Eleições 2020

CUT: segundo turno é momento de defender a democracia, a cidadania e a vida

Direção da central pede atenção a quem se apresenta como alternativa “com um falso verniz democrático”

Reprodução
Em Ribeirão Preto, disputa está praticamente decidida, enquanto em Campinas, quadro se mantém estável me relação ao levantamento anterior

São Paulo – A direção da CUT divulgou nesta segunda-feira (23) resolução em que expressa apoio, no segundo turno das eleições, às candidaturas do campo da esquerda e comprometidas com a defesa dos interesses dos trabalhadores e da democracia”. O documento não cita nomes, mas a central afirma que a maioria dos embates se dará contra a mesma direita que comandou o golpe de 2016 e ajudou na vitória de Jair Bolsonaro em 2018. E que agora “tenta constituir uma “alternativa” que mantenha o programa ultraneoliberal com um falso verniz democrático”.

Bolsonaro e seus aliados, a propósito, foram os “principais derrotados” no primeiro turno, avalia a CUT. “Essa derrota é fruto da irresponsabilidade em relação à pandemia e a economia.”

No texto (leia abaixo), a central afirma ainda que o segundo turno, no próximo domingo (29), é momento de enfatizar a defesa da democracia, da soberania nacional e de serviços públicos de qualidade. E acrescenta a presença de muitas candidaturas comprometidas com esses interesses e dos trabalhadores. Que superaram “as manipulações da mídia, as campanhas sujas, as fake news, o poder econômico e as dificuldades da pandemia”.

Assim, é momento de confrontar a “agenda da morte“, diz ainda a entidade. Seja a versão “autoritária e radical” ou “a centro-direita que dá sustentação ao governo Bolsonaro, mas vende ilusões de moderação e urbanidade”.

Conjuntura e desafios do segundo turno

Confira a íntegra do documento

A Executiva Nacional da CUT, reunida no dia 19 de novembro de 2020, debateu a conjuntura do país e adotou a seguinte resolução.

Conjuntura Nacional

Encerrado o primeiro turno das eleições municipais, constatamos que o povo e a classe trabalhadora brasileira deram uma resposta contundente à política autoritária e genocida implementada pelo presidente Jair Bolsonaro. Ele e seus aliados da extrema direita ultraneoliberal foram os principais derrotados nessa eleição.

Essa derrota é fruto da irresponsabilidade em relação à pandemia e a economia. Bolsonaro debocha e naturaliza mortes que poderiam ser evitadas, ignora os alertas e estudos da comunidade científica nacional e internacional e não preparou o país para enfrentar e superar a crise sanitária. Ele não construiu políticas conjuntas com os estados e municípios para proteger a saúde da população brasileira e, na contramão da grande maioria das iniciativas dos outros países, também não implementou condições econômicas e sociais para que os trabalhadores e trabalhadoras pudessem atravessar essa crise em condições dignas.

Pelo contrário, o governo trabalhou em favor dos interesses econômicos das grandes empresas, corporações e do capital financeiro que aumentaram seus lucros em meio a essa crise. A pandemia virou pretexto para atacar ainda mais os direitos e as conquistas dos trabalhadores, aumentando a flexibilização, rebaixando salários, produzindo mais desemprego, a falência de milhares de pequenas e micro empresas, elevando o custo de vida e o preço dos alimentos. E a destruição das políticas de direitos humanos e de proteção ao meio ambiente, que agravaram a destruição do Pantanal e da Amazônia, continuou.

O momento do segundo turno

No entanto, superando as manipulações da mídia, as campanhas sujas, as fake news, o poder econômico e as dificuldades da pandemia, grande número de candidaturas progressistas, comprometidas com os interesses dos trabalhadores, foram vitoriosas ou estão presentes na disputa do segundo turno. Também merece especial destaque a eleição de mulheres, de negras e negros, jovens e da população LGBTQI+, que por meio das suas mobilizações, conscientização e organização conseguiram sucesso em suas candidaturas.

O segundo turno é um momento importante para afirmarmos a centralidade da defesa da democracia e da participação popular, da soberania nacional, do SUS e dos serviços públicos de qualidade para todos, acumulando forças em torno de uma agenda de universalização de direitos e em defesa da vida, confrontando abertamente a agenda de morte do neoliberalismo golpista – seja a sua versão autoritária e radical, seja a centro-direita que dá sustentação ao governo Bolsonaro, mas vende ilusões de moderação e urbanidade.

É também um momento importante para a CUT reafirmar sua firme oposição ao governo Bolsonaro e a defesa dos interesses mais imediatos da classe trabalhadora, que sofre cotidianamente com a exploração capitalista, o racismo, o machismo e a homofobia, particularmente os feminicídios. Esse embate, na maioria das disputas, se dará contra a direita neoliberal que, após dirigir o golpe de 2016 e contribuir para a vitória de Bolsonaro em 2018, tenta constituir uma “alternativa” que mantenha o programa ultraneoliberal com um falso verniz democrático.

As candidaturas no segundo turno

Nesse sentido, a CUT manifesta seu apoio às candidaturas do campo da esquerda e comprometidas com a defesa dos interesses dos trabalhadores e da democracia que disputam esse segundo turno. Isto deve se traduzir na ação de sindicalistas junto as suas bases e na sociedade para reafirmar a importância do voto em projetos democráticos para as cidades defesa do voto nesses candidatos/as.

Após o segundo turno, devemos fazer um balanço para aprofundar a necessidade de construir uma atuação que consiga politizar e dialogar com mais eficiência e eficácia com as nossas bases, avaliando os instrumentos e as novas formas de interação para fortalecer as nossas organizações e ampliar os espaços de atuação, conscientização e mobilização.

Conjuntura Internacional

No plano internacional a derrota de Donald Trump para Joe Biden tem a importância de diminuir de forma considerável o ascenso da extrema direita no mundo e o apoio às políticas ultraconservadoras nos temas comportamentais, racistas, homofóbicos, machistas, da violência