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Número 19, Dezembro 2007

cidadania

Zona FM

Vem aí a primeira emissora comandada por prostitutas. Em Salvador, a rádio das minorias quer combater o machismo, o racismo e a homofobia com programação de qualidade e até radionovela erótica
por Tom Cardoso publicado , última modificação 25/09/2017 15h52
Vem aí a primeira emissora comandada por prostitutas. Em Salvador, a rádio das minorias quer combater o machismo, o racismo e a homofobia com programação de qualidade e até radionovela erótica
Fernando Vivas
zonafm

Entre 1985 e 1990, o então presidente José Sarney e o ministro das Comunicações, Antônio Carlos Magalhães, outorgaram 1.028 concessões de emissoras de rádio e TV – 168 delas para veículos de parlamentares que ajudaram a aprovar a emenda que esticou o mandato presidencial. A farra começa a mudar de lado e a chegar às mãos de gente mais nobre. A Rádio Zona FM, comandada apenas por prostitutas, deve estrear em breve em Salvador. A concessão já foi prometida pelo governo. E nem o patrocínio do Ministério da Cultura (180 mil reais) deslumbrou as meninas: na Zona FM “coroné” não dá pitaco. “Será a rádio das minorias, vai combater o machismo, o racismo, a homofobia e a estigmatização das prostitutas”, diz Fátima Medeiros, coordenadora-geral da Associação das Prostitutas da Bahia (Aprosba). “Se políticos têm rádio, prostitutas podem ter.”

Maria de Fátima e Marilene Silva comandam com mãos de ferro a associação, último sopro de resistência contra a “Operação Limpeza”, liderada por Antônio Carlos Magalhães no início dos anos 90. ACM escolhera como principal bandeira política a revitalização do Centro Histórico de Salvador. A ordem era, até o fim do mandato, ter o Pelourinho, sempre associado à marginalidade, transformado num grande shopping a céu aberto. Famílias inteiras foram despejadas na surdina, às vésperas do Natal de 1992 – os casarões foram lacrados para ninguém voltar. Foram removidos 95% dos moradores – entre prostitutas, travestis, músicos, capoeiristas e sapateiros.

Enquanto franquias da Benetton e do Boticário brotavam sobre as pedras cabeça-de-negro no Pelourinho, Fátima e Marilene faziam faxina na delegacia, para onde eram levadas as que mantinham ponto no “novo” Centro Histórico de ACM. Muitas, cansadas do xilindró, foram pescar fregueses em outras bandas. Mas Fátima e Marilene decidiram se profissionalizar. Foram ao cartório mais próximo e fundaram, em 1998, a Aprosba. O tabelião se recusava a fazer o registro. As próprias prostitutas, lembra Fátima, não gostaram do nome – preferiam algo que não desse tanta bandeira. Um nome chegou a ganhar força, Associação das Mulheres Profissionais do Sexo da Bahia, mas as fundadoras, avessas a eufemismos, bateram o pé: quem tivesse vergonha do ofício que arrumasse emprego no Boticário.

A Aprosba iria se juntar a outras 24 associações de prostitutas pelo país. Uma das pioneiras, a do Rio de Janeiro, prestou recentemente “consultoria” para a atriz Camila Pitanga. “Foi a primeira vez que eu vi uma atriz fazendo uma puta de verdade. Antes era tudo muito falso. A Bebel parecia as meninas aqui da Cidade Baixa”, elogia Fátima, 41 anos. Foi justamente para lutar contra velhos estereótipos que Fátima e Marilene deram o mais ousado passo desde que resolveram peitar o tabelião: abrir a primeira rádio do Brasil comandada por prostitutas.

O estúdio da Zona FM foi improvisado numa acanhada sala da sede da Aprosba, no quarto andar do Edifício Bonfim, na Rua das Vassouras, a poucos metros da Ladeira da Montanha. “Será uma emissora basicamente de serviço, mas sem ser chata e séria demais. Teremos, claro, muito sexo, a radionovela erótica, encenada pelas próprias prostitutas, promete, mas não vamos deixar, por exemplo, de fazer programas de prevenção à aids ou de denunciar abusos contra a nossa classe”, diz Fátima.

Algumas mulheres estão fazendo cursos técnicos em radiodifusão, mas nenhuma até agora pretende largar a calçada para virar radialista, nem Fátima e Marilene. A primeira, paraibana criada em Natal, quase 20 anos de Bahia, aprendeu a não depender dos outros desde que ficou confinada nas mãos de um cafetão. De personalidade forte, é a última a dar a palavra na Aprosba. Enlouqueceu quando soube que uma das funcionárias da associação identificou-se ao repórter como professora universitária. “Ela não faz mais programa, é verdade. Mas nunca vai deixar de ser puta. Existe ex-sapateiro, ex-pasteleiro, ex-encanador, mas, ex-puta, não”, diz Fátima, 41 anos – há 20, puta.

