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Número 106,

entrevista

Rappin Hood não nega as origens e garante: o rap nunca dormiu

Há 20 anos no movimento hip hop, 14 como radialista e prestes a lançar um disco após dez anos de hiato, Rappin Hood mantém-se ativo nos constantes desafios dos cenários musical e social da periferia
por Carla Furtado publicado 17/05/2015 21h41, última modificação 18/05/2015 17h15
Há 20 anos no movimento hip hop, 14 como radialista e prestes a lançar um disco após dez anos de hiato, Rappin Hood mantém-se ativo nos constantes desafios dos cenários musical e social da periferia
MAURICIO SANTANA/GETTY IMAGES
rappin hood

Rappin Hood é rapper, radialista, apresentador, produtor musical, ativista social. A inovação e a tradição andam juntas para o músico, que abriu espaço no cenário nacional com a canção Sou Negrão, lançada com seu grupo Posse Mente Zulu, na ativa desde o início dos anos 1990 e sempre atento à temática social. A faixa, cantada com Leci Brandão, trata com leveza das pesadas questões da marginalização negra e faz mistura com o samba, uma revolução para o rap ­purista de 2001, ano em que lançou seu primeiro disco, Sujeito Homem 1.

Há 14 anos, ele comanda o programa de rap mais popular do rádio, o Rap Du Bom, na 105 FM. E nunca deixou de se dedicar a trabalhos sociais, como oficineiro do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedeca), no bairro do Ipiranga, na capital paulista. A ousadia de explorar as possibilidades no hip hop sempre acompanhou a preocupação de não se afastar das raízes e do comprometimento do movimento. Sua estreia como radialista, com o programa A Voz do Rap, foi na rádio comunitária que ficava na favela de Heliópolis, onde mora.

Aos 43 anos, Antônio Luiz Júnior, como só a família o reconhece, está em fase de gravação do álbum Sujeito Homem 3. Para ele, o hip hop já mostrou ser, ­como toda forma de arte, ferramenta com poder de abrir portas promissoras de oportunidades para a juventude. Mesmo sem lançar disco nos últimos dez anos, ­Rappin’ Hood não foi esquecido e, enquanto setores do país ­comemoram ter acordado, garante: nunca ­esteve ­dormindo. O rapper abomina pregações de golpe contra o governo Dilma. “Cobrar ­explicações sobre coisas erradas a gente vai continuar cobrando, mas eu ainda acredito que não joguei o meu voto no lixo.”

Na noite em que foi entrevistado pela Revista do ­Brasil, Rappin fazia participação no show da iniciante banda de música jamaicana Ba Boom, no Sesc Belenzinho. A presença do rapper da velha-guarda foi definitivamente um dos pontos mais aclamados pelo público.

rappin hoodCobrar explicações sobre coisas erradas a gente vai continuar cobrando, mas não joguei voto no lixo, eu votei em quem é melhor para mim e para o meu povo

Como surgiu o apelido Rappin Hood?

Já tive muitos apelidos. De Antônio mesmo nunca me chamaram, era o nome do meu pai. Minha mãe me chamava de Júnior, Juninho. Quando eu comecei a frequentar a estação São Bento do Metrô, point dos veteranos do rap, em 1986, meu apelido era Ataliba, por causa do jogador do Corinthians. Diziam que eu parecia com ele. Mas lá já tinha um cara com esse apelido, um integrante do Região Abissal, da velha-guarda do hip hop paulistano. Aí eles começaram a me ­chamar de Robin Hood do rap por causa das ­letras. Depois acharam um personagem, do filme Rappin, interpretado por Mario Van Peebles, que se chamava Rappin’ Hood. Agora já faz pouco mais de 20 anos que eu sou o Rappin’ Hood.

Você já estudou música, aos 14 anos ­aprendeu a tocar trombone e corneta. De onde veio a ­influência musical nessa época, foi de casa?

Na minha família não havia músicos, mas a música sempre esteve muito presente. Tinha um primo distante que tocava saxofone, mas eu nunca tive referências pessoais mais próximas que essa de músicos. Minha mãe consumia muita música e eu consumi junto com ela, ouvíamos muito em casa, de tudo. Até que eu tive vontade de fazer música, aprender como era, e ela me apoiou. E aí, ao mesmo tempo que fazia rap eu tocava trombone e estudava na fanfarra da comunidade. Foi um paralelo, mas o rap acabou predominando.

