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Número 19, Dezembro 2007

Resumo

O mundo é um moinho

por Paulo Donizetti de Souza e Vitor Nuzzi publicado , última modificação 25/09/2017 12h07
gerardo lazzari
reuniao

Reflexos da internacionalização e da concentração do sistema financeiro foram debatidos por mais de 200 dirigentes sindicais de Brasil, Argentina, Paraguai, Chile, Uruguai, Colômbia, Peru, Costa Rica, Panamá, Guatemala e Espanha. Na 3ª Reunião Conjunta das Redes Sindicais de Bancos Internacionais – realizada em novembro na Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), em São Paulo –, emergiram problemas semelhantes, como terceirização, desrespeito à jornada e danos à saúde física e mental decorrentes de metas abusivas e do assédio moral, mas em alguns países agravados pelo desrespeito à representação sindical.

No Peru, após a chegada de multinacionais que ameaçavam com dispensa quem não se desfiliasse, só restou um sindicato. No Chile, a terceirização é arrasadora, acordos são impostos sem negociação e os estrangeiros, a pretexto de expandir a “bancarização”, querem abrir agências por 24 horas sem contratar. Na Colômbia e na Guatemala, dirigentes sindicais são vítimas de atentados e execuções. Argentina, Brasil e Uruguai alcançam um patamar superior por força dos acordos coletivos nacionais de trabalho. Mas ainda distante da Espanha, também com acordo nacional, onde a relação é mais próxima do civilizado, com nível de renda e de proteção social que permite um padrão de vida mais digno. Em casos de fusão e incorporação, os trabalhadores contam com poder de intervenção maior.

Em relação à recente aquisição do ABN pelo Santander, será enviado documento ao presidente mundial do grupo, Emílio Botin, e aos governos dos países em questão, em que os empregados reivindicam diálogo e proteção contra demissões imotivadas. No Brasil, o silêncio por ordem do comando espanhol tem marcado as tentativas de negociação. Há cheiro de impasse no ar. Edição da revista Exame no mês passado levantou indícios de ausência de ventos para as naus espanholas. Em nota, o editor Marcelo Onaga aponta que por um suposto “descuido” ibérico a parte brasileira do ABN não caberia ao Santander, mas a um sócio na compra, o Royal Bank of Scotland (RBS) – impasse que estaria exigindo conversas mais sérias e preços mais altos. Estaria em alta também a tensão em torno do currículo de Fábio Barbosa, presidente do Real. Seria a síndrome de Márcio Cypriano, o ex-dirigente do BCN que acabou papando a presidência do Bradesco, seu comprador?

Notícias do padre Júlio Lancelotti

Durante o inquérito em torno do caso do padre Júlio Lancelotti, vítima de extorsão pelo ex-interno da Febem Anderson Batista, apurou-se que o rapaz tem envolvimento em outros golpes. O mais recente, roubar o próprio carro de um estacionamento para enganar o seguro. O padre, da Pastoral do Povo de Rua e conhecido por acolher crianças com aids, sofreu ameaças de ser “denunciado” por Anderson por prática de pedofilia e por manter encontros amorosos com ele e outros jovens. Depoimentos de três parceiros presos do ex-interno estavam repletos de contradições e não se encaixavam nas acusações contra Lancelotti. Outras testemunhas importantes apontadas pelos acusadores inocentaram veementemente o padre. O inquérito está perto de confirmar sua inocência no caso. Resta saber se a imprensa estará disposta a reparar os estragos causados à sua imagem enquanto as acusações garantiam espetáculo.

Era uma vez a Fonte Nova

charge-fonte nova

Construído nos anos 50, o estádio Octávio Mangabeira, mais conhecido como Fonte Nova, em Salvador, quase testemunhou o milésimo gol de Pelé. Lá o Bahia, campeão Brasileiro e da antiga Taça Brasil, festejava suas glórias. Mas a festa do último domingo de novembro, a do acesso à Série B, foi também a última para os sete torcedores que sucumbiram à podridão do concreto, graças à tradição brasileira de fechar as portas para as tragédias sempre com um pouco de atraso. E a Fonte Nova ficou mais perto da implosão do que da Copa de 2014.

Menos pobreza

A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), ligada à ONU, ajuda a entender por que os governos da América Latina não perdem apoio popular. O relatório Panorama Social 2007 detectou a contínua diminuição da pobreza. Na Venezuela a pobreza caiu de 48,6% da população para 30,2%. Na Argentina, de 45,4% para 21%. No Brasil, de 37,3% para 33,3%. De acordo com o estudo, o Brasil está entre os países adiantados em direção aos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio para 2015.

Melhor IDH

“O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil aumentou em relação ao ano passado e permitiu que o país entrasse pela primeira vez no grupo dos países de Alto Desenvolvimento Humano. O país ultrapassou a barreira de 0,800 (linha de corte) no índice – que varia de 0 a 1 –, considerada o marco de alto desenvolvimento humano.” A informação está no relatório anual do IDH, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), divulgado em 27 de novembro.

Outro termômetro da qualidade de vida global, uma enquete feita pelo instituto Invamer Gallup em 134 países, apurou que colombianos, brasileiros e venezuelanos se consideram os habitantes mais felizes da América, sentimento manifestado com base na percepção de bem-estar dos entrevistados.

Os dados da Cepal, do Pnud, do Gallup, sem contar os do IBGE e do Caged, que indicam desemprego em queda e elevação da renda e do trabalho formal, devem provocar outras reações em cadeia. Quem acha que a aliança mídia/oposição pega muito pesado com os governos do continente ainda não viu nada.

Cadê o Cade?

Ao fechamento desta edição da Revista do Brasil, ávida por conquistar seu lugar nas bancas, o mercado editorial estava em compasso de espera. O Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), ligado ao Ministério da Justiça, ainda não havia se pronunciado sobre a fusão das distribuidoras Dinap (da Abril, que fornecia 70% das revistas aos jornaleiros) e Fernando Chinaglia (que entregava os outros 30%). Se isso não é monopólio, é o quê?

¿Por qué non te callas?

Foi de discreta a constrangida a repercussão da grosseria de FHC, que em evento de seu partido disse que quer “brasileiros melhor educados, e não brasileiros liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria”. Dessa vez os jornalões preferiram esconder o preconceito que veio destilado errado. FH empregou “melhor educados”, quando o bom português recomenda “mais bem-educados”. Quem não usufrui o direito de ficar calado acaba mordendo e ofendendo a língua.