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Número 17, Outubro 2007

viagem

Entre o caos e o cais

O destino pode estar a dias dali, via Rio Negro. Alguns trazem a vida toda para dentro dos barcos da Manaus Moderna
por João Correia Filho publicado , última modificação 19/09/2017 14h16
O destino pode estar a dias dali, via Rio Negro. Alguns trazem a vida toda para dentro dos barcos da Manaus Moderna
João Correia Filho
ambiente caótico

Todos os dias, milhares de pessoas dizem não às instalações do porto privado e espremem-se num ambiente caótico, sujo, com grande risco de acidentes dentro e fora dos barcos

Uma moto embarca por 60 reais. Sabão e água sanitária a 1,50 cada garrafa de 2 litros. Bananas viajam por 60 centavos o cacho e 2 reais é o preço para levar um saco com 60 quilos de farinha. Perfumaria é mais caro, entre 5 e 10 reais, dependendo da fragilidade do frasco. Um carneiro pode ir por 4 reais. Cachorro com dono vai de graça. No mais movimentado porto da capital amazonense, conhecido como Manaus Moderna, não é fácil decifrar a lógica dos valores cobrados no embarque de produtos. As tarifas seguem uma ordem pouco compreensível para quem está à margem desse universo que tem o Rio Negro como via de acesso a centenas de cidades do norte do país.

Rarison Silva, tripulante do barco Elyon Fernandes I, conta que em geral o frete é cobrado por volume, “mas pode variar”, de acordo com as posses de quem despacha, com o dia do embarque, o tempo e, principalmente, com a forma como a embalagem se encaixa nos porões de cada barco. Próxima de importantes entrepostos de mercadorias, incluindo o Mercado Municipal Adolpho Lisboa, inaugurado em 1882, a região é ponto de convergência de milhares de comerciantes e viajantes que lotam os barcos de mercadorias e histórias. Tanto a localidade como o porto receberam o nome de Manaus Moderna durante um projeto de urbanização realizado em 1994, que transformou a área em zona portuária e de comércio. Hoje sua modernidade está justamente na resistência ao moderno. Rivaliza com as novas instalações do antigo Porto de Manaus, local oficial de embarque para destinos nacionais, internacionais e contêineres. Construído em 1902, para escoar os negócios milionários da borracha, foi restaurado e modernizado com guichês informatizados, monitores que indicam horário de partida e de chegada, como em aeroportos. A idéia não prosperou, embora o prédio chame a atenção de muitos, principalmente dos turistas.

Em Manaus Moderna tudo é mais simples. Os guichês são guarda-sóis, a lanchonete é um trailer adaptado e o anúncio das partidas é no grito. Três grandes balsas unem-se à terra firme por pontes improvisadas, que substituem as escadas deterioradas pela presença constante da água. Mesmo assim, todos os dias, milhares de pessoas dizem não às instalações assépticas do porto privado e espremem-se num ambiente caótico, com risco de acidentes dentro e fora dos barcos.

Em Manaus Moderna as passagens custam de 20% a 50% menos do que no embarcadouro oficial. Uma passagem para Tabatinga, de 268 reais no guichê, pode sair por 200 nas ruas. “Negociamos direto com o dono do barco, sem aquele monte de impostos cobrados lá dentro”, explica Jailson Silva, um entre centenas de vendedores de bilhetes que circulam na calçada estreita.

Para ele, outra razão é o embarque com mais agilidade, sem passagem por raio X, Polícia Federal, taxas ou limites de carga. O ritmo frenético dos carregadores dá velocidade ao porto. Entre passageiros que se acumulam na proa, passam caixas de frutas, colchões, material de construção, passa cerveja, passa fogão, passa mamão, passa gente, passa açúcar, passam bananas-passas. Tudo muito rápido. Todo mundo tem pressa de entregar e de receber. Uma passagem a bordo do Comandante Santana, com destino a Nhamundá, em território amazonense, ou Faro e Terra Santa, no Pará, custa 30 reais, com direito a dois dias sobre as águas e uma refeição. Um camarote na viagem para Santarém (PA), no Maresia I, sai por 180 reais. Três dias de viagem. Na rede, sai por 50 a 60.

“Lei de oferta e procura, meu irmão”, explica Raimundo Souza de Almeida, 42 anos, metade deles vividos ali, às margens do Rio Negro, primeiro como carregador e atualmente como vendedor de bilhetes. “Quando tem mais barcos, cai o preço; quando tem mais gente, o preço sobe. Se é época de festividades o preço sobe”, completa, sentado em frente a um cartaz com dezenas de fotos de barcos: Princesa Letícia, Almir Guimarães, Leão IV e Manuel Silva II.

