Novos rumos

Eleições de 2020 fortalecem centrão e mantêm PT como protagonista da esquerda

Partido dos Trabalhadores está no segundo turno em 15 cidades; PSDB e MDB desidratam

Fernando Frazão/EBC
Outro derrotado nas eleições do último domingo (15), foi o presidente Jair Bolsonaro. Na disputa pela prefeitura, nove de 13 apoiados por ele saíram derrotados

São Paulo – As eleições de 2020 ainda não encerraram, com o segundo turno em disputa, porém, já é possível perceber mudanças relevantes na disputa eleitoral. Para o cientista político e professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) Vitor Marchetti, o resultado das urnas apontam para a criação de uma frente ampla com partidos do “centrão”, o derretimento de outsiders e a manutenção do PT como protagonista do campo progressista.

O especialista acredita que as eleições municipais mostram uma reorganização do sistema político partidário, que passava por uma desestruturação, em 2013, e fragilização por completo, após o golpe de 2016. Para ele, a onda de personagens de fora do jogo político, os chamados outsiders, enfraqueceu.

“Os sinais que temos é que o sistema político partidário voltou ao centro da mesa, tirando os outsiders do jogo, que estavam fortes nas últimas eleições. Vários personagens que surfaram na onda bolsonarista tiveram resultados pífios. Se você olha para São Paulo, temos a Joice e o Mamãe Falei, além de vereadores, que mostram a perda de forças”, analisou em entrevista à Rádio Brasil Atual.

Por outro lado, o cientista político afirma que o sistema está se reorganizando por meio do “centrão”, formado por um conjunto de partidos de direita. “Os partidos com essa característica mostraram bom desempenho, como o PSD, PP e DEM, que cresceram significativamente. Quando falamos de frente ampla, a única frente que parece existir é a entre PSD, PP e DEM, que não dialoga com o bolsonarismo”, alertou.

As três legendas são as que deram maiores saltos em número de prefeituras nas eleições de 2020. O Democratas reelegeu Rafael Greca em Curitiba e Gean Loureiro em Florianópolis, alcançando 458 municípios – 190 a mais que em 2016. O PP e PSD também cresceram. O primeiro elegeu, no 1º turno, 672 prefeitos, representando um salto de 35,8%. Já o PSD chegou a 640 prefeitos, número que supera em 101 a quantia alcançada pela legenda, há quatro anos.

Campo da esquerda

Os resultados das eleições de 2020 mostram que o PT e Psol estão entre as siglas do campo progressista que mais cresceram nas prefeituras das 100 maiores cidades do país. Ao todo, os dois partidos, que hoje não têm nenhum prefeito nessas cidades, podem chegar a 17 representantes a partir de 2021, sendo 13 do PT e dois do Psol.

Vitor Marchetti explica que o PT manteve-se com os votos que recebeu em 2016, ou seja, o derretimento daquele período foi minimizado. O Partido dos Trabalhadores também será a legenda mais presente no 2º turno na eleição municipal de 2020, em 15 das 57 cidades em que haverá a disputa.

“É verdade que o partido ainda continua perdendo municípios, mas está no segundo turno em 15 cidades, com chances em algumas cidades importantes. Em 2016, com o golpe, o partido tinha perdido todas as grandes eleições municipais e, agora, está disputando em 15 municípios”, explica.

Ele acrescenta que as eleições apontam mudanças importantes no campo progressista, com novos agentes políticos, porém, o PT continua sendo o grande protagonista da esquerda. “Outros atores políticos estão crescendo, como o Psol, que se consolidou como um partido competitivo em grandes centros urbanos e pode vencer na cidade de São Paulo. O campo da esquerda está vendo a presença de novos atores partidários”, acredita o cientista político.

PSDB e Bolsonaro enfraquecidos

Após arquitetarem o golpe contra a ex-presidenta Dilma Rousseff, em 2016, o PSDB e o MDB foram os maiores derrotados nas eleições de 2020. Os dois foram as siglas que mais perderam prefeituras, na comparação do 1º turno de 2016 e de 2020. Os tucanos caíram de 785 para 512 prefeitos eleitos – ou seja, 273 a menos. Já o partido de Michel Temer perdeu 261 prefeituras.

“Isso mostra que os efeitos do golpe de 2016 impactaram muito sobre o PT, mas naquele determinado momento. Agora, o efeito sobre o PSDB e MDB tem sido de médio prazo e colhendo frutos negativos”, afirmou o professor da UFABC.

Para o cientista político, esses dois partidos não estão em condições de assumir protagonismo, quando se fala de capital político, por isso devem grudar na frente política armada pelo centrão. Por outro lado, Marchetti acredita que a disputa de Bruno Covas (PSDB) em São Paulo é crucial para a manutenção mínima do protagonismo tucano. “É fundamental para eles manter a capital paulista. É um partido que tem se tornado dependente do estado de São Paulo. O movimento que fizeram, de 2016 para frente, produz frutos ruins para colher, principalmente ao se unir com o bolsonarismo.”

Outro derrotado nas eleições do último domingo (15) foi o presidente Jair Bolsonaro. Apenas dez, entre 45 candidatos a vereadores que colaram sua imagem ao presidente, foram eleitos. Na disputa pela prefeitura, nove de 13 saíram derrotados. Celso Russomanno (Republicanos), por exemplo, teve apenas 8% dos votos em São Paulo.

“Bolsonaro apresentou um sinal de desgaste no seu capital político. Ele apoiou vários candidatos, mas que tiveram um desempenho bastante ruim. Seu próprio filho Carlos Bolsonaro, que tem ótima visibilidade, teve 33% de votos a menos na cidade do Rio. São sinais de que esse capital político não cresceu, mas derreteu”, acrescentou Marchetti.


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