O HORROR

2020: país desgovernado torna pandemia pesadelo pior para os brasileiros

Ano da pandemia da covid-19, 2020 chega ao fim em um cenário de incertezas. Com governo negacionista e irresponsável, pesadelo não tem data para acabar

Arte sobre foto de Allan Santos/PR e Reprodução
Para jurista, é óbvio que a pandemia agravou um quadro deficitário, mas Bolsonaro não conseguiu mover uma única política de fortalecimento do Estado, pela população

São Paulo – O ano de 2020 chega ao fim como um dos mais trágicos da história do Brasil e da humanidade. A covid-19, doença provocada pelo novo coronavírus, deixa um rastro letal. São 83 milhões de contaminados e 1,8 milhão de mortos no mundo. Embora a pandemia tenha atingido todos os continentes, o Brasil enfrentou um caso ímpar, particularmente sinistro. O governo do presidente Jair Bolsonaro conduziu o país durante esse período de forma desastrosa. Minimizou a doença mesmo antes dela chegar no país. E assim seguiu. Ridicularizou as mortes, atuou para impedir medidas de proteção aos cidadãos e, agora, ataca e faz campanha contra vacinas, que são as maiores esperanças de colocar um fim no pesadelo.

Nesta reportagem, um compilado de declarações de Bolsonaro que evidenciam o desdém com a maior crise sanitária da humanidade em mais de 100 anos. Mas não foram apenas palavras. Nas ações, chegou a demitir dois ministros da Saúde no início de 2020, que se negavam a se associar aos desmandos do Planalto. Deixou o país mais de 100 dias sem chefe da pasta, durante uma crise de saúde pública sem precedentes. E acabou efetivando um interino sem estatura para o desafio.

covid-19 2020
Tragédia em gráficos. Curvas de casos e mortos no Brasil em 2020. Na página da Conass, gráficos são interativos e podem ser conferidos dados passados e atualizados

Aliado do vírus

Em paralelo, Bolsonaro começou uma saga na insistência de medicamentos comprovadamente ineficazes, como cloroquina (hidroxicloroquina) e divermectina (remédio contra piolhos). Mas Bolsonaro não é médico. Longe disso, rejeita a ciência e despreza as melhores práticas que salvam vidas.

O resultado: o Brasil é o segundo país com maior número de mortos no mundo. Até o fechamento deste texto, na manhã de 31 de demebro de 2020, o país somava 194 mil mortos e mais de 7,6 milhões de infectados. Apesar de abrigar 2,8% da população global em 2020, o país tem 9% dos casos de covid-19 e 10,7% das mortes. Isso sem contar com uma ampla subnotificação. Bolsonaro também negligenciou a testagem da população povo. Testes chegaram a ficar parados sem que fossem distribuídos pelo Estado.

Não foi por falta de aviso. A recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS) sempre foi: testagem em massa, rastreio de contágios e isolamento social. Bolsonaro não apenas ignorou a recomendação como fez de tudo para impedir que estados e cidades seguissem.

2020 e o histórico de absurdos

O Brasil entra em 2021 com um cenário de incertezas. Não existe uma previsão concreta de vacinação. Bolsonaro segue em sua postura de negar a realidade. Em abril ele chegou a dizer que ir contra medidas de isolamento era um risco que ele corria, e que se estivesse errado, “cairia no colo dele”. Ficou só na fala. Com o tempo passando, se esquivou com covardia de todas as responsabilidades que se espera de um presidente. Insiste que teve uma “atuação exemplar” diante da pandemia. Vive em seu próprio mundo, enquanto os brasileiros vivem um pesadelo.

À espera da vacina, a incompetência ganha capítulos diários. Sob gestão desastrosa do general Eduardo Pazuello no Ministério da Saúde, o país corre risco de ficar até mesmo sem seringas no sistema público de saúde. Pazuello, também responsável pelo represamento de testes que perderam a validade. Dinheiro público desperdiçado e falta de ação de um militar que, teoricamente, é um especialista em logística. Pelo menos assim o governo Bolsonaro o vendeu aos brasileiros. Confira o histórico de absurdos de 2020.