É nessa época que outros vendedores do porto fazem seu extra. José Mendes vende óculos de sol. Tira cerca de 50 por “dia bom”, e chega a faturar 180 em vésperas de festivais como o de Parintins, em junho, um dos mais famosos do país. Paulo César Nascimento vende pedaços de corda por 2 reais o par. É produto de primeira necessidade, pois a maioria dos barcos não possui número suficiente de ganchos para que todos acomodem suas redes. Com a cordinha, se amarram a qualquer pedaço de madeira do barco. Paulo César vende 18 pares em dias normais e mais de 70 nos dias de festa. Concorre com milhares de ambulantes, que trazem todo tipo de conveniência: suco gelado, salgadinhos, pão de queijo, laranja descascada, biscoito de polvilho, pano de prato, rádio, fones de ouvido, DVD, canudinho de doce de leite, picolés de açaí com tapioca.

Disputam espaço com os carregadores no vaivém contra o relógio: o Maresia vai sair meio-dia, o Gênesis III às 15h. Como formigas obreiras, levam bem mais que seu próprio peso. Salvanei de Oliveira carrega quatro sacos de laranja de uma vez, 120 quilos, o que lhe rende 1,50 real. Em dia bom, chega a tirar 150 reais, ou seja, repete cem vezes o esforço que executado uma única vez já parece hercúleo. Nilton Pereira Júnior faz malabarismos com latas de cerveja, às vezes 20 caixas de uma só vez. Nas mãos de José Menezes e de Salustião, mamões se equilibram, batatas voam. Marcinho engana com uma pilha de papel higiênico sobre os ombros.

Enquanto traz o mundo para dentro, a tripulação tenta manter a ordem. Alguns conferem os bilhetes, outros identificam e etiquetam o que entra e o que sai, na maioria das vezes com as iniciais dos destinatários. AOS é o senhor Antonio Oliveira da Silva, dono de uma próspera venda na cidade de Alenquer (PA), a um dia e meio de viagem. PD é Pedro Domênico, de Óbidos (PA). No Codajás, é Jorge o responsável pelo controle de mercadorias. No Maresia I, a tarefa é de Rita, uma bela morena que destoa do cenário cheio de músculos. No barco atracado, manda ela. Com o descolar da balsa, comandante e piloto passam a ser as autoridades, responsáveis pelas centenas de pessoas que ocupam o convés. Cheio de despedidas, o Elyon Fernandes parte com 615 passageiros.

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Histórias das águas

Enquanto lança as caixas ao ar, Saul Ferreira conta que muitos amores nascem nos locais recônditos de uma embarcação: “Com seis dias de viagem tem gente que consegue uma esposa, ou um filho. Eu mesmo arrumei uma noiva”, revela o homem de 29 anos, natural de Coari (AM), destino da embarcação. “Tem gente que transa no banheiro, no camarote. Em alguns, a música rola solta. Quando é época de festivais, então, tudo rola solto”, completa, com ar de quem assiste freqüentemente aos tais rituais. Trabalha há quatro anos no Maresia II.

Alguns trazem a vida toda para dentro dos barcos, com o intuito de reiniciá-la em outro porto seguro. Dona Maria Vilma Lopes, de 63 anos, tem em sua bagagem um fogão Dako de quatro bocas, um colchão de casal, uma cama de ferro vermelha desmontada, duas gavetas de roupa e o bambolê da neta, Lidiane, criada por ela. Vão tentar a vida em Santarém, depois de quatro anos na capital do Amazonas. Patrícia Vieira morou um ano ali. Com o filho Lucas Miguel no colo, volta com tudo para a cidade natal, Parintins (AM): dois colchões, geladeira, sofá de tom laranja forte, no qual descansa enquanto o irmão mais novo traz a mudança, criado-mudo, arara (de roupas), berço; aproveita para despir o filho e deixá-lo de fraldas. Dia quente. “As coisas não deram muito certo”, diz a moça de 19 anos, grávida de alguém que a abandonou.

Para muitos o destino é também o ganha-pão. Francisca Costa da Silva vende roupas em Coari. “Lá é tudo mais caro, menos o peixe. Se aqui é 10 o quilo, lá é 3.” Aos 36 anos, viaja três vezes por mês para Manaus; a bagagem leva 700 reais em roupas. “Com um pouco de sorte, faço 2 mil reais. Uma toalha que aqui é 15 eu vendo por 35. Uma calça de 40 eu vendo por 70.”

Para outros o porto tem gosto de descoberta. Talita teve um amor de três dias com Fábio, que veio a Manaus visitar um primo. Conheceram-se na saída da escola dela, a Francisco Albuquerque, no Centro. Olharam-se e se apaixonaram. Ele, natural de Juruti, extremo oeste do Pará, tem 18 anos. Ela tem 16, apesar da maquiagem na bochecha e dos olhos pintados de rosa, que destacam a madureza no rosto de menina. Ele sorri para segurar o choro. Ela chora. Combinaram de não trocar e-mails, nem endereço, nem telefone e, como numa fábula de príncipes e princesas, às margens do Rio Negro, nunca mais se verão.

Dentro do barco da Manaus Moderna, o som ora é de uma criança que chora, ora de um trompetista que se exibe antes da partida. Uma garota lê revistas de celebridades, um casal dorme abraçado, conversas se misturam. Soa o apito, hora da saída. Acelera os passageiros. O que era caos, enquanto o barco se distancia, dá lugar a um silencioso vazio. Vida no cais.

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