DESESPERO

Um ano de atraso: Bolsonaro cria comitê para coordenar combate à pandemia

Decisão acontece no ápice da crise sanitária, com recordes diários de morte e um colapso iminente no sistema de saúde

Anderson Riedel/PR
Bolsonaro voltou a defender o tratamento precoce contra a covid-19, através de medicamentos sem eficácia comprovada e que têm resultado em mortes de pacientes

São Paulo – Pouco mais de um ano após a pandemia de covid-19 ter chegado ao Brasil, o presidente Jair Bolsonaro anunciou, nesta quarta-feira (24), a criação de um comitê para discutir e direcionar os rumos do combate à pandemia do novo coronavírus. A decisão acontece no ápice da crise sanitária, com recordes diários de morte e um colapso iminente do sistema de saúde.

De acordo com Bolsonaro, o grupo vai reunir o governo federal, os governadores e o Senado. “Um comitê se reunirá toda semana pra decidirmos ou redirecionarmos o rumo do combate ao coronavirus“, disse.

O presidente afirmou que a reunião foi marcada pela “unanimidade, a intenção de nos dedicarmos cada vez mais à vacinação em massa no Brasil”. Entretanto, voltou a defender o tratamento precoce contra a covid-19, por meio de medicamentos sem eficácia comprovada e que têm resultado em mortes de pacientes. “Tratamos também da possibilidade de tratamento precoce. Isso fica a cargo do ministro da Saúde, que respeita o direito e o dever do médico de tratar infectados ‘off label‘”, afirmou, em referência a medicamentos que são usados para tratamentos não originalmente previstos em sua bula.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), explicou que será sua responsabilidade o contato constante com os governadores para ouvir as demandas dos estados e levar as questões para as reuniões do comitê. Pacheco disse ainda que as primeiras questões que devem ser tratadas pelo organismo, com participação da iniciativa privada, são a ampliação dos leitos de UTI, a solução dos problemas com fornecimento de oxigênio e insumos de medicação.

Atraso na criação do comitê

A demora para a criação de um comitê para combater a pandemia foi criticada por especialistas nas redes sociais. A epidemiologista Denise Garrett acredita que o grupo apenas cumprirá ordens de Bolsonaro. “Depois de um ano, 300 mil mortes, o presidente resolveu criar um comitê para discutir pandemia e tem gente que acha isso ‘bacana’. Ouso dizer que, no lugar de especialistas sérios e independentes, esse ‘comitê’ vai ser um bando de pau-mandados a favor de kit covid-19”, tuitou ela.

Outras personalidades lembram que, no último dia 10, o ex-presidente Lula, em entrevista coletiva, afirmou que “um presidente que respeitasse o país teria criado um comitê de crise”. “Tudo o que Lula falou em seu discurso, Bolsonaro tenta agora fazer. Reforço da vacinação, uso do Zé Gotinha, criação de comitê nacional contra a covid”, ressaltou o advogado criminalista Pedro Martinez.

O epidemiologista e professor de Medicina na Universidade de São Paulo (USP) Paulo Lotufo afirma que, apesar da criação do comitê, Bolsonaro continua o mesmo. “Há um ano destruiu as ações positivas que tomavam conta do país. Hoje, o Comitê montado irá transferir ao setor privado e garantir o mandato de Bolsonaro”, avaliou.

Já a deputada estadual de São Paulo Isa Penna (Psol) disse que o presidente agiu por desespero. “Faz mais de 400 dias desde o primeiro caso de covid-19 no país, beiramos 300 mil mortes no país e só hoje Bolsonaro anuncia a criação de Comitê Anti-Covid! Isso é o desespero. Isso também é a pressão por não sustentar o negacionismo da pandemia”, criticou.