Pra ontem

Temperatura do impeachment de Bolsonaro volta a subir, diz Gleisi Hoffmann

Com a pandemia a cada dia mais catastrófica no país, opção por afastamento do presidente ganha força após recado enviado pelo “aliado” Arthur Lira, presidente da Câmara. Pedidos não faltam

Marcos Corrêa/PR
Há 72 pedidos ativos de impeachment de Bolsonaro

São Paulo – A tese do impeachment de Jair Bolsonaro voltou a ganhar força no país em meio ao aumento da catástrofe criada pela gestão criminosa na pandemia, somada aos claros sinais de aprofundamento da crise econômica. Sentado em 73 pedidos de afastamento, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL), mandou na quarta-feira (24) um recado sem meias palavras para o presidente: “Os remédios políticos no Parlamento são conhecidos e são todos amargos. Alguns, fatais. Muitas vezes são aplicados quando a espiral de erros de avaliação se torna uma escala geométrica incontrolável”.

A declaração do deputado veio em mais uma semana de péssimas notícias no combate à pandemia. Teve recorde de mortes em um dia, na sexta (26), o país rompendo a barreira das 300 mil mortes, confusão em mais uma troca, a terceira, de ministro da Saúde, tentativa do governo de reduzir artificialmente o número de vítimas fatais e até carta de economistas e empresários expondo o descontentamento com tantos desmandos.

Lira surpreendeu também por ser aliado de primeira ordem de Bolsonaro, pelo menos por enquanto. Ele foi eleito presidente da Câmara no início do ano com todo o apoio do presidente da República e é dele a responsabilidade de abrir, ou não, qualquer processo de impeachment.

A presidenta do PT, deputada federal Gleisi Hoffmann, vê nas palavras de Lira um recado claro para Bolsonaro. “Não tenho dúvidas que foi (um recado). Até a base aliada tá tendo impaciência com o Bolsonaro, tal é a desordem, a falta de ação e de coordenação no enfrentamento da pandemia”, disse.

Desgaste diário

O casamento entre o presidente e o centrão, segundo Gleisi, “está se desgastando a cada dia, exatamente por falta de ações por parte do governo na crise e pelo fato de o Bolsonaro não mudar a sua postura”, diz. “Já tem deputados do centrão falando que Bolsonaro não tem condições de trocar o governo, não está capacitado pra isso. E com a pressão externa que estamos vendo, inclusive de setores da sociedade, o setor agrícola e também o empresarial, do mercado, reclamando, é bem possível que comece a engrossar um movimento contra Bolsonaro no Congresso”, acrescenta a presidenta do PT. Questionada se a temperatura do impeachment de Bolsonaro aumentou, foi clara: “acho que aumentou bem, acho que (de 0 a 10) estaria na metade ou um pouco mais da metade, um seis”.

A perda de apoio ao presidente negacionista é clara e visível também para Antônio Augusto de Queiroz, o Toninho, diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap). Em sua análise sobre o cenário cada vez indicativo de um possível impeachment de Bolsonaro, Toninho inclui os lavajatistas, que já entenderam que esse governo tem compromisso com combate à corrupção só na retórica. Também vê o abandono do barco bolsonarista pelos que percebem incapacidade em Bolsonaro de uma gestão eficiente da crise. “A economia está derretendo, tanto pela visão fiscalista extremada quanto pela inexistência de interlocução com o setor produtivo. Hoje, o apoio a Bolsonaro é restrito ao que há de mais desqualificado no Brasil”, diz Queiroz. Esses setores estão em uma parte da base militar (incluindo as PMs), um pequeno segmento da área empresarial, os defensores de armamento e evangélicos fundamentalistas.

Do 1 ao 73

Até o presente momento, de um total 73 pedidos, 72 estão à espera de análise. Somente o primeiro teve encaminhamento e foi arquivado por problema na assinatura. Foi protocolado no dia 5 de fevereiro de 2019, escrito a mão, com caneta, em papel comum, pelo cidadão Antonio Jocelio Rocha e baseava-se em “dívidas públicas criminosas”.

De lá pra cá, e com muito mais embasamento, dezenas de outros foram engrossando a lista, como o quinto deles, protocolado pela advogada Flávia Pinheiro Froés representando o Instituto Anjos da Liberdade, do qual é presidenta. Ela acusa Bolsonaro de ter interferido nas investigações da Polícia Federal sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco.

O descaso com a crise do coronavírus entrou pela primeira vez como motivo para um impeachment de Bolsonaro em meados de março do ano passado, quando a pandemia causava suas primeiras vítimas no Brasil. Já na solicitação número 19, os deputados federais Fernanda Melchionna, Sâmia Bomfim e David Miranda, do PSOL, protocolaram pedido após Bolsonaro promover aglomeração e outras formas de descumprimento de orientações da Organização Mundial de Saúde.

Aliás, são os pedidos com esse teor os que mais justificam o impeachment de Bolsonaro, segundo Gleisi. “Não tenho dúvidas que o crime contra a vida e contra a saúde pública”, disse, lembrando que um dos pedidos, feito pelos partidos da oposição, tem exatamente esse foco. “Esse é o que tramitaria no Congresso”, diz. É o número 63 da lista e foi protocolado no dia 27 de janeiro por líderes do PT, PSB, PDT, PSOL, PCdoB e Rede, apontando 15 crimes de responsabilidade, tendo como base o colapso na saúde, as mortes por asfixia em Manaus e a violação da dignidade humana pelo presidente.

Redação: André Rossi – Colaborou Eduardo Maretti