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Demissão de Ernesto Araújo deve reforçar que problema maior é Bolsonaro

Ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, “pediu” demissão após pressões e gestão castrófica na polítca externa. Mas outro olavista é um dos cotados

Carolina Antunes/PR
Ernesto Araújo assumiu o cargo com o compromisso de levar a política ideológica de Bolsonaro, e também do filósofo Olavo de Carvalho, para as relações externas

São Paulo – O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, deixou o cargo nesta segunda-feira (29). O chanceler do Itamaraty foi um principais representantes da ala ideológica do presidente de Jair Bolsonaro e responsável por minar toda a credibilidade do Brasil com outros países. Ernesto Araújo se reuniu com Bolsonaro no final da manhã de hoje para tratar da demissão, depois de sofrer forte pressão do Congresso Nacional – da oposição ao Centrão.

A presidente da Comissão das Relações Exteriores do Senado, Kátia Abreu (PP-TO), voltou a atacar Araújo e o acusou de querer esconder os motivos de uma eventual demissão. “Incompetência. Só posso imaginar o desespero deste senhor”, afirmou a senadora em entrevista à GloboNews. Diversos parlamentares criticaram Araújo de ser um dos responsáveis pelo agravamento da pandemia de covid-19 no país. Ele foi acusado de executar na política externa o negacionismo de Bolsonaro na pandemia, o que teria feito o Brasil perder muito tempo nas negociações por vacinas e insumos para o combate ao vírus.


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Um dos exemplos foi o desgaste do ministro com a China, maior parceiro comercial do Brasil e país exportador da matéria-prima utilizada na produção de imunizantes. O agora ex-ministro usou termo “comunavírus” para se referir a um suposto “vírus ideológico” que se sobrepõe ao coronavírus e faz “despertar para o pesadelo comunista”. Alguns jornais, no entanto, informam que um provável substituto seria o atual embaixador do Brasil em Paris, Luís Fernando Serra.

O embaixador é tido como um olavista (seguidor do terraplanista Olavo de Carvalho) e, portanto, uma indicação com sérios risco de manter o Itamaraty sob um comando negacionista, com visão externa submissa aos Estados Unidos. A eventual nomeação de Serra reforçaria o entendimento de que o maior problema da política externa brasileira não é o titular do Itamaraty, mas o comando de Jair Bolsonaro.

O nome do embaixador Serra agradaria ainda a integrantes da ala militar. O almirante Flávio Rocha também seria uma possibilidade seria também opção cogitada. Além deles, uma terceira seria um nome do Congresso, tida como mais difícil por sinalizar uma derrota do presidente na queda de braço com os parlamentares.

Pária internacional

Ernesto Araújo assumiu o cargo com o compromisso de levar a política ideológica de Bolsonaro, e também de Carvalho, para as relações externas. Porém, não obteve sucesso e, em outubro do ano passado, disse que se o posicionamento do governo “faz do Brasil um pária internacional, então que o país seja esse pária”. No últimos sábado, mais de 300 diplomatas publicaram carta pública acusando a política externa atual de causar “graves prejuízos para as relações internacionais e à imagem do Brasil”. E pedindo a saída de Ernesto Araújo da chefia do Ministério das Relações Exteriores.

Ontem (28), Kátia Abreu (PP-TO) já havia chamado o ministro Ernesto Araújo, antes de sua demissão, de “marginal”, depois de o chanceler acusá-la de fazer lobby chinês pelo 5G. A parlamentar rebateu dizendo que o ministro “insiste em viver à margem da boa diplomacia” e “à margem da verdade dos fatos”.

O líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) Guilherme Boulos lembra que Ernesto Araújo “fez campanha para Donald Trump, atacou a China, foi humilhado pela Índia e, como embaixador, sua única articulação sólida foi com Olavo de Carvalho. “O Brasil de Bolsonaro deixou de ser o quinto país do mundo para virar uma republiqueta. A saída de Ernesto Araújo até soa como um alívio para o país. Mas em um governo de Bolsonaro, é como fazer um gol depois de tomar sete”, tuitou.