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Com desinformação sobre máscaras e TCU, Bolsonaro ‘joga na confusão’, diz cientista político

De acordo com Wagner Romão, presidente recai no crime de responsabilidade ao repetir mentiras sobre relatório já negado pelo Tribunal de Contas e campanha contra máscaras “São inúmeras as possibilidade dele já ter sido processado”

Reprodução
Segundo o docente, Bolsonaro deve seguir com desinformações sobre as máscaras e dados oficiais. "Ele vai continuar essa narrativa porque ela coloca uma dúvida na cabeça das pessoas", diz

São Paulo – Na avaliação do professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Wagner Romão, o presidente Jair Bolsonaro cometeu novo crime de responsabilidade ao repetir campanha contra o uso de máscaras. Em entrevista ao Jornal Brasil Atual, o cientista chamou de imprudente a postura do mandatário que declarou, nesta quinta-feira (10), ter pedido ao ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, um parecer para desobrigar o uso do equipamento de proteção contra a covid-19 para aqueles que estiverem vacinados ou que já foram infectados pelo novo coronavírus. 

O “tal do Queiroga”, como o chamou Bolsonaro durante um evento para o setor de turismo, confirmou o pedido do presidente. Mas explicou que a dispensa das máscaras dependeria da vacinação em massa. Ainda segundo o chefe da Saúde, o presidente “não o pressionaria”. “Sou ministro dele e trabalhamos em absoluta sintonia. Assim funcionam as democracias do regime presidencialista”, afirmou, repetindo o argumento que vem citando recorrentemente para blindar Bolsonaro. A proposta presidencial, no entanto, deixou os infectologistas estarrecidos e foi chamada de “estratégia suicida”. 

Hoje, o mandatário afirmou à imprensa que a “palavra final” caberá a Queiroga, governadores e prefeitos. Romão analisa que a postura de Bolsonaro é uma “prática política” de “jogar sempre na confusão” para “estabelecer suas próprias narrativas”. “Pela sua visão, ele sempre foi contra o uso da máscara. Quando a utiliza é sempre de má vontade, de maneira errada e fazendo piada sobre seu uso. Ele joga essa confusão na cabeça das pessoas. Porque quando ele fala ‘vou fazer um estudo para a gente não precisar usar a mascara’, a notícia que chega é que o presidente está já dizendo que está liberado. Que não precisa usar mais as máscaras.  É de uma irresponsabilidade”, critica o cientista político à jornalista Marilu Cabañas. 

A mentira sobre o TCU

O vice presidente da CPI da Covid no Senado e líder da oposição, Randolfe Rodrigues (Rede-AP) afirmou que Bolsonaro é um “forte candidato a ser indiciado”. Para o professor da Unicamp a responsabilização do presidente é o caminho para impedir a “gravidade” dos efeitos provocados pelas desinformações bolsonaristas. No mesmo evento e, mais tarde durante sua live semanal, o presidente também voltou a citar relatório elaborado por um servidor do Tribunal de Contas da União (TCU) que teria apontado suposta super-notificação de óbitos em decorrência da covid.

O TCU negou novamente o conteúdo, confirmando que não há documento de caráter oficial questionando o número de mortos. Ao contrário, conforme reportou a RBA, até o início de maio a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontava defasagem de pelo menos 114 mil mortes. O que elevaria o total de vidas perdidas para mais de 590 mil nos dados oficiais.

“Essa é gravidade do que ele faz”, resume Romão. “E ele vai continuar essa narrativa porque ela coloca uma dúvida na cabeça das pessoas. Ele vai trabalhar com ela que é muito difícil de aferição se você não confia no próprio TCU e na imprensa que vai atrás da notícia fazer contra fake news. E como muita gente, infelizmente, não tem acesso a esse tipo de informação e acredita mais no presidente e nos bolsonaristas, fica o dito pelo não dito. E ele vai constituindo a sua claque de seguidores”, explica o professor da Unicamp. 

Confira a entrevista

Redação: Clara Assunção – Edição: Helder Lima


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