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Número 16, Setembro 2007

Brasil

Paciência sertaneja

“O senhor tolere, isto é o sertão”, diz Riobaldo, na primeira página de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Mas, de uns tempos para cá, tolerar não é um verbo muito comum. O normal, hoje sonhado, é viver à custa do próprio trabalho
por Xandra Stefanel, Revista do Brasil publicado , última modificação 12/09/2017 11h23
“O senhor tolere, isto é o sertão”, diz Riobaldo, na primeira página de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa. Mas, de uns tempos para cá, tolerar não é um verbo muito comum. O normal, hoje sonhado, é viver à custa do próprio trabalho
Mauricio Morais
Maria Vitória

Maria Vitória voltou ao tear, apesar das dificuldades para vender seus produtos

Maria Vitória Pereira aprendeu a tear com a mãe aos 12 anos, mas as obrigações com a roça a fizeram deixar de lado a tradição. Com a abertura da Tecelagem Veredas, da Associação das Artesãs de Sagarana (MG), Vitória voltou, ao lado das irmãs Maria Abigail e Nair, ao ofício de herança. Já fica menos exposta ao sol quente e mais tempo sob o telhado da associação – na pequena Arinos, a 280 quilômetros de Brasília. No ano passado, a produção da tecelagem foi vendida em três feiras e rendeu algum recurso para as famílias envolvidas. Mas neste ano as vendas estão fracas. “Já estou ficando bem sem graça. Às vezes a gente fica até três meses sem receber porque não tem feira. E aqui não vende essas coisas. A vida no sertão é difícil”, lamenta Vitória, 46 anos. O sustento vem da pequena plantação mantida em seu terreno. Colhe milho, cria galinhas e porcos. “Daqui não saio, não. Acredito que a gente vai melhorar daqui um pouco. É só ter onde vender as colchas, as cortinas, as toalhas.”

Graças às feiras, Abigail chegou a receber 500 reais mais de uma vez no ano passado. Mas neste ano, até julho, entraram apenas 270 reais. Abigail já trabalhou de bóia-fria e em carvoaria. Para ela, apesar de cansativa, a lida na tecelagem é bem melhor: “Não tem que encher forno quente com tora nem andar duas horas pra arrancar feijão”, compara a irmã mais nova, de 41 anos. A mais velha, Nair Pereira da Silva, de 48, já pensou em desanimar, mas sabe da importância da associação. “Não pode deixar fechar. É o único serviço que a gente tem.” O marido não tem trabalho fixo. A casa é mantida com o Bolsa Família que dois dos sete filhos recebem. “Hoje a gente já não passa fome, mas aqui não tem trabalho. Quando as coisas melhorarem vou garantir que meus dois filhos que ainda moram comigo não vão embora”, diz, com ar de esperança no rosto marcado pelo sol e pelo sofrimento.

As associadas receberam cursos de formação para aprender a vender, criar padrões e conhecer a logística da produção e técnicas de gestão da tecelagem – já que sua arte e sua técnica vêm “de família”, exemplo prático da chamada tecnologia social. As três irmãs dedicam mais tempo ao negócio e também saem para as cidades vizinhas para vender a produção. As outras – ao todo são 22 fiandeiras, dez tecelãs e quatro bordadeiras – passam mais tempo trabalhando em casa. Elas aprendem a tocar o próprio negócio e são responsáveis por todas as etapas de decisão, produção, venda, estoque – que é o que mais tem crescido nos armários antigos da Tecelagem Veredas.

Mauricio Morais Chapada Gaúcha
A Chapada Gaúcha fica a cerca de 400 km de Brasília. Recebeu esse nome por causa da grande migração de gaúchos na década 70. Sua paisagem alterna regiões áridas com veredas margeadas por buritis

Mudança à vista

A Associação das Artesãs de Sagarana está entre comunidades organizadas no Vale do Urucuia, no noroeste de Minas. E é uma das ações apoiadas pelo Projeto Urucuia Grande Sertão, criado com o objetivo de identificar possibilidades de emancipação econômica das famílias a partir da sua própria cultura e do potencial de desenvolvimento local. A iniciativa envolve ministérios e outros órgãos públicos federais e estaduais, além de agências de desenvolvimento não-governamentais. Nos 11 municípios atendidos – Arinos, Bonfinópolis, Buritis, Chapada Gaúcha, Formoso, Pintópolis, Riachinho, São Romão, Uruana de Minas e Urucuia (todos em MG) e Cabeceiras (Goiás) – vivem 100 mil pessoas, das quais quase 70% estavam abaixo da linha de pobreza, segundo o IBGE. O mapa da pobreza e das dificuldades locais começou a ser descoberto no início da década.