A sergipana Marilene Silva tem estilo oposto. Circula com desenvoltura por todos os pontos de prostituição do Pelourinho. É a relações-públicas da Zona FM. Aos 35 anos, 21 de profissão, segue firme na luta – cobra de 15 a 100 reais o programa de uma hora. O preço varia conforme o freguês: quanto mais sujo, mais caro. Para o repórter, de banho tomado, ela faz por 20. O acerto, pelo mesmo valor, acabou sendo por outro serviço: bancar a guia no passeio que o repórter dará pela rua do meretrício mais famosa do centro de Salvador: a Ladeira da Montanha. Marilene, prevenida, não deixa de levar um pacotão com preservativos doados pelo Ministério da Saúde. “As meninas ficam mais mansas quando a gente distribui.”

É impossível ficar indiferente quando se chega à ponta da Ladeira da Montanha. O contraste é inevitável: de um lado, à esquerda, o esplendor da Baía de Todos os Santos, de outro, de frente, sem retoques, o cheiro nauseabundo da decadência. São 900 metros de miséria humana: moradias condenadas pela Defesa Civil, bares imundos e prostitutas ávidas por trabalho. Marilene distribui sorrisos e camisinhas, mas só ouve queixas. Uma pede a atenção do repórter. “Essa aqui só vem aqui para pedir dinheiro para a Aprosba. Quem não dá não tem direito a nada.”

O clima esquenta. Marilene e o repórter decidem pular de prostíbulo. Adiante, três moças fumam à porta olhando para o nada. O repórter quer saber qual é a puta mais antiga da Ladeira, que viveu o glamour dos tempos de Maria da Vovó e o período de decadência. As três respondem: Carmelita! “Mas ela é ‘cobra morta’ (aposentada), virou evangélica”, diz uma delas. “A Carmelita parou de
dar? É ruim, hein!”, provoca outra.

Aos 59 anos, menos de um metro e meio de altura, rechonchuda, vestida toda de branco, Carmelita podia passar por uma vendedora de acarajé. O colar com os dizeres “Disse Jesus: Eu Sou a Porta” seria uma prova de sua conversão ao Evangelho? Não. “Menino, não mistura trabalho com religião.” Tem 40 anos de Ladeira da Montanha. O duro era enfrentar o Professor Clóvis. Quem? “O delegado da Jogos e Costumes. Ô sujeito ruim. Fazia ronda a noite inteira e quando pegava alguma fazendo graça na calçada levava para o xilindró”, lembra. “Ele tinha essa raiva toda da gente porque sua filha era prostituta”, entrega.

Carmelita diz que sua história daria uma ótima radionovela. Em 1974 engravidou de um marinheiro sergipano. “Ele esperou meu filho nascer e sumiu com ele.” Deprimida, jogou-se do quarto andar. “Só quebrei as pernas.” Hoje a vida está mais calma. Seus clientes têm entre 55 anos e 80 anos – de vez em quando aparece um de 40. A meretriz mais antiga da Ladeira da Montanha deseja sorte à Rádio Zona. E antes de se despedir pede algumas camisinhas. “Quantas?” “Vinte tá bom.”

Dona do pedaço
A Ladeira da Montanha é a Rua Barão Homem de Mello, ligação entre a Cidade Alta e a Cidade Baixa. Lá começou o carnaval de rua mais famoso do país, em 1951, quando Dodô e Osmar encheram de alto-falantes um forde-de-bigode e criaram o primeiro trio elétrico. Estréia solitária, já que nenhum “morador” tinha tempo para vadiagem. As meretrizes seguiam à risca a cartilha dos cafetões e policiais: nada de pôr o pescoço fora das janelas. Ali desfilava, segura do anonimato, gente da sociedade. Tabuletas às portas diziam: “Aqui família, favor não importunar”. Jorge Amado e o pintor Carybé eram talvez os únicos habitués que se faziam notar. A partir dos anos 60 a Ladeira da Montanha seguiu a decadência do Centro Histórico. Casarões coloniais, os “castelos”, viraram cortiços. Raparigas antes discretíssimas passaram a disputar clientes a tapa. A cafetina Maria da Vovó, dona do pedaço nos áureos tempos da Ladeira, culpou a classe pela esculhambação: “Depois que as ‘amadoras’ começaram a dar, este lugar não foi mais o mesmo”. Agora, duas forasteiras começaram a recuperar parte da dignidade perdida. “A Ladeira faz parte do Patrimônio Histórico das Prostitutas. Deveria ser tombada”, diz Fátima. E não duvide do seu poder de persuasão.