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Número 137,

Música e Literatura

Livro passeia por 'playlist sentimental' do jornalista Olímpio Cruz Neto

"Playlist – Crônicas Sentimentais de Canções Inesquecíveis" conta histórias e mostra os contextos culturais e sociais do momento em que 27 canções marcaram a vida do autor
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 05/02/2018 09h06, última modificação 12/02/2018 16h40
"Playlist – Crônicas Sentimentais de Canções Inesquecíveis" conta histórias e mostra os contextos culturais e sociais do momento em que 27 canções marcaram a vida do autor
Reprodução/Ilustração Olímpio Cruz Neto
Baianos

'Mistério do Planeta', de Os Novos Baianos é uma das canções do livro: 'O arranjo é de Moraes e Pepeu, que executa um dos mais memoráveis solos de guitarra de todos os tempos'

Uma leitura para apaixonados pela música pop. Assim pode ser definido Playlist – Crônicas Sentimentais de Canções Inesquecíveis, o primeiro livro do jornalista brasiliense Olímpio Cruz Neto. Mas, na verdade, é mais que isso, já que é uma obra escrita com o coração de um apaixonado pela música e pelo Brasil. O autor comenta 27 canções que foram marcantes em sua vida e permeia as histórias com bem mais do que o contexto musical nos quais essas músicas se enquadravam. Ele apresenta ao leitor informações históricas dos momentos culturais, sociais e políticos da época das músicas.

Com ilustrações do próprio jornalista, Playlist passa por canções brasileiras, inglesas e americanas dos últimos 80 anos. Com músicas famosas e outras nem tanto, as crônicas são escritas a partir de canções dos Beatles, Jards Macalé, George Harrison, Michael Jackson, Gilberto Gil, David Bowie, Legião Urbana, Charles Chaplin, The Smiths, Os Novos Baianos, Frank Sinatra, Beto Só, Art Garfunkel, entre outros.

O jornalista e escritor Nagib Jorge Neto escreve no prefácio que trata-se de um livro com um ritmo narrativo cheio de leveza, graça, entusiasmo e engajamento. “A escrita de Olímpio Cruz Neto – que há algum tempo vai além do jornalismo ético, comprometido – ganha destaque com um trabalho singular de pintor, artista, que recria momentos de ação, movimento, alegria, tristeza, violência, tensão, sensualidade e paixão. No conjunto, todos (as) são expressões de sua geração, dos anos 1950/60 – do rock, do jazz, do blues, do foxtrot, de Woodstock – três dias de paz e amor –, da contracultura, dos seriados, filmes de violência, mistério e clássicos que marcaram outras gerações.”

Lá estão trilhas sonoras de Charles Chaplin e sua respectiva crítica à exploração do trabalhador pelo capitalismo; a romântica You Do Something to Me, que ganharam vida nas vozes de Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Sinéad O'Connor; a clássica Space Oddity, em que o personagem Major Tom, criado por David Bowie quer viver longe de tudo; um dos hinos dos beatleamaníacos, Let It Be; o samba com pitadas de acid rock Mistério do Planeta, de Os Novos Baianos; Música Urbana 1 e 2, da banda ícone do rock brasiliense Legião Urbana e tantas outras canções que com certeza marcaram o século 20 e a vida de muita gente.

O autor trava, na verdade, um diálogo caloroso com a história a partir de sua memória afetiva, de seu amor pela música e do conhecimento que adquiriu nos seus 51 anos de vida. “A maioria dos textos reunidos em Playlist – Crônicas sentimentais de canções inesquecíveis foi veiculada originalmente no blogue que manteve na internet, entre 2008 e 2014. Ali, publicava quase diariamente crônicas, gravuras, ensaios, artigos, fotos, além de comentários sobre episódios da conjuntura política. Cada um dos textos sobre música era acompanhado do vídeo da canção disponível no YouTube. Essas crônicas eram motivadas por episódios reais – a morte de Michael Jackson, o aniversário de John Lennon ou lembranças de experiências pessoais”, escreve Olímpio na introdução.