De lá para cá, além da chegada do Bolsa Família, foram investidos cerca de 6 milhões de reais no estímulo à formação ou ao fortalecimento de micro e pequenos negócios e de empreendimentos coletivos solidários, como apicultura, piscicultura, artesanato, fruticultura, fábrica de ração animal. Hoje existem na região 2.500 unidades de conservação de água, quatro estações de acesso à internet e começa-se a investir no turismo em torno de suas riquezas naturais, históricas e culturais.

Pouco mais de 455 mil reais foram investidos em seis fábricas de ração animal à base de mandioca. Num dia quente de julho, Valdivino Pereira de Souza, de 40 anos, tirava mandiocas do tanque e as picava, espalhando os pedaços no terreiro. Ele trabalha solitário na fábrica de Riachinho, na divisa com Arinos e Chapada Gaúcha. Outras cinco unidades ainda estão em fase experimental. Quando a de Riachinho foi inaugurada, seu Val trabalhava com mais dois homens contratados pela Agência de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Vale do Rio Urucuia (Adisvru). Mas, não tardou, faltaram trabalho e verba.

Convencer os moradores da região de que é melhor alimentar a criação com uma ração que eles próprios produzem a um custo menor não é tarefa simples. Um quilo da ração em Unaí, maior cidade vizinha, custa 48 centavos; a de Riachinho pode sair por 40. “Mais que o preço, o que melhora é a relação de independência. Produzir aqui significa gerar insumos que vão beneficiar as próprias comunidades locais, com mais trabalho e renda”, explica o técnico da Adisvru Daniel Oliveira Piantino.

Mauricio Morais valdivino
Valdivino trabalha solitário na fábrica de ração de Riachinho. Acredita que o negócio trará benefícios para a cidade

Vencer o ceticismo

Valdivino concorda, e tenta convencer os vizinhos a aderir. Ele garante que suas 20 cabeças de gado engordaram com a ração balanceada, mas o motivo da desconfiança dos outros é que a produção de leite ainda não melhorou. “Nem piorou.” A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tem feito estudos para melhorar a ração. “Tem que ter ração na época de seca, de março a outubro, porque não tem pasto verde. A fábrica é uma conquista da comunidade, mas o povo não acha que isso aqui é deles, e sim da agência”, afirma seu Val.

Com a adesão dos criadores da região, a fábrica passaria a ter mais capital para investir no transporte, no maquinário e na ampliação dos terreiros de secagem – o atual tem capacidade para 1.170 quilos de mandioca picada, e o ideal seria poder armazenar 5 mil quilos. Ano passado a fábrica de Riachinho produziu 300 sacas de 40 quilos de ração. Valdivino gosta do que faz, mas ainda precisa fazer bicos como tratorista, construir cercas e rachar madeira.

Ele espera em pouco tempo receber as mudas de mandioca que estão sendo testadas pela Embrapa no Centro Tecnológico Agroalimentar do Vale do Rio Urucuia, em Arinos. Ali foram instalados um viveiro e uma estufa com capacidade para armazenar 66 mil mudas para o projeto de fruticultura e frutos do cerrado, além de minhocário para produção de húmus. Em 2006 foram cultivadas 30 mil mudas de maracujá, mamão, abacaxi, eucalipto, coco anão e pinhão-manso. Cem produtores da região foram capacitados e as mudas, doadas para as famílias. Mudas de mandioca com diferentes características foram plantadas para testar a qualidade da raiz em fins diversos, entre eles produzir ração.

Martinha da Rocha Lima, de 51 anos, aprendeu o processo completo do cultivo das frutas e da mandioca. Descobriu também que pinhão-manso gera três vezes mais óleo que a mamona. “Com essa história de biodiesel, eu quero é plantar pinhão. Eucalipto eu acho que não faz bem para a terra, pode ver que em plantação de eucalipto não se vê nem passarinho. A gente tem que prestar atenção nessas coisas”, ensina Martinha, moradora do assentamento Piá Riacho Claro. Com a mandioca que colhe em sua propriedade faz polvilho, farinha e ração para a criação. Três carroças de mandioca rendem um saco de polvilho de 50 quilos, vendido por 100 reais. Seus dois hectares podem gerar 35 sacos de polvilho, ou 3.500 reais – renda até “razoável”, se não fosse a cada dois anos. “Eu espero que Deus dê pra gente uma maneira de evoluir. Eu acho que isso vai acontecer, mas demora.”

