Disputa em SP

Acuado por Marçal, Nunes anuncia bolsonarista como vice

Prefeito de São Paulo finalmente acatou o nome do coronel Mello Araújo, indicado por Bolsonaro em janeiro, tentando evitar migração do voto bolsonarista para o coach Pablo Marçal

Marcelo S. Camargo/GOVSP
Marcelo S. Camargo/GOVSP
Nunes fechou aliança com o bolsonarismo como forma de sobreviver na disputa

São Paulo – O coronel Ricardo Mello Araújo (PL) será candidato a vice na chapa do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). O anúncio ocorreu finalmente nesta sexta-feira (21) em evento que Nunes, candidato à reeleição, participou ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Inclusive coube a Tarcísio anunciar a decisão, colocando um fim na novela que durava desde o início do ano.

“Acho que está acordado com todos os partidos e a gente convergiu com o nome do Mello Araújo. Será um representante nosso como pré-candidato a vice-prefeito”, disse o governador. Ele disse que o ex-comandante da Rota prestou “serviço relevante”. Além disso, foi “testado” como gestor à frente da Ceagesp. “Agrega, soma, estamos muito confortáveis com isso”, frisou o principal expoente do bolsonarismo em São Paulo.

Nunes, por sua vez, disse que ficou “muito satisfeito” com a escolha. E tentou se esquivar das críticas de que ele teria “terceirizado” a escolha do seu próprio vice. “Todo mundo fala ‘você tem que falar que você que escolheu, que você é o bambambam’. Eu discuti conjuntamente e recebo de forma muito positiva uma construção de 11 partidos”.

Disse que Mello Araújo “não aceita questões de corrupção e crime organizado”. E rebateu: “Se for para ser radical contra quem faz exploração sexual infantil, para combater corrupção, contra o crime organizado, é o cara que eu quero”.

Fator Marçal

O ex-presidente Jair Bolsonaro indicou a Nunes o nome do coronel ainda em janeiro. De lá para cá, o prefeito resistiu em anunciá-lo como seu vice. Ele próprio e seus aliados defendiam alguém mais “moderado”, como forma de tentar atrair o eleitorado do centro.

No entanto, a entrada do coach Pablo Marçal (PRTB) na disputa pela prefeitura da capital acendeu o alerta. O influenciador, uma espécie de “guru” que vende cursos sobre como ficar milionário na internet, tem ampla penetração entre os bolsonaristas. Sem o apoio dessa parcela do eleitorado, numa disputa polarizada, o sonho da reeleição de Nunes estaria praticamente liquidado.

Antes de Marçal entrar na disputa, Nunes e o deputado federal Guilherme Boulos (Psol) apareciam na liderança empatados tecnicamente – 35,6% e 33,7%, segundo pesquisa AtlasIntel, em abril. Porém, no mês seguinte, o coach estreou em terceiro lugar, com 10,4%, enquanto o prefeito viu suas intenções de voto caírem para 20,5%, enquanto Boulos foi a 37,2%.

Nesta semana, o mesmo instituto captou uma leve melhora para Nunes, que ficou com 23,4%, em segundo lugar. Marçal, entretanto, também registrou crescimento, chegando a 12,6%. Em primeiro, Boulos oscilou na margem de erro, com 35,7%, mantendo-se na liderança.

Corrupção e violência

Se Mello Araújo “não aceita corrupção”, como diz o prefeito, poderá ter problemas com seu novo aliado. Isso porque Nunes enfrenta denúncias de superfaturamento em obras. São ao menos 223 contratos emergenciais com suspeitas de sobrepreço.

Com Nunes, São Paulo viu explodir esse tipo de contratação, que dispensa licitação. Desse modo, entre 2021 e o final de 2023, Nunes gastou R$ 4,9 bilhões em contratos emergenciais. Por outro lado, os últimos quatro prefeitos da capital gastaram, juntos, quase R$ 950 milhões nesse tipo de contrato.

O Tribunal de Contas do Município (TCM) inclusive apontou indícios de conluio, com combinação de preços, entre as empresas concorrentes que foram escolhidas nos contratos emergenciais. Um dos beneficiários inclusive é filho de compadre de Ricardo Nunes.

Ao mesmo tempo, a mulher do prefeito, Regina Carnovale, teria dito que é “casada com bandido” e ameaçou “chamar o PCC”, durante uma briga com vizinhos há dez anos. A informação consta em um Boletim de Ocorrência obtido pela coluna Painel, do jornal Folha de S. Paulo. Portanto, violência e corrupção são questões que devem marcar a campanha e, principalmente, os debates.