Seu irmão Parteum também é artista, rapper, produtor e muito conhecido no mundo do skate. Como é a relação musical entre vocês?

Trabalhamos juntos sempre, desde o meu primeiro disco ele produz faixas. No próximo, que sai este ano, ele também está produzindo. Eu também participo dos trabalhos dele, nós já somos uma parceria formada. Tá tudo em casa, nos entendemos, fica mais fácil.

E como é sua relação com o mundo de skate, muito conectado com o do hip hop?

Minha relação com skate começou por causa do Parteum. Ele é um profissional na modalidade do street, já foi para fora do Brasil competir. Gosto muito do esporte, tem uma sintonia legal com o rap e o hip hop, os dois vêm das ruas. Eu me identifico, mas quando tentava andar tinha medo, e quem tem medo não vai ser um bom skatista, né? Ele já era mais atirado. Através dele eu tive a oportunidade de conhecer toda a nata do skate brasileiro: Bob Burnquist, Tarobinha, Alexandre Vianna, Rogério Mancha, Fábio Cristiano, César Girão, Fábio Bolota, Anchovinhas, Nilton Urina, Alexandre Tiziu... uma rapa. E isso nos abriu portas lá fora, por exemplo, quando o Rodrigo Teixeira, o TX, teve seu vídeo perfil na 411VM (lendária revista norte-americana de skate em formato de vídeo, da época das fitas videocassete), a música que usaram é a minha É Tudo no Meu Nome, do meu primeiro disco.

Onde você mora hoje?

Continuo na mesma quebrada! Vila Arapuá, em Heliópolis. Mesmo procedimento, desde os meus 10 anos. Tenho uma identificação com a comunidade ali da quebrada. Agora que meu pai está aposentado, gosta de ter sua horta, plantar, e a família consome tudo!

O rap na década de 1990 ressaltava o descaso do Estado com a juventude vítima de aids, drogas, tráfico, fome. O que mudou? Como vivem hoje as pessoas que inspiraram essas músicas?

O Posse Mente Zulu continua firme comigo, o Johnny MC e o DJ Marco. A nossa identificação musical era essa, a gente gostava e gosta de tratar dos temas sociais. Agora estamos ­planejando fazer um disco novo, pode ser que nele isso mude um ­pouco, por ser uma nova fase da nossa vida, podemos também fazer ­música para divertir. M­as até aqui, todas as nossas criações ­focaram em algum ponto da vida social do povo. Muitos dos problemas ­ainda são pertinentes, só mudaram os nomes: antigamente a gente falava da Febem, hoje é Fundação Casa. Tinha uma música que a gente tocava, Caindo na Real, que falava dos hospitais lotados. Isso continua. As músicas continuam atuais.

rappin hoodContinuo na mesma quebrada! Vila Arapuá,  Heliópolis. Mesmo procedimento, desde os 10 anos. Tenho identificação com a comunidade. Agora meu pai está aposentado, gosta de ter sua horta, plantar, e a família consome tudo!

A música das comunidades da periferia fica pouco no rap social puro e o propósito também mudou. O que ­você acha do funk e variações, como o ostentação?

Pode ser polêmico o que eu vou falar agora, mas o chamado funk eu também vejo como rap. É com batida mais acelerada, mas não é muito diferente do que o 2 Live Crew fazia muito antigamente, eles se chamam de MCs, não são diferentes de nós. O rap, o hip hop, tem vários estilos. Existe o rap gangsta, tem o underground, o romântico. O Sampa Crew, por exemplo, uma banda já antiga, e que tem um fã clube feminino enorme, faz rap romântico. O rap pode ser tudo, hoje é adulto no país e continua crescendo, a gente pode se atrever mais. Mas sem perder o compromisso, como diria Sabotage. Eu não posso fazer um disco que sejam 14 músicas de festa, tem que ter um certo equilíbrio no meu trabalho. Tenho que honrar com meu comprometimento.

A geração atual não parece lidar com tanto ­compromisso como os rappers e fãs de antigamente...

