de R$ 300 para famílias removidas de diversas áreas da cidade, de preferência para bem longe de onde a vida delas acontece.

Tirando as do mercado imobiliário, o prefeito se mostrou ruim de metas. Atingiu 23,8% das que ele mesmo se deu. Deixou de construir três hospitais e corre o asfalto atrasado, pois outubro vem aí. Mas não para deixar um tapete os corredores de ônibus que não fez. Não ia ser ele, que valoriza tanto a cultura paulistana, que começaria a rever a cultura de privilegiar os automóveis que entopem as ruas.

Não foi à toa que a torcida chiou. Pagou para ver um prefeito que atingiu 60% de ótimo/bom durante as propagandas televisivas da campanha eleitoral de 2008. E agora, segundo pesquisa Datafolha divulgada em dezembro, 72% dos paulistanos acham que o prefeito não cumpriu o que se esperava dele – isso num tempo de economia aquecida e arrecadação em alta. Mas nem tudo está perdido. Neste janeiro, São Paulo comemora seu último aniversário tendo Kassab como prefeito­. E como controlar o descontentamento da população em outubro­? Controlar? Ops…