10 de março

  • Em viagem aos Estados Unidos, Bolsonaro disse que “muito do que tem ali é muito mais fantasia, a questão do coronavírus, que não é isso tudo que a grande mídia propaga”. Naquele momento o país tinha 10 mil casos e menos de 100 mortos.

12 de março

  • Quando o país chegou a 20 mil casos, Bolsonaro fez um pronunciamento. “O governo está atento para manter a evolução do quadro sob controle.” Passados quatro meses, investiu apenas 47% da verba total para enfrentamento da pandemia. No caso da saúde, foram apenas 45%.

13 de março

  • “Eu não sou médico, não sou infectologista. O que eu ouvi até o momento: outras gripes mataram mais do que esta”, disse o presidente, quando o país superou 15 mil casos.

16 de março

  • “Mas não é isso tudo que dizem”, disse Bolsonaro, enquanto prefeitos e governadores começavam a anunciar as primeiras medidas de isolamento social e fechamento do comércio.

22 de março

  • Bolsonaro compara a covid-19, que estava há menos de um mês no país, com o número de mortos do vírus H1N1, que matou 800 pessoas em 18 meses. “A previsão é não chegar a essa quantidade de óbitos no tocante ao coronavírus”, afirmou.

24 de março

  • Em pronunciamento na TV, Bolsonaro diz que a covid-19 é uma “gripezinha” e defende o “isolamento vertical”, para manter em quarentena apenas os idosos e doentes crônicos. Essa medida não é reconhecida pela ciência ou pela medicina.

26 de março

  • Disse, em declaração para apoiadores: “O brasileiro tem de ser estudado, não pega nada. O cara pula em esgoto, sai, mergulha e não acontece nada (…) O pânico é uma doença e isso foi massificado quase que no mundo todo e no Brasil não foi diferente”.

29 de março

  • “Estou com vontade de baixar um decreto amanhã” para proibir prefeitos e governadores de decretar quarentenas e medidas de isolamento social. Naquele dia, o país tinha 4.309 casos confirmados e 139 mortos.

12 de abril

  • Em live com líderes religiosos, Bolsonaro desdenhou das mais de 1.200 mortes que o país atingira e disse que “parece que está começando a ir embora essa questão do vírus”.

16 de abril

  • Bolsonaro demite o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que defende o isolamento social. Nelson Teich assume e deixa o ministério menos de um mês depois. O general Eduardo Pazuello vai ficando no cargo. No dia seguinte, cobrou o fim de medidas de isolamento social. “Essa briga de começar a abrir para o comércio é um risco que eu corro, porque, se agravar, vem para o meu colo”.

20 de abril

  • Em uma semana, o país dobrou o número de mortes pela covid-19, chegando a 2.575. Mais uma vez o presidente desdenhou: “Eu não sou coveiro”.

22 de abril

  • Em reunião ministerial – que se tornou pública após rompimento de Bolsonaro com seu ministro Sergio Moro – a quem Bolsonaro atribui sua eleição –, o avanço da covid-19 é desprezado por toda a equipe de governo. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, chega a dizer que o governo deve aproveitar a distração do Brasil com a pandemia para fazer “passar a boiada” das medidas de devastação ambiental e de desmonte do Estado.

28 de abril

  • O Brasil chegou a 5 mil mortes. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”, reagiu Bolsonaro.

7 de maio

  • “Vou fazer um churrasco no sábado aqui em casa. Vamos bater um papo, quem sabe uma ‘peladinha’”, disse Bolsonaro, um dia antes de o país chegar a 10 mil mortos pela covid-19.

19 de maio

  • Várias vezes Bolsonaro defendeu o uso de medicamentos sem qualquer eficácia comprovada contra a covid-19. No dia que o Brasil registrou mais de mil mortes em 24 horas pela primeira vez, o presidente fez uma live em tom de deboche e às gargalhadas para exaltar a cloroquina. “Toma quem quiser, quem não quiser, não toma. Quem é de direita toma cloroquina. Quem é de esquerda toma Tubaína.”

2 de junho

  • Ainda sem ministro da Saúde, sem política de enfrentamento da pandemia e sem aplicar a verba destinada a combater o coronavírus, Bolsonaro vê o país superar a marca de 30 mil mortos. “A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”, disse, como se não fosse responsabilidade do presidente trabalhar para evitar as mortes.