É um novo momento! Eu nem cobro isso das novas gerações. Esses novos músicos do hip hop e do rap não têm que carregar isso nas costas, eles não têm a obrigação de ser militantes todo o tempo. Rap é música, eles estão fazendo música. Claro que para a minha geração do rap a militância era um ponto importantíssimo. Hoje eles podem se dar ao luxo de falar de todo e qualquer assunto. E não acho errado, é legal, é liberdade de criação. Ao mesmo tempo, não se pode esquecer de onde o rap veio, qual é o seu propósito. É importante não esquecer bandas como Public Enemy, as mensagens que eles nos mandavam, e nós, mais antigos, temos nosso papel nessa responsabilidade.

No movimento hip hop, observamos visibilidade maior para o rap. Como você vê os outros elementos, o grafite, o papel do DJ e da dança de rua no Brasil?

O grafite é uma realidade no Brasil e grafiteiros brasileiros são uma realidade no mundo. Conhecemos muito o trabalho d’Os Gêmeos, que é lindo. Foi uma geração que começou com todo mundo junto lá no Largo São Bento. O grafite conquistou espaço no nosso país, é reconhecido como arte. A mesma coisa com a dança. Os b-boys, as b-girls, os DJs são reconhecidos, o cenário está bem forte. O que precisamos é nos manter, crescer, continuar trabalhando sem descaracterizar o movimento. Agora, esse é o grande desafio.

Ainda existe o preconceito de vincular esse movimento a algo de rua no sentido pejorativo, de marginais?

Ainda há quem pense assim. Mas a gente já ultrapassou as barreiras. O rap não está mais só na periferia, no gueto, está em geral. Se formos analisar, está em bairros nobres, está nos Jardins... Hoje em dia eu trombo um cara num Merça ouvindo minha música. O rap é uma realidade estabelecida e nós temos o objetivo de nos manter.

Você hoje está no comando de um programa na 105 FM. Abre portas para novas caras do rap, recebe artistas nos estúdios e toca músicas de alguns não conhecidos pelo público que já ouve Emicida, Criolo, Rael. Como é ter autonomia para fazer isso em uma grande rádio? Não tem jabá?

Eu gosto muito de rádio, estou há 14 anos na 105 FM com o Rap Du Bom, antes fiquei na Rádio Heliopólis por sete anos, e antes ainda na College. Agora estou tentando juntar rádio e TV, estamos com um piloto pronto do programa Rap Du Bom para televisão, é um projeto para sair neste ano. Graças a Deus, tenho minha liberdade na rádio, não tem essa de jabá. Talvez esse seja o segredo da minha parceria com a 105 FM, o motivo de eu estar lá há tanto tempo. Tenho total liberdade para tocar o que eu quiser.

Com a internet, mais pessoas têm voz e acesso à informação, mas se aprofundam menos. Como você vê isso?

Os comunicadores têm que levar isso como um exercício para tornar seus veículos mais atraentes e disputar mercado com esse nicho do computador. Quem tem uma banda, um trabalho, um grupo novo, aproveita. No meu tempo não tinha, mano. Para arrumar uma base para cantar tinha que correr atrás dos discos gringos, que eram caros, era difícil. Para ter uma bateria eletrônica, programar uma batida, um beat, fazer uma base, era quase impossível, irmão! Hoje você tem o computador, produz a sua música, canta e grava – tudo nele –, e depois já põe no Soundcloud e aí divulga para todo mundo. Nós não tivemos Youtube, fomos para a rua fazer trabalho de formiga. A gente ralou para pavimentar essa estrada chamada rap nacional, irmão! Aproveita a internet, cara. Democratizou a música!

Dez anos depois de lançar o disco Sujeito Homem 2, você planeja o volume 3. Como está?

Estamos no estúdio preparando. É continuação do trabalho, o público pode esperar mais rap do bom por aí, com produção do Parteum, e mais da minha parceria com o samba. Hip hop com samba é algo que eu comecei e gosto de fazer. Continuo trabalhando com o produtor (Wilson) Prateado e desta vez também com o Rildo Hora, que é um mestre lendário do samba brasileiro. É muito legal ter a visão musical de uma pessoa como ele, com mais de 70 anos, sobre o rap! Vêm parcerias musicais legais também: Djavan, Martinho da Vila, Emicida, Rael. O disco fica pronto em agosto, setembro, queremos lançar antes do Rock in Rio, porque vou cantar no festival junto com o Ira e com o Tony Tornado.

