Nau sem rumo

Parte do bloco que aderiu ao euro reclama e põe em dúvida o processo de integração. Crise desnuda limite de padrão de desenvolvimento e deprime crença na democracia

Manifestantes na Puerta del Sol, em Madrid (Foto: © Andrea Comas/Reuters)

No último dia 22 de julho, dois ônibus partiriam lotados da Praça Catalunha, em Barcelona, rumo a Torrejón de Ardoz, na região metropolitana de Madri. Seus passageiros iriam juntar-se à Marcha Popular Indignada – protesto itinerante contra as medidas econômicas impostas por governos europeus frente à crise financeira –, desencadeada pelo movimento conhecido como Democracia Real Já, ou 15-M. O nome lembra o dia (15 de maio) em que manifestantes mobilizados a partir das redes sociais, como Facebook e Twitter, foram às ruas. Tomaram a praça da Porta do Sol para ali acampar e chamar a atenção da sociedade para a insustentabilidade do modelo econômico vigente no mundo.

Da Praça Catalunha, onde se realizou uma acampada em seguida à de Madri, o 15-M passou a articular atividades em diversos bairros com o objetivo de disseminar a bandeira da democracia direta. Outros espaços públicos foram ocupados. A Marcha Popular Indignada partiu em 25 de junho de seis pontos do território espanhol. Ao longo de cada trajeto, assembleias populares avolumavam reivindicações sociais. Em 23 de julho, a marcha chegou a Madri para entregar ao Parlamento o documento resultante da peregrinação por mais de 300 povoados e cidades espanholas. A experiência constatou dificuldades comuns a diferentes comunidades, como os cortes em investimentos públicos em saúde e educação.

Os amigos José, Nestor e Mônica, funcionários de um hospital próximo de Barcelona, conversam com a reportagem. “Sempre participei dos debates na Praça Catalunha, embora nunca tenha ficado acampado. Agora, com cortes de recursos públicos do hospital, eu não podia deixar de participar da chegada a Madri”, disse José. “Luto pelo aumento do meu salário, que vem sendo cortado, mas também pelo direito das pessoas à saúde. O quadro de pessoal encolheu, mas o volume de atendimento não”, comentava Mônica.

Muitos militantes do 15-M estão entre os 40% da população jovem que não conseguem emprego. Na chegada a Torrejón de Ardoz, os ativistas começaram a andar rumo a Madri, onde encontraram os integrantes das outras cinco rotas da marcha e simpatizantes vindos de Portugal, Itália, França e Grécia. No dia seguinte, uma multidão caminhou da estação Atocha à Porta do Sol para protestar contra o capitalismo e a democracia representativa, que acusam de limitada – “Que no, que no nos representa!”, entoavam, denunciando que interesses de empresários e banqueiros são postos acima das necessidades da maioria da população. Na segunda, 25, no Fórum Social organizado no Parque do Retiro, integrantes do 15-M­ lembravam que poderosas instituições estimularam as operações que fizeram a bolha especulativa explodir e hoje lucram com os desdobramentos da crise.

Na Praça Sintagma, em Atenas, uma acampada com raízes similares às do 15-M espanhol reage aos recentes cortes de direitos sociais anunciados pelo governo grego como condições impostas pelo Parlamento Europeu, Alemanha, França e Fundo Monetário Internacional (FMI)para socorrer as finanças do país.

Na Espanha, o Congresso, de maioria socialista, aprovou o aumento da idade mínima para aposentadoria e a redução de direitos dos trabalhadores. Em Barcelona, chovem protestos contra a aprovação de um pacote de cortes de direitos sociais pelo Parlamento da Catalunha. A essa situação os movimentos associam a crise dos Estados Unidos, e dão dimensão global ao problema.

