Você está aqui: Página Inicial / Revista do Brasil / Edição 14 / Roda viva
Número 14, Julho 2007

educação

Roda viva

Rodas de leitura ganham força em cidades do interior, estimulam e desenvolvem o potencial de aprendizado e integram professores, estudantes e comunidades
por Joás Ferreira de Oliveira publicado , última modificação 05/09/2017 13h03
Rodas de leitura ganham força em cidades do interior, estimulam e desenvolvem o potencial de aprendizado e integram professores, estudantes e comunidades
divulgação
leituras

A partir das primeiras leituras, os alunos já passam a pedir o livro emprestado

Quando a professora chegou, alunos se sentavam em roda no meio da sala de aula. Alguns conversavam e outros folheavam livros. A professora Rosilene Inês Chaves, da Escola Estadual Newton Câmara Leal Barros, de Taubaté, inicia a aula. Fala a respeito da autora e da história que lerá naquela manhã: o conto Biruta, de Lygia Fagundes Telles. Com habilidade, desperta o interesse para os significados da palavra “biruta”. Na história, é o nome de um cachorrinho muito travesso. Os alunos ouvem em silêncio. Ao final, estão emocionados. Terminada a aula, aproximam-se da professora para pedir livros emprestados. Essa é uma das formas com que o projeto “Entre na Roda: Leitura na Escola e na Comunidade” tem contribuído para formar leitores em cidades como Taubaté, Caçapava, Caçapava Velha, Igaratá, Monteiro Lobato e Jambeiro, no Vale do Paraíba (SP).

O projeto tem a coordenação técnica do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), organização não-governamental e sem fins lucrativos, e parceria da Fundação Volkswagen. Segundo Maria Alice Armelin, do Cenpec, o Entre na Roda é dirigido a escolas públicas, bibliotecas, ONGs e associações comunitárias.

A professora de ensino fundamental Alcimara Azevedo é uma das pioneiras do projeto em Taubaté. Organiza rodas de leitura e atua na formação de orientadores. É “trabalho de formiguinha”, e os resultados – formação de novos leitores e melhora na qualidade educacional e no potencial de aprendizado das crianças – aos poucos vão sendo percebidos. “A partir das primeiras leituras, os alunos já passam a querer uma nova história, perguntar sobre a que ouviram ou pedir o livro emprestado”, conta a professora. “Eles passam a interpretar o contexto das histórias com maior profundidade e interesse, conseguindo enxergar, nas entrelinhas, as imagens que as palavras carregam. E também melhoram sensivelmente suas redações escolares.”

Na escola Professor Lafayette Rodrigues Pereira, em que leciona, além de introduzir o projeto, Alcimara organizou uma gibiteca, com a parceria do Sindicato dos Metalúrgicos de Taubaté, como forma de aproximar os alunos do hábito de ler. Walace, Núbia e Janaína, da 5a série do ensino fundamental, aprovam e garantem tirar muito proveito das rodas de leitura.

O mesmo encantamento foi experimentado por algumas mulheres que estão em presídios da região, nos quais o Entre na Roda também vem sendo aplicado. Antes, elas normalmente usavam folhas de livros a que tinham acesso para fazer cigarro. A partir das rodas de leitura, passaram a ter uma nova relação com os livros, percebendo que propiciam uma viagem prazerosa para além dos muros da prisão.

Encantamento

A professora e coordenadora pedagógica de Jambeiro Roberta Aparecida de Lima Pimentel encontrou uma maneira inusitada de aplicar o projeto. Ela faz roda de leitura no ponto de ônibus. “Gosto de pegar o ônibus escolar junto com as crianças. Enquanto espero a condução, quase sempre estou manuseando algum livro, e isso já desperta curiosidade”, ensina. “Passei a levar livros infantis e vi que as crianças acompanhavam atentamente cada folha que eu virava. Depois de alguns dias, perguntei se queriam que eu lesse, e todas adoraram a idéia. Assim nasceram as rodas de leitura no ponto de ônibus.”

Do ano passado para cá o número de espectadores vem aumentando, e Roberta teve de organizar sessões de histórias. Quinzenalmente, aos sábados, faz uma roda de leitura no ponto de ônibus, próximo ao conjunto habitacional onde mora. E faz ainda empréstimo de livros, transformando o ponto de ônibus numa biblioteca circulante. De acordo com Roberta, dividir o interesse pela literatura com as pessoas traz frutos para ela e para sua família. “Lá em casa todos participam. Meus filhos me ajudam a levar e trazer os livros e meu marido, por iniciativa própria, fez uma reforma completa em nosso ponto de ônibus.” A escola João Leite Vilhena, onde trabalha, também incentiva a contação de histórias. A diretora convidou-a para desenvolver trabalho semelhante em escolas rurais e no asilo de idosos de Jambeiro.

Bons fluidos

O projeto Entre na Roda começou em 2003 com 28 escolas municipais de ensino fundamental de Taubaté. Logo se espalhou e passou a envolver não só professores como também bibliotecários, agentes sociais, voluntários das comunidades e gestores das secretarias de Educação de 137 municípios paulistas, além de chegar a Resende (RJ) e Três Corações (MG). De acordo com o Cenpec, nota-se entre as crianças menores maior curiosidade sobre o que está escrito, demonstração de prazer nas atividades de leitura, desejo de manusear livros e levá-los para casa, associação entre autores e obras. Entre adolescentes, melhoraram a participação, o espírito crítico, a atenção e a criatividade, assim como a expressão oral e escrita. “A valorização dos aspectos lúdicos e prazerosos da leitura tem sido o eixo norteador do Entre na Roda”, explica Maria Alice Armelin, coordenadora do Cenpec – www.cenpec.org.br e telefone (11) 2132-9000.

 

registrado em: , ,