governo pressionado

CPI da Covid expôs mazelas e interesses ocultos e fez governo se mexer

Comissão levantou evidências do descompromisso de Bolsonaro com a vida, pôs governo em alerta e mudou posturas em relação a vacinas

Marcos Corrêa/PR
CPI deve aprofundar as investigações dos interesses econômicos por trás da obsessão de Bolsonaro com a cloroquina e contra a vacinação

São Paulo – A CPI da Covid tem chamado a atenção de grande parte da população brasileira para os desmandos do governo de Jair Bolsonaro ante a pandemia de coronavírus. Mostra disso foi a repercussão dos depoimentos dos ex-ministros Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e Eduardo Pazuello (Saúde) no Google Trends. A procura por informações sobre a CPI nos dias 18 e 19 de maio, quando depuseram, respectivamente o ex-chanceler e o general, foi três vezes maior do que as buscas pelo reality show No Limite, da TV Globo. “Hoje as atenções do Brasil todo estão voltadas ao enfrentamento político com o governo em relação ao principal problema que o país tem, que é a pandemia”, diz o senador Humberto Costa (PT-PE).

Para ele, outro efeito da CPI é que a agenda da disputa com o governo Bolsonaro deixou de ser fragmentada como vinha sendo. “Hoje há o embate claro em torno da pandemia.” Se a CPI não vai necessariamente criar condições para derrubar Bolsonaro, diz, “sem dúvida abriu um debate na sociedade que mostra ao país os equívocos do governo e todas as repercussões, não só as sanitárias, na vida da população. A gente tem criado dificuldades ao Bolsonaro”.

O senador destaca oitivas que considera muito importantes nas seis semanas de funcionamento da comissão até aqui. Os depoimentos do CEO da Pfizer para a América Latina, Carlos Murillo, e do diretor do Butantan, Dimas Covas, “foram muito fortes no sentido de mostrar que o governo não teve nenhum interesse em garantir o acesso da população às vacinas.” Além destes, os dois depoimentos de Pazuello também foram fundamentais, no caso, para demonstrar “a incompetência, as omissões do governo, e a mentira”.

Política deliberada

Senadores de oposição ou independentes da CPI da Covid têm afirmado que há, de fato, política deliberada pela imunidade de rebanho, segundo a qual quanto mais pessoas contaminadas, melhor. O próprio presidente da Comissão, Omar Aziz (PSD-AM), tem definido tal política como aquela que defende a sobrevivência dos “mais fortes”.

Para Humberto Costa, essa avaliação está se confirmando. “Mas, em alguns momentos, pela pressão, eles acabam tendo de ir atrás de resolver as coisas. É o caso das vacinas. E aí fica clara a incompetência associada ao desinteresse. É evidente que as ações do governo são todas em torno de uma linha clara, que é a ideia da imunidade de rebanho, de estimular que a população se contamine esperando com isso que haja redução da disseminação do vírus.”


Interesses econômicos

Para a cientista política da Universidade Federal de São Carlos, Maria do Socorro Sousa Braga, hoje há mais evidências do “terrível papel do governo nesse estado de coisas da pandemia, evidências do descalabro, da desorganização, da falta de estratégia, despreparo e descompromisso com a questão doença”. Na opinião da professora, a questão da Pfizer é emblemática, considerando que o país hoje está vacinando a “conta-gotas” – a parcela da população imunizada é de apenas 11%.

O “G7”, como é chamado o grupo de senadores de oposição ou independentes que integram a CPI da Covid, quer agora investigar interesses econômicos envolvidos na defesa do chamado tratamento precoce, como passou a ser chamado a administração do “kit covid” a pacientes com a infecção. “As empresas que vendem esses medicamentos (como cloroquina e ivermectina) lucraram milhões e milhões de reais. Vai ficando claro que isso não é uma questão só ideológica, nem de medicina, digamos assim, mas uma questão financeira”, diz o senador pernambucano.

A senadora Eliziane Gama (MA) defende uma investigação “em profundidade” dos interesses econômicos por trás da cloroquina. Principalmente após a comissão ter tido acesso a transcrição de conversa entre Bolsonaro e o governo da Índia. O diálogo revela intervenção do presidente para beneficiar empresas privadas brasileiras pela liberação de insumos para a fabricação do medicamento.


“É fundamental que a CPI aprofunde as investigações e revele os interesses econômicos por trás da obsessão do governo com a cloroquina. O Brasil precisa saber por que autoridades intercederam a favor de laboratórios produtores do medicamento. Siga-se o dinheiro”, escreveu Eliziane no Twitter.

Hoje na CPI da Covid

Nesta sexta-feira (11), a comissão ouve Claudio Maierovitch, ex-presidente da Anvisa e da Fiocruz, e Natalia Pasternak, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP). Hoje (10), com a ausência do governador do Amazonas, Wilson Lima, a comissão avaliou novas ações. Por exemplo, aprovou requerimentos autorizando a quebra de sigilo telefônico e telemático do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello e do ex-chanceler Ernesto Araújo.

Outros procedimentos decididos serão quebras de sigilos de alguns personagens importantes. Entre eles, a secretária de Gestão do Trabalho e Educação do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, a “capitã cloroquinas”. E tembém do empresário Carlos Wizard e do virologista Paolo Zanotto, considerados integrantes ativos do chamado “gabinete paralelo”.


Leia também


Últimas notícias