6 de junho

  • Para dificultar o trabalho da imprensa na divulgação dos dados de casos e mortes pela covid-19, Bolsonaro manda tirar do ar o site com as informações sobre a pandemia. “Acabou matéria no Jornal Nacional“, comemorou.

25 de junho

  • O país supera a marca de 55 mil vidas perdidas. Bolsonaro novamente fala contra o isolamento social e defende a reabertura da economia. “Não podemos ter aquele pavor lá de trás, que chegou junto à população e houve, no meu entender, um excesso de preocupação apenas com uma questão (a saúde) e não podia despreocupar com a outra (a economia).”

3 de julho

  • Bolsonaro vetou a obrigação de uso de máscara em estabelecimentos comerciais, indústrias, igrejas, templos, escolas e universidades. O uso de máscara é uma das principais medidas de segurança individual contra o coronavírus.

16 de julho

  • 76 mil mortos. Bolsonaro diz novamente que está havendo exagero com a pandemia e se exime de responsabilidade. “Alguns acham que tinha como diminuir o número de óbitos. Diminuir como?”

17 de julho

  • Um grupo de médicos de várias áreas responde Bolsonaro sobre o que poderia ser feito para diminuir o número de mortes: políticas nacionais de isolamento social, ampla testagem, rastreamento de contatos, fortalecer o sistema de saúde, contratar mais profissionais, incentivar o uso de máscaras, entre outros. Nenhuma dessas ações foi tomada pelo governo de Jair Bolsonaro.

18 de julho: Brasil tem um Maracanã de mortos pela covid-19

18 de setembro

  • Em visita a Mato Grosso, que ardia em chamas, o presidente minimizou os incêndios no Pantanal como a covid-19. “Vocês não entraram naquela conversinha mole de fica em casa e a economia a gente vê depois. Isso é para os fracos”, disse para apoiadores e ruralistas.

24 de outubro

  • Com mais de 150 mil mortos e 5,5 milhões de casos, Bolsonaro começou uma campanha contra vacinas. O único líder de um país democrático a negar a ciência e colocar o povo em risco ao rejeitar medicamentos eficazes. “Vacina obrigatória só aqui no Faísca”, disse, ao lado de seu cachorro.

10 de novembro

  • Bolsonaro intensifica seu discurso contra vacinas. Desta vez, atacou com mentiras um dos imunizantes mais promissores do país, a CoronaVac, em desenvolvimento no Instituto Butantã, em São Paulo. Na ocasião, a Anvisa, aparelhada por ele, suspendeu estudos da vacina. O presidente, então, comemorou um possível fracasso de um medicamento que pode salvar milhares de vidas. “Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Doria queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha”, disse.

16 de dezembro

  • Com as curvas de contágio e de mortes em franca ascensão, Bolsonaro novamente preferiu negar os fatos e mentir. “Quem esperava? Depois de meses difíceis, chegarmos a uma situação de quase normalidade, ainda em 2020.”

18 de dezembro

  • No mês em que o país chegou a 190 mil mortos, Bolsonaro negligenciou os acordos com vacinas. Enquanto o mundo já iniciou em larga escala o processo de vacinação, ou estão bem encaminhados, o Brasil segue no escuro. “Lá no contrato da Pfizer, está bem claro nós (a Pfizer) não nos responsabilizamos por qualquer efeito colateral. Se você virar um jacaré, é problema seu”, disse sobre a vacina da Pfizer, que está sendo aplicada, entre outros países, nos Estados Unidos e Reino Unido.

26 de dezembro

  • Um dia após o Natal de 2020, Bolsonaro reafirmou seu desdém com a vacinação. “Ninguém me pressiona para nada, eu não dou bola para isso.” Questionou a pressa na vacinação e um dia depois disse que quem deveria “correr atrás” de vacinas são as farmacêuticas; e não o governo.

Enquanto este texto é finalizado ainda faltam algumas horas para o fim de 2020. Fica a dúvida se ainda há tempo de Bolsonaro cometer mais alguma frase chocante. E fica a certeza que o pesadelo está longe de acabar


Edição: Paulo Donizetti de Souza