golpistas linha dura

Jandira: Heleno e Bolsonaro são herdeiros de Sylvio Frota, que tentou golpe dentro do golpe na ditadura

Para deputada, “a bomba do Riocentro é derivada dessa linha dura (das Forças Armadas) tentando impedir a Abertura de Golbery”. Ex-presidente e general são dessa tradição, disse parlamentar

Geraldo Magela/Agência Senado
Geraldo Magela/Agência Senado
"Eu não estou aqui para dar opinião sobre atos jurídicos. Não sou advogado, não sou formado em Direito", disse general

São Paulo – O general Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) no governo de Jair Bolsonaro (PL), foi duramente questionado nesta terça-feira (26) por sua participação no processo que culminou no 8 de janeiro, na CPMI que investiga os ataques a Brasília. Sua atuação foi classificada como golpista por parlamentares governistas. Em sua inquirição, a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) traçou um perfil da genealogia ideológica do militar. Segundo a parlamentar, Heleno e Bolsonaro pertencem à tradição da linha mais dura e violenta das Forças Armadas.

“Veja: Sylvio Frota, Brilhante Ustra, Costa e Silva, Médice, o período mais duro, todos do mesmo grupo, eram contra a Abertura proposta por Golbery ao general Geisel. Este grupo tentou dar o golpe dentro do golpe, golpear Geisel e impedir Figueiredo. O grupo em que estava o general Heleno”, disse a deputada. “A bomba do Riocentro é derivada dessa linha dura tentando impedir a Abertura de Golbery”, acrescentou.

A estratégia de provocar o caos foi usada pelo grupo vinculado ao general Sylvio Frota, ala que concebeu o atentado do Riocentro em 1981, para criar um pretexto que justificasse mais repressão e, assim, demolir a Abertura em gestação. O próprio Bolsonaro dedicou seu voto no impeachment de Dilma Rousseff ao torturador Brilhante Ustra.

A deputada lembrou que, em depoimento de junho, na sessão da CPI dos Atos Antidemocráticos na Câmara Legislativa do Distrito Federal, Augusto Heleno defendeu o golpe de 1964 e a ditadura militar. Na ocasião, ele disse que o golpe que instaurou a ditadura “salvou o Brasil de se tornar um país comunista”.

“É o mesmíssimo discurso que fazem aqui e que Bolsonaro sempre fez. São dois herdeiros de Sylvio Frota, o general Heleno e o ex-capitão Jair Bolsonaro”, acrescentou a parlamentar.

A tese do artigo 142

O senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) questionou o general Heleno sobre o apoio do bolsonarismo e do próprio militar, segundo Randolfe, à tese de que o artigo 142 da Constituição estabelece o poder moderador às Forças Armadas, autorizando intervenção militar em caso de conflito entre os poderes.

O caos provocado no dia 8 de janeiro, por exemplo, poderia justificar a decretação de uma operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), segundo essa interpretação. Uma vez decretada essa medida, o país estaria nas mãos das Forças Armadas. O presidente Lula, então aconselhado por aliados próximos no próprio dia 8, inclusive pela primeira-dama, recusou a sugestão que lhe foi feita por setores militares de instaurar a GLO.

A Randolfe, Heleno respondeu que não poderia opinar sobre o assunto. “Eu não sou jurista, não estou aqui para dar opinião, sou testemunha”, disse o militar. O diálogo continuou:

– O artigo 142 estabelece um quarto poder? – questionou Randolfe.

– Senador, eu não estou aqui para dar opinião sobre atos jurídicos. Não sou advogado, não sou formado em Direito – respondeu o ex-ministro do GSI.

– Outrora o senhor sustentou que o artigo 142 estabelecia o poder moderador (para a força militar) intervir quando tivesse conflito entre os poderes…

– Não fui eu quem criei (sic) essa interpretação do artigo 142, eu ouvi. Quando foi usado o artigo 142? – devolveu Heleno.

–  Graças a Deus, nunca – retrucou Randolfe.

– Ah bom, então… Graças a Deus, nunca… – ironizou o general.

A versão do “Zero 1”

A versão do “outro lado”, na CPMI, foi interpretada principalmente pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Com uma narrativa típica da seita liderada pelo pai, o parlamentar comparou as prisões dos “patriotas” do 8 de janeiro – que vêm sendo duramente condenados no Supremo Tribunal Federal – aos judeus mortos pelo nazismo.

“Enquanto estavam dentro das estações de trem, eram ligadas as câmaras de gás e as pessoas morriam aos (sic) milhares, muito parecido com o que aconteceu aqui, nas prisões dos dias 8 e 9 de janeiro (sic). ‘Vamos aqui, entra no ônibus, vamos te botar na rodoviária pra você voltar pra sua casa’. E o destino era o presídio”, disse o filho ‘Zero 1’ do ex-presidente Bolsonaro, agora inelegível.

Flávio questionou os questionários “padrão” a que foram submetidos os criminosos do 8 de janeiro para, segundo ele, “produzir provas de forma artificial, ardilosa pra incriminar essas pessoas”. Depois homenageou o “querido” general e encerrou sua fala.