 

RBA Capa
Capa do livro 'Playlist - Crônicas Sentimentais de Canções Inesquecíveis'
Golpe: o início de tudo

Escapar da amargura que trouxeram os acontecimentos políticos do ano passado. Segundo o autor foi esse o impluso inicial para organizar seus textos e publicar Playlist. “Em 2017, durante a experiência de compilar dados e organizar os textos e arquivos para a elaboração de uma reportagem sobre o golpe de Estado ocorrido no Brasil no ano anterior, episódio traumático da política nacional, buscava escapar da amargura de ter vivido de perto o afastamento da presidente da República, ouvindo músicas e arrumando outros afazares. Para não ficar mergulhado apenas na política, comecei a organizar ilustrações e textos que fiz e haviam sido publicados no blogue. E aí me ocorreu a possibilidade de lançá-los como um livro de crônicas, com gravuras que fiz a partir de 2013, como um presente para meus filhos, Clara e Antônio.”

A crônica que abre o livro é sobre a canção Smile, composta por Charles Chaplin em 1936, com letra que John Turner e Geoffrey Parsons fizeram em 1954. Olímpio relembra o mágico verão de 1978, quando, aos 11 anos de idade, ele foi visitar os tios em Olinda e esteve em um festival de filmes em homenagem à Chaplin. “Descortinava-se ali um pouco do legado humanista que ele sempre passou como sua mensagem principal. Eu tomei um pouco daquilo e comecei a construir, mesmo ingenuamente, dentro de mim, esse sentimento. Acho que o gatilho era o olhar de Chaplin. Desolador, mesmo nos momentos de graça. Humano. Frágil. Caloroso. Um misto de desamparo e solidariedade”, escreve.

Na sequência, Over the Rainbow, gravada por Judy Garland em 1937, por Frank Sinatra em 1950, eternizada em 1961 por Ella Fitzgerald e com versão jazzy que Eric Clapton gravou em 2002. “A canção embalou os soldados norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial e foi adotada pelo exército dos Estados Unidos quase como um hino naquela terrível época de horrores e mortes. Pudera. É uma injeção de esperança e ânimo na veia diante do pavor da trincheira com o inimigo nazista. Claro que a canção é outra nos tempos atuais”, pontua a crônica.

Tem também outra trilha sonora da indignação, Lost in the Supermarket, registrada pela banda britânica The Clash no álbum London Calling. É outra crítica à vilania do capitalismo: “A voz de Strummer soa desesperada e a convocação é quase um apelo para que tomemos os rumos da vida e do planeta com nossas próprias mãos. O destino é nosso, a convocação à luta é libertária e reveladora de uma gana de sentir que temos chance de viver a nossa vida”, escreve Olímpio.

Legião Urbana não poderia ficar de fora da seleção afetiva do jornalista. A faixa Música Urbana é, em suas palavras, a cara Brasília nos tempos enfurecidos de sua mocidade: “A visão da Rodoviária, da Torre de TV, os carros, o cheiro de gasolina, a sensação de abandono da cidade... Aqueles vazios desesperadores de Oscar Niemeyer na urbe que pareciam refletir os descampados existenciais de toda uma geração asfixiada pelos tecnocratas e milicos”.

Mas não há apenas indignação e crítica social no livro. Os textos de Playlist – Crônicas Sentimentais de Canções Inesquecíveis também transportam o leitor para o universo musical e romântico de Olímpio Cruz Neto, alguns deles “aquecidos, solares, cheios de tesão e de desejo”, com linhas claramente escritas por alguém que ainda acredita – e muito – no poder de canções.

A edição eletrônica do livro está à venda na Amazon brasileira e as 27 canções selecionadas ganharam uma playlist no YouTube.