Uma solidariedade entre nações manifesta-se em nova marcha, que deixou Madri no dia 26 de julho rumo ao Parlamento Europeu, em Bruxelas, Bélgica, com chegada prevista para 15 de outubro. No dia 17 de setembro, os peregrinos esperam se encontrar em Paris com militantes franceses e de Portugal, Itália, Grécia, Suíça, Alemanha, Bélgica, Holanda, Inglaterra e Irlanda. Na mesma data, 20 mil pessoas acamparão em Manhattan, Nova York, para perturbar a ordem financeira em Wall Street. Com fé no lema “ir devagar para chegar longe”, os indignados consideram a crise fruto de uma falsa ideia de democracia – sem poder para as maiorias – que rege o planeta.

Confrontos violentos marcaram os protestos gregos (Foto: ©Yannis Behrakis)Tragédia grega

Autodefinido como “otimista trágico”, o sociólogo português Boaventura Sousa Santos, diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, vaticinou em entrevista recente: “Provavelmente, daqui a um ano, estaremos na mesma situação que os gregos”. Medidas de austeridade deverão, segundo ele, ser sentidas em Portugal a partir deste agosto. “São os transportes públicos a aumentar 15%, as quebras de salário, o aumento do desemprego. As pessoas vão deixar de poder cumprir os seus compromissos e vão entregar as casas e os carros comprados a prestações.” Não é um sentimento isolado.

Todo o esforço para preservar a zona do euro, posta em xeque por “sócios minoritários”, parece desconsiderar que há pessoas por trás dos números sobre gastos públicos ou déficit fiscal. Sousa Santos vê um período de “transição paradigmática”, um problema de civilização que “tem a ver com o tipo de sociedade que hoje temos e toma, por exemplo, a natureza como um recurso inesgotável” e não se resolve em uma geração. Mas, na questão econômica, algumas medidas são de natureza urgente. “Se não houver uma regulação dos mercados financeiros, o euro desaparece e, com ele, desaparece a Europa como a conhecemos.”

O euro circula desde 2002. É usado por mais de 300 milhões de pessoas em 17 dos 27 países que compõem a União Europeia – Reino Unido e Dinamarca estão entre os dez integrantes do bloco que decidiram não adotar a nova moeda.

E já existe quem considere possível a saída de países de economia “mais frágil”. O pesquisador João Rodrigues, da Universidade de Coimbra, define assim a situação de Portugal: “Estamos entre um euro do qual não podemos sair e no qual não podemos ficar”. Ele considera o Banco Central Europeu refém dos interesses do capital financeiro. “O Consenso de Washington é hoje o Consenso de Bruxelas”, diz, associando o tratado do neoliberalismo à sede da União Europeia.

Para o sociólogo e economista Vicenç­ Navarro, professor da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, o problema da falta de estabilidade do euro deve-se ao fato de que não há um Estado que dê suporte contra as avalanches especulativas. “O poder do capital financeiro nos países da UE-15 (os primeiros a adotar a moeda) é excessivo e atende as classes dominantes de cada país da zona do euro.”

Navarro afirma que tais classes e grupos transnacionais formaram a estrutura da zona do euro com o objetivo de enfraquecer o mundo do trabalho. “Hoje estamos vendo a aplicação de políticas de corte neoliberal (desregulação dos mercados de trabalho, enfraquecimento das convenções coletivas e dos sindicatos e redução do Estado de bem-estar social), que têm o propósito de reduzir os salários e debilitar as classes trabalhadoras.”

O mercado de trabalho mostra comportamento diferenciado entre os países. A nave-mãe do continente, a Alemanha, exibe taxa de desemprego de 7%, enquanto a Espanha fechou o segundo trimestre com 21% e a Grécia, com 16%. Reunião do Conselho da União Europeia, em julho, aprovou novas regras para auxílio a países­ em dificuldade, com atenção especial à Grécia. Mas o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, afirmou que não assinaria cheque em branco na compra de títulos da dívida de alguns países. “Um Estado que tenha problemas e seja ajudado terá, em contrapartida, de abdicar de parte da sua soberania em favor da União Europeia”, declarou à Agência Lusa.

