Ontem e hoje

História e antigas rixas se reencontram no segundo turno em Recife

Marília Arraes (PT), à frente nas pesquisas, e João Campos (PSB) têm origens políticas comuns

Reprodução/Montagem RBA
Miguel Arraes e Eduardo Campos e os candidatos Marília e João: o passado também está presente na briga eleitoral em Recife

São Paulo – Depois de um primeiro turno disputadíssimo, com quatro forças se destacando, a capital pernambucana se prepara para a decisão, no próximo domingo (29), evocando história e antigos desentendimentos políticos – e até familiares. A reta final acirrou rixas e deixou para trás um período de alianças no campo dito progressista. Depois de ficar à frente no primeiro turno, com 29,13% dos votos, o candidato do PSB à prefeitura de Recife, o deputado federal João Campos, aparece atrás na pesquisas de intenção de voto. A também deputada Marília Arraes, do PT (27,9% no último dia 15), se mantém à frente. Pelo menos até hoje (25), quando o Ibope apontou situação de empate técnico, com apertada vantagem para o pessebista.

Mas já havia sido o bastante para Campos apelar para o “antipetismo“, prática mais comum entre partidos conservadores, subindo o tom da campanha. Certamente de olho nos votos da direita: o terceiro colocado, o ex-governador e ex-ministro Mendonça Filho, do DEM, teve 25,07%.

Raízes familiares

Marília, 36 anos, e João, que completa 27 anos nesta quinta-feira (26), ambos deputados, são primos. Têm origem na mesma raiz política, o ex-governador, prefeito e deputado Miguel Arraes (1916-2005), avô de Marília e bisavô de João. Este é filho de Eduardo Campos, ex-governador, candidato à Presidência da República em 2014 e morto em plena campanha, vítima de acidente aéreo. Eduardo morreu, por sinal, em um 13 de agosto, aos 49 anos, mesmo dia do avô Miguel.

Mas até que ponto toda essa carga político-genética influencia na decisão dos 1,1 milhão de eleitores recifenses? “A gente tem de pensar qual é o eleitor, de que grupo nós estamos falando”, observa o professor e historiador Pablo Porfírio, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O peso pode ser maior ou menor conforme a classe social.

“Para uma classe média de Recife, esse histórico é algo mais presente. Muitos integrantes dessa classe média, sobretudo dos bairro da zona norte, militaram em campanhas de Arraes, principalmente na década de 1980, no processo de redemocratização, setores dos grupos artísticos, movimento muralista”, lembra o professor. “Há uma classe média, acadêmica, mais intelectualizada, mas também ligada ao funcionalismo público, em que esses nomes têm uma entrada maior.”

Discurso conservador

Já para uma classe A, “formada por uma nova elite ligada mais a serviços, acho que não pesa tanto, até porque é um grupo que está focado nas opções mais de direita, onde esse discurso conservador entrou com mais força”, prossegue Porfírio. Por fim, entre a população mais pobre, das periferias, ele acredita que o “elemento decisório” é outro.

Segundo o pesquisador, Marília ganhou espaço na periferia, uma área em que o PT já teve muita presença. Foram três administrações seguidas, duas com João Paulo Lima e uma com João da Costa, de 2001 a 2012. Desde 2013, o PSB comanda a prefeitura, com Geraldo Júlio. Nessas regiões, talvez, a discussão principal se dê sobre partidos, mais do que nomes.

Antes e depois de 1964

O pesquisador discorda da identificação de Miguel Arraes como um político basicamente da geração pré-1964 – governador eleito em 1963, ele se exilou após o golpe. “Ele também ganha notoriedade a partir da década de 1980, com a sua volta (ao Brasil). A eleição de 1986 é um marco para ele (Arraes se reelege governador e assume em 15 de março de 1987). Depois, programas como o Chapéu de Palha formam muito essa imagem do “pai” para os trabalhadores canavieiros.” Diferente de outros políticos do pré-64, como Francisco Julião e Gregório Bezerra, Arraes consegue um retorno “de forma muita sólida”, avalia Porfírio.

