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Número 111,

tentáculos

As armas do império

No momento em que a América Latina avança em soluções pacíficas de seus conflitos, como aquele entre as Farc e o governo colombiano, os EUA aumentam a presença de suas tropas na região
por Emir Sader publicado 13/10/2015 14h15
No momento em que a América Latina avança em soluções pacíficas de seus conflitos, como aquele entre as Farc e o governo colombiano, os EUA aumentam a presença de suas tropas na região
u.s. army

As negociações de paz na Colômbia entraram numa fase de não retorno, com as definições sobre os temas da Justiça. O processo entra numa fase final, com a desmobilização militar das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e a assinatura dos acordos definitivos de paz em março de 2016. A região confirma assim a sua caracterização com uma região livre de guerras. Enquanto em outras regiões do mundo se multiplicam focos de guerra, sem que nenhum processo de negociação pacífica dos conflitos se desenvolva – ao contrário, só se agudizam os conflitos e todas suas dramáticas consequências, mortos, feridos, exilados, entre outras.

No entanto, no exato momento em que a América Latina avança em processos e resoluções pacíficas dos seus conflitos – não apenas aquele entre as Farc e o governo colombiano, mas entre este e o da Venezuela –, os Estados Unidos aumentam a presença de suas tropas na região.

Isolado politicamente na América Latina como nunca na sua história, os Estados Unidos tiveram de sofrer a expulsão da sua base militar em Manta, no Equador. Assim que Rafael Correa foi eleito presidente, os norte-americanos se puseram a buscar outros países para acomodar suas tropas na região. Escolheram a Colômbia, quando tinham em Álvaro Uribe um aliado incondicional. Preparavam-se para instalar oito bases militares, no marco da Operação Colômbia, o que tornou o país o segundo destinatário de apoio militar dos Estados Unidos.

Mas o Judiciário colombiano atendeu a demandas da inconstitucionalidade da instalação das bases e as vetou. Terminado o mandato de Uribe, o novo presidente, Juan Manuel Santos, não rejeitou a decisão do Judiciário e frustrou assim essa tentativa norte-americana.

O golpe branco contra o ex-presidente paraguaio Fernando Lugo – vítima de um processo de impea­chment que durou um dia e meio – não demorou a revelar suas intenções, quando o Parlamento do Paraguai autorizou a instalação de tropas dos Estados Unidos no país, com todas as condições desejadas por Washington. A ausência de outros países e a localização do Paraguai – incrustado no cone sul e na tríplice fronteira, uma obsessão americana desde os atendados das Torres Gêmeas, em 2001, além dos recursos hídricos do Paraguai, – fizeram do país o centro das operações militares no norte da América do Sul.

As alegações nunca são as reais: apoio em catástrofes naturais, na luta contra grupo armado que opera no país, adestramento de tropas etc. etc. Mas não há duvida de que o interesse é de caráter militar, numa região que tem políticas, inclusive de segurança, autônomas em relação aos norte-americanos. O mesmo interesse demonstrado em relação ao Peru, outro país em que chegaram tropas norte-americanas em quantidade. As alegações são parecidas, mas a localização econômica estratégica do território para as empresas estrangeiras, assim como a dos outros parceiros que assinaram Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos, fizeram recair ali a outra opção norte-americana na região.

Os Estados Unidos estão assim na contramão da definição da América do Sul como região livre de conflitos bélicos, que não necessita da presença de tropas estrangeiras. A conduta contradiz as decisões da Unasul sobre as necessidades de políticas de paz e de cooperação, como as resoluções pacíficas dos conflitos recentes na região têm reafirmado.

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