Para João Rodrigues, a questão central é que o bloco tem uma moeda única, mas não uma política econômica. E isso cria um clima anti-euro. “É uma crise sistêmica, não só de países.” O dilema é saber se o Velho Mundo caminhará para o incremento de sua integração ou para a desagregação. Os países com dificuldades já somam um universo considerável. “Se juntamos Itália e Espanha (a Portugal, Grécia e Irlanda), estamos a falar de 35% da zona do euro”, observa.

O professor André Martins Biancareli, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), concorda que o euro está em uma encruzilhada.

O que um país como a Grécia poderia fazer, por exemplo? “Uma solução seria baixar a taxa de juros e subir a de câmbio, mas a Grécia não tem essa opção”, diz Biancareli. Sair da zona monetária comum também seria um risco, uma vez que toda a dívida do país está em euro. A situação de Grécia e Portugal assemelha-se à do Brasil dos anos 1980-90: o corte drástico de gastos mantém o país em uma roda-viva desestimulante, a dívida cresce, e a economia não. “É um processo muito doloroso e conflituoso.”

Portugal, por exemplo, sofreu com a reestruturação em setores intensivos em mão de obra, como o têxtil. Avançou no setor de serviços, mas perdeu terreno na indústria. Em 1999, o desemprego estava em 4% – hoje, acima de 12%. Resultado: “É um dos países da Europa com maior insatisfação com o euro”, diz João Rodrigues. Embora, acrescenta o pesquisador da Universidade de Coimbra, “a adesão à moeda tenha ocorrido com entusiasmo”. Até porque, em alguns casos, significou a transição de ditaduras que duraram décadas para um espaço mais democrático. “Mas não houve valorização econômica”, lamenta.

Geração deprimidaA violência marcou as manifestações também na Irlanda do Norte (Foto: ©Cathal McNaughton/Reuters)

A economia da Irlanda foi uma das primeiras a ruir. O euro foi introduzido em 1999 – quando o país era uma das nações mais prósperas do mundo – e começou a circular em janeiro de 2002, tomando o lugar da libra irlandesa. O historiador Gavin Reddin, 33, lembra que tudo ficou mais caro. “As taxas de juro, definidas pelo Banco Central Europeu, eram muito baixas naquele tempo e, em vez de poupar, começamos a tomar crédito em bancos para gastar com toda sorte de produtos de que não precisávamos”, recorda.

No setor imobiliário, os bancos financiavam tanto o construtor quanto o comprador. A equação preços altos e juros baixos provocou uma bolha imobiliária que estourou com a crise de 2008. Muitos não conseguiram saldar dívidas, obras pararam e hoje, mesmo com preços mais baixos, ninguém tem dinheiro para comprar. Para Reddin, as desvantagens do euro foram inúmeras. “Perdemos autonomia. Quando crescíamos rápido nos idos de 2001, precisávamos de altas taxas de juro como forma de conter a inflação, porque os preços fugiam ao controle. E, quando houve o crash de 2008, precisávamos de taxas menores, mas outros paí­ses da União Europeia não, e sofremos as consequências”, avalia.

O euro e a União Europeia fracassaram, na opinião de Reddin, por juntar num “balaio de gatos” países de economias muito distintas. Ele acredita que o fim da moeda única está próximo – “a menos que a Alemanha tome a frente na gestão das fracas economias do bloco e pague por elas, o que não acredito que fará”.

Tommy Tian, 30 anos, largou Shenyang, nordeste da China, rumo a Dublin, em 2001. “Mesmo que você chegasse aqui sem falar inglês, era mais fácil arranjar emprego, o salário era melhor.” Tommy trabalha em lanchonete e nunca caiu no conto do crédito fácil, mas viu amigos se endividarem. “Alguns voltaram.” Ele mesmo não descarta retornar ao seu país. Antes, quer criar um pouco o filho em solo irlandês para que “aprenda inglês e possa ter uma vida boa na China”.

Os italianos também adotaram o euro em 2002. Da noite para o dia, viveram uma experiência já vista pelos brasileiros, com sucessivas trocas de moedas e corte de zeros. Imagine que o país começou agosto com € 1 equivalendo a 2.000 liras. “Comerciantes e prestadores de serviços valeram-se do espírito de esperteza e ‘arredondaram’ produtos e serviços que custavam 1.000 liras para € 1”, lembra o piloto Antonio Ruju, 28 anos, da província de Nuoro, Sardenha. “A lira italiana nunca foi moeda forte, mas éramos mais ricos”, avalia.