A meta do Projeto Urucuia Grande Sertão é que até o final de 2008 a região conquiste sua emancipação econômica de maneira sustentável. Numa etapa seguinte, entre 2009 e 2015, programas assistenciais deverão sair de cena para dar lugar ao que o vereador em Arinos José Hidelbrando Ferreira de Souza (PT) chama de “efetivação” da democracia. “Só quando se tem acesso aos serviços públicos e controle social é que a realidade muda. Com empreendimentos emancipados as pessoas terão capital de giro e crédito. A comunidade não estava preparada para ser empreendedora”, explica Hidelbrando, que já foi prefeito (até 2000), eleito por uma coligação PSDB-PT.

De acordo com o diretor de renda da Fundação Banco do Brasil, Jorge Streit, a formação de cooperativas nos últimos quatro anos e a expansão do Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) proporcionaram uma organização mínima a uma região habituada ao calote. A Fundação, com investimentos de 3 milhões de reais, é um dos parceiros do projeto, do qual deve se retirar a partir de 2009, com o BB assumindo diretamente o relacionamento creditício. “Reunimos mais de 150 líderes para falar sobre educação para o crédito. Esse é o momento de construir o ‘empoderamento’ deles, e os instrumentos estão sendo oferecidos”, diz.

Mauricio Morais ivone
Ivone tentou a vida em Brasília: “Eu imaginava fazer faculdade de Enfermagem ou Farmácia”

Mais forte do que o lugar

Martinha admite que o processo é mais lento do que gostaria, mas tem esperança de que seus filhos não precisem ir embora em busca de trabalho, como aconteceu com Ivone Ribeiro Dourado, de 20 anos. Moradora de São Joaquim do Januário, ela foi para Brasília. Sem sorte, voltou para o sertão, está desempregada e com uma filha, Ellen, de 4 anos. “Eu imaginava fazer faculdade de Enfermagem ou Farmácia. Quem sabe?”, suspira. Ivone estava no 6º Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas, realizado na Chapada Gaúcha em julho. O evento reuniu comunidades incentivadas pelo Projeto Urucuia Grande Sertão em torno de apresentações culturais, debates e oficinas. E expôs artesanatos e trabalhos como colchas, tapetes e cortinas das fiandeiras da Associação de Sagarana.

Joselita Andrade Ferreira, de 56 anos, passou os três dias do encontro numa cadeira de ferro ao lado das esteiras, quadros, acessórios para mesa e outros artigos que produz com palha, talo de buriti e plástico reciclado. “Antes eu só fazia pouco artesanato, mas meu trabalho foi divulgado e incentivado, levado pra fora da cidade.” Membro da Associação de Ribeirão de Areia, onde mora, gostou tanto do artesanato que logo passou a ensinar. Já participou de feiras em Brasília e na Chapada dos Veadeiros e em dias bons chega a faturar 200 reais por evento. Como as feiras ainda são escassas, Joselita planta legumes e hortaliças para vender. “O importante é que a vida está melhorando. Não gosto nem de lembrar de como sofri pra criar meus filhos.”

O fato de o Estado ter custado tanto a olhar para a região torna pouco notável qualquer melhora na vida de pessoas como as irmãs fiandeiras, seu Valdivino, Martinha, Joselita. Mas uma ponta de consciência de que a realidade pode ser mudada, pelas mãos deles próprios, os sertanejos, já é perceptível. Assim como um sentimento de orgulho de que esse sertão não quer mais caridade. Sonhar com esse tal de desenvolvimento sustentável torna mais curta a tolerância com um Bolsa Família a alimentar os filhos.

Encerrada a festa, a empoeirada Chapada Gaúcha vai ganhando ares de normalidade, mas parece não querer mais voltar ao velho normal. O novo normal planejado é levar uma vida digna às custas do próprio trabalho. E, se Guimarães Rosa escreveu que “sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o poder do lugar”, quem há de duvidar?

Quem faz
O Projeto Urucuia Grande Sertão é coordenado pela Agência de Desenvolvimento Integrado e Sustentável do Vale do Rio Urucuia (Adisvru) e apoiado pelos Ministérios da Integração Regional, do Trabalho e Emprego (Secretaria Nacional de Economia Solidária), do Desenvolvimento Agrário, além de Fundação Banco do Brasil, Sebrae, Agência de Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável de Chapada Gaúcha, Embrapa, Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba, Instituto Estadual de Florestas e Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais. A repórter Xandra Stefanel viajou ao 6º Encontro dos Povos do Grande Sertão Veredas a convite da Fundação Banco do Brasil.