Sempre houve intervenção militar nas comunidades. A Sabesp não sobe o morro, a Eletropaulo não sobe no morro, o que tem lá é gato. O único órgão do Estado que sobe é a polícia

Como você vê o atual momento político do país e como tem inspirado as novas canções?

Eu já soltei uma música sobre isso, inclusive com clipe, chamada Ó o Auê aí Ó, em janeiro. Eu sou um ativista, e o rap, o hip hop nunca dormiram. Disseram que o Brasil acordou. Não, não. A gente nunca dormiu. Falamos dessas questões há muitos anos. Para mim, tudo aquilo foi só uma continuação de algo que eu já venho falando. É bom ver o Brasil acordar, só que é bom saber para onde queremos ir também. A gente tem que saber na mão de quem nós vamos entregar essa bola porque, senão, não vai adiantar nada reivindicar. Eu acredito que o Brasil é um país que tem tudo para crescer mais ainda. Com a Dilma, conseguimos chegar à sétima economia do mundo. E eu acho que pode mais, pode ser Primeiro Mundo sim. O Brasil é um grande país, não só em território. O povo é bom, se houver um investimento na qualidade de vida do povo o ­país pode render muito mais, pode ser uma potência.

Estamos num novo momento de reivindicações que pedem o impeachment de um governo com projeto de país que você apoiou durante a eleição. O que tem achado disso?

Eu não sou filiado a nenhum partido, eu analiso pelo meu passado. Como eu e o cenário ao meu redor estávamos antes desse governo e como ficamos depois. Eu percebo que muitos jovens da minha comunidade tiveram oportunidade de fazer uma faculdade. Noto que houve um avanço na qualidade de vida do povo mais pobre, digamos que uma melhor divisão de renda em relação a quem tem muito, muito, muito. Era isso que eu buscava enquanto eleitor mesmo antes do governo Lula, antes do governo Dilma, então estou bem tranquilo. Cobrar explicações sobre coisas erradas a gente vai continuar cobrando, como eu fiz no clipe ali, mas ainda acredito que não joguei o meu voto no lixo, eu votei em quem é melhor para mim e para o meu povo. Um impeachment não vai nos beneficiar. O outro lado que quer assumir não beneficia em nada, não resolve o problema. Se eu achar que é necessário votar diferente da próxima vez, eu vou, isso é democracia. Mas no momento, eu ainda acredito nas pessoas que estão lá.

Uma das revindicações de parte dos manifestantes é intervenção militar. O que pensa?

Isso para mim é piada. Voltar ao militarismo é loucura. Eu quero é liberdade de expressão, eu sou um rapper! Quero falar o que eu quiser, sobre quem eu quiser e não quero ser mandado embora do país porque eu falei a verdade. Se eu tiver que criticar a Dilma, eu quero criticá-la. Intervenção militar é para louco.

E a intervenção militar nas favelas?

Sempre aconteceu intervenção militar nas comunidades. A Sabesp não sobe o morro, a Eletropaulo não sobe o morro, o que tem lá é gato. O único órgão do Estado que sobe o morro é a polícia, “fi”. Isso já é uma coisa antiga, cultural. A questão é essa: se você dá flores, você recebe de volta flores. Se você manda bala vai receber de volta bala. Põe cultura lá, educação, hospitais, trabalho. Aí não vai precisar de polícia. Um povo culto, que reivindica, que conhece seus direitos, educado, não precisa de repressão. Isso só é usado quando se quer calar o povo. Desde sempre que a polícia é o órgão opressor do sistema, do governo. Mas eu acredito que possam ser feitos trabalhos, pode ver que algumas UPPs funcionaram, outras não. Há um grande dilema, alguns dizem que lá fora existe a polícia comunitária, os caras trabalham junto com a comunidade. Aqui, infelizmente, a gente ainda não conhece isso.

E sobre a redução da maioridade penal que está em debate atualmente?

