NEGACIONISTA COMPULSIVO

Ernesto Araújo nega ataques à China e é criticado: ‘Direcionou o Brasil ao caos’

Senadora Kátia Abreu (PP-TO) fez discurso forte contra ex-chanceler por 20 minutos e criticou mentiras de Araújo

Jefferson Rudy/Agência Senado
Kátia Abreu afirmou que o comportamento do então chanceler com a China foi nocivo para o país, em particular na aquisição de vacinas

São Paulo – O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo foi criticado por senadores, durante a CPI da Covid, nesta terça-feira (18), após negar que fez críticas e ataques à China, principal parceiro comercial do Brasil e também fornecedora de insumos para a fabricação de vacinas no combate à covid-19.

Durante seu depoimento, Ernesto Araújo contradisse suas diversas postagens e artigos publicados, na qual chamava o coronavírus de “comunavírus” e fazia ataques ao embaixador da China no Brasil, Yang Wanming. Segundo ele, sua gestão no Itamaraty nunca foi ofensiva contra o país asiático.

A senadora Kátia Abreu (PP-TO) foi a primeira a questionar sobre as contradições de Ernesto Araújo. Para ela, existem ‘dois Ernestos’: o que depôs à CPI mostrando um mundo cor de rosa e o que esbraveja nas redes sociais. “O senhor não lembra de nada que importa, mas se lembra de questões mínimas e supérfluas. Parece que existe um Ernesto que está aqui e outro, que fica falando coisas diferentes em artigos e nas redes sociais. Qual personalidade devemos considerar?”, questionou.

‘Bússola do caos’

A senadora afirmou que o comportamento do então chanceler com a China foi nocivo para o país, em particular na aquisição de vacinas. Ela classificou o ex-chanceler como “negacionista compulsivo” e disse que Araújo colocou o Brasil na condição de pária e de irrelevância internacionalmente.

Kátia Abreu lembra que a China, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, e o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, foram os mais atacados durante a passagem de Ernesto Araújo pela pasta de representação internacional do governo. Porém, hoje, para os brasileiros terem acesso às vacinas, “estão nas mãos das pessoas que Ernesto ajudou a atacar”.

No fim de sua participação na CPI da Covid, ela chamou o ex-ministro Ernesto Araújo de “omisso” e completou: “O senhor foi uma bússola que nos direcionou para o caos, para um iceberg, para o naufrágio da política externa brasileira”.

Braço de Trump

O senador Humberto Costa (PT-PE) afirmou que está “tudo de cabeça pra baixo” no governo de Jair Bolsonaro, durante o combate à pandemia de covid-19. “O chefe de comunicação (Fabio Wajngarten) foi autorizado pelo presidente para negociar um contrato milionário de vacina com a Pfizer. O governo está de cabeça para baixo, pois quem negocia os assuntos de saúde é um secretário de Comunicação”, criticou o petista.

Humberto Costa recordou à CPI da Covid a fala de Ernesto Araújo sobre o Brasil ser um ‘pária internacional’ e acrescentou que os problemas de relações do Brasil estão fortemente ligados às ideias do astrólogo Olavo de Carvalho.

“A subordinação do governo brasileiro ao presidente Donald Trump levou ao problema atual. A política externa brasileira durante sua gestão foi o braço internacional da tese da imunidade de rebanho. O desinteresse em comprar vacinas e insumos faz parte dessa política, onde sabotaram a relação do Brasil com a China”.

O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) reiterou as falas de Humberto Costa sobre a forte relação ideológica do governo brasileiro com Steve Bannon, ex-assessor de Trump. O tucano também recordou que, após as falas de Bolsonaro sugerindo que covid-19 faria parte de uma guerra química, houve atraso no envio dos insumos para o Instituto Butantan, em São Paulo.

Tasso Jereissati perguntou se essas falas de Bolsonaro e Araújo contra a China fazem parte de uma boa diplomacia, mas o ex-chanceler disse que as declarações não correspondem à realidade daqueles momentos e que não se tratou de hostilidade. “Então não sei mais o que é realidade”, finalizou o senador.

CPI da Covid

O testemunho de Ernesto Araújo é o sétimo depoimento à CPI da Covid, que até agora ouviu os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich; o atual ministro da pasta, Marcelo Queiroga; o presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres; o ex-secretário de Comunicação da Presidência da República, Fabio Wajngarten; e o dirigente da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo.

Nesta quarta-feira (19), será a vez do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello comparecer à CPI. Na quinta (20), será a vez da secretária de Gestão do Trabalho do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro, conhecida como “Capitã Cloroquina”.

“Todo mundo vem aqui culpar o Pazuello e ele estará aqui amanhã. Vai ser difícil vê-lo sentado ali e não enxergar o Bolsonaro, porque ele disse que obedecia quem mandava. Se houve problema com as vacinas? É culpa do Bolsonaro. Teve problemas com a China? É culpa do o Bolsonaro”, disse Humberto Costa sobre o depoimento de Pazuello, marcado para amanhã.