Para ele, tanto Miguel Arraes como Eduardo Campos eram políticos agregadores. Mas também centralizadores. “Agregam muitos setores, muitos grupos políticos, sabem fazer essa formação das frentes. Mas também essa formação de frentes políticas, conjunção de grupos, devem existir tendo eles como cabeça. São políticos que não aceitam dividir espaços de liderança. Lembro muito que o Arraes, quando voltou, perde a eleição do PMDB na eleição de 1982 e fica indignadíssimo.”

Naquele ano, o candidato do PMDB ao governo pernambuco foi Marcos Freire, que perdeu para o governista Roberto Magalhães (PDS, o partido que sucedeu a Arena). Arraes foi o candidato a deputado federal mais votado, seguido de Jarbas Vasconcelos, que mais adiante deixou o PMDB.

Tradição política

“O estilo de fazer política de Miguel Arraes, do meu ponto de vista, encontra-se muito próximo de toda uma tradição política nacional. Ou seja, uma liderança ao se afirmar, não compartilha o espaço político em termos democráticos com nenhuma outra liderança”, diz um historiador pernambucano, que pede para não ser identificado. “Lembro Agamenon Magalhães e Carlos de Lima Cavalcanti (ex-governadores), em que o segundo foi excluído do poder por manobras do primeiro junto a Getúlio e se torna interventor em 1937. Arraes não colabora com a eleição para governador de Marcos Freire em 1982 e depois para a de Jarbas Vasconcelos em 1990, quando é derrotado por Joaquim Francisco. Eduardo Campos fazia política no mesmo estilo.”

Para ele, o que os separa é a visão de desenvolvimento econômico. “Enquanto Arraes era contra o turismo e tentava políticas de assistência ao agricultor, como a eletrização no meio rural, o programa Chapéu de Palha, distribuindo dinheiro aos canavieiros na época da entressafra, quando não tinham emprego, Eduardo trouxe montadora de carro, refinaria, estaleiro investindo fortemente na consolidação do parque industrial do Porto de Suape.”

Ele não vê PSB e PT como “progressistas”, mas como “grupos políticos distintos que negociam com as forças dominantes no Congresso e na sociedade”. “A grande diferença entre esses dois grupos, eu diria, deve ser avaliada na maior ou menor aproximação com os negacionistas que constituem hoje o presidente e seus aliados diretos”, acrescenta.

Ainda desigual

Apesar da longa trajetória de Miguel Arraes, o professor Porfírio acredita que Eduardo Campos conseguiu uma projeção nacional maior. Expressada, por exemplo, nos 10% de intenção de votos que as pesquisas apontavam em 2014. “O Arraes sempre foi um político muito ligado às suas bases regionais, e o Eduardo tinha uma visão nacional que eu acho que era muito mais agressiva.”

Ele chama ainda atenção para o fato, principalmente para quem vê de fora, de Recife ser considerada uma cidade com presença marcante de forças políticas progressistas. Uma imagem que vem ainda da década de 1950, com Pelópidas da Silveira (prefeito cassado em 1964) e com o próprio Miguel Arraes. “Mas ao mesmo tempo Recife é a cidade que tem a maior desigualdade social, uma cidade de traficantes de escravos no século 19 e onde Bolsonaro teve grande votação no primeiro turno (em 2018)”, pondera.

Assim, a capital pernambucana ainda convive com práticas conservadoras que se reproduzem ao longo da história. “Recife abre espaço para governos progressistas, populares, uns mais, outros menos, mas ao mesmo tempo é uma sociedade extremamente desigual, com uma concentração de renda muito grande. É algo a se pensar.”

O próprio resultado do primeiro turno, em alguma medida, mostra que o conservadorismo também tem força na capital pernambucana. Enquanto partidos mais à esquerda (PSB e PT) somaram 57% dos votos, o DEM e o Podemos (com a candidata Delegada Patrícia, apoiada por Bolsonaro) tiveram 39%.