Sou contra. Eu fui presidente, alguns anos atrás, do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, do Ipiranga, a Casa 10, fui oficineiro lá durante muitos anos. Acho que não adianta baixar a maioridade penal se não dão oportunidades para o povo. Se a diminuem, mas não dão estudo, cultura, educação, logo depois vão ter que reduzir de novo para 14 anos. Porque para o moleque que não tem oportunidades é assim: ele começa pedindo “Por favor, uma moeda”, daqui a pouco ele vai estar falando, com um tom de voz mais forte, “Pô! Arruma um qualquer pra mim!!”, mais um pouco e ele está com uma arma falando “Me dá isso aí!” É a realidade dura e crua. É fácil tomar essa atitude de reduzir a maioridade penal, difícil é arrumar o país, pôr faculdade na periferia, escolas técnicas, profissionalizantes. Parece que é mais difícil tratar o povo decentemente.

Falando em faculdade, já fez alguma?

Eu sou um universitário frustrado! Iniciei três faculdades e não terminei nenhuma. Primeiro foi Música, depois Educação Física e depois Administração, e todas eu parei no terceiro ano. Por incrível que pareça, a que eu gostaria de terminar é Administração! Eu fiz na Zumbi dos Palmares, que é praticamente para o público negro, embora existam muitos brancos lá.

A USP, dentre outras universidades paulistas, não quer incluir cotas raciais nos seus processos seletivos. O que acha da política de cotas?

Eu sou a favor das cotas raciais, só que aqui no Brasil muitas pessoas querem descaracterizar o que são as cotas. As cotas não desmerecem o meu povo, elas são uma reparação por todo o mal que foi feito para ele, é diferente. Essa é uma discussão muito grande, mas o que eu tenho a falar para todo o povo negro, principalmente, é: busque, mano! Independente das cotas, vamos estudar, vamos trampar, vamos invadir o mercado de trabalho, as faculdades, as escolas. Buscar nosso progresso, nossa prosperidade, porque é isso que vale. Com ou sem cota racial a nossa cota é progredir, prosperar, entrar em tudo! A gente quer ter vagas nos trabalhos governamentais, nas empresas privadas, a gente merece. Nossos antepassados construíram esse país a duras penas e agora queremos nossos lugares por direito, é só isso.

Suas raízes humildes o ensinaram a ser quem é? Apesar das condições injustas, isso teve um lado positivo? Ou preferia ter nascido num bairro de classe média alta?

Eu tive a sorte de ter um pai e uma mãe maravilhosos. Seu Antônio e dona Bete, mesmo com toda a dificuldade que um jovem pobre e negro tem, me ensinaram os valores. Isso é o mais importante, os valores como o respeito, a solidariedade, a dedicação. É o que me trouxe até aqui. O rap me ajudou muito também, o hip hop foi um caminho que se abriu no qual eu me encontrei! Era aquilo que eu estava esperando, tinha tudo a ver comigo. Ser uma pessoa que tem dinheiro não te muda. Conheço bandidos, caras que foram presos roubando, e que tinham boas condições de vida. Pessoas que não precisariam fazer aquilo. Não é a classe social, são valores. O cara que é rico também tem que aprender o que é respeito, o que é dedicação. Na hora que todos os valores forem passados para todos nós, teremos um mundo bem melhor. Nenhuma mudança vai ser feita por uma só parcela da sociedade, tem que partir de todos.

Como passar esses valores para as novas gerações? ­Como você passa isso para seu filho Mártin, de 13 anos, por exemplo?

Existem coisas que realmente ainda são como antigamente, coisas que vêm de berço, ainda é aquele negócio bem delicado, de pai para filho, pela palavra e exemplo. Essa relação familiar é importante, para os valores serem passados dentro de casa.

O que você ainda tem vontade de fazer no campo profissional?

Poxa, já fiz muitas coisas! Mas tem alguns músicos, monstros, que eu ainda gostaria de trabalhar. Estou esperando a oportunidade de gravar com pessoas como Jorge Ben Jor, Carlos da Fé, Alcione. Figuras de quem eu sou fã, com quem já tive a chance de cantar em show, mas ainda quero registrar em disco. Ainda faltam algumas coisas para conquistar.

Colaborou Gisele Coutinho