Ruju lamenta os dramas de seu país, em relação tanto à União Europeia como bloco quanto às trapalhadas do primeiro-ministro Silvio Berlusconi. “Experimentamos o pior momento de nossa história. Como todo mundo sabe, nosso primeiro-ministro está envolvido em toda sorte de falcatruas e negócios escusos”, dispara.

Empregado e com bom salário, Ruju não se sente feliz porque vê seus amigos infelizes e percebe o país deprimido. “Vivemos numa situação insustentável, mas creio que teremos de conviver com isso por mais alguns anos”, desabafa. Sua geração corre o risco de ter padrão de vida inferior ao de seus pais. O piloto tem amigos médicos, engenheiros e advogados que mandam currículos para dezenas de lugares e só recebem propostas para contratos de, no máximo, cinco meses, sem promessa de renovação, por ganhos de € 500 mensais. “Como alguém pode ter uma vida normal dessa forma?”

 

Capitão América em ação

Manifestação de trabalhadores em servições de limpeza em Nova York

Em julho, o filme Capitão América entrou em cartaz. Enquanto o herói americano desbancava Harry Potter da liderança de bilheteria, na vida real um acordo no último minuto do segundo tempo entre governo e oposição evitou o risco de um calote norte-americano, situação razoavelmente comum nas economias latinas na década de 1980, mas impensável no caso da principal economia global.

O professor da Unicamp André Biancareli afirma, com ironia, que Barack Obama “entregou a chave do cofre aos republicanos”. Durante semanas, o presidente democrata tentou um acordo que evitasse redução de gastos públicos, principalmente na área social. Mas o país ainda tropeça na busca pela recuperação. Cresceu abaixo do esperado no segundo trimestre (1,3%) e o consumo das famílias, principal componente do PIB, quase não aumentou. A taxa de desemprego ainda se mantém próxima dos 10%.

Com dois filhos na faculdade, o faxineiro Elpídio Sanchez, 47 anos, morador do Bronx, em Nova York, diz que a vida está muito difícil. “Tudo está muito mais caro. Temos de trabalhar mais e cortar gastos. Para economizar, não ligamos o ar-condicionado no verão, ficamos em casa o tempo todo, não viajamos nas férias. Eu não tenho um carro e todo o meu dinheiro vai para os planos de saúde e para a educação dos meus filhos, que é o melhor que eu posso dar para eles”, conta Sanchez, que emigrou da República Dominicana para os Estados Unidos há 22 anos.

Para ele, a política dos republicanos é míope por se limitar ao equilíbrio orçamentário e não levar em consideração a qualidade de vida e o futuro das pessoas. “Estão falando em cortar programas de auxílio aos idosos, que pagaram impostos a vida inteira, e aos pobres, que precisam de cuidados. Mas precisamos pensar também nas gerações futuras.”
Gaspar Santiago, 41 anos, pai de dois filhos, é diretor de segurança no edifício Rockefeller Plaza, em Nova York. Ele, americano nato, conta que está trabalhando entre 12 e 16 horas diárias para cobrir as despesas sobretudo com as hipotecas, cujos juros são astronômicos. “Com a economia ruim e o desemprego crescente, fica difícil encontrar trabalho com salário mais alto. Além disso, tudo está mais caro, mas meu salário permanece o mesmo”, reclama.

A prioridade, porém, é a disputa pela Casa Branca nas eleições do ano que vem. Para o economista norte-americano Paul Krugman, enquanto há uma “catástrofe” em vários níveis, como afirmou em artigo no The New York Times, os republicanos põem em dúvida todo o sistema de governo. “Afinal, como a democracia americana pode funcionar se um dos partidos está mais disposto a ser implacável e ameaçar a segurança econômica da nação? Talvez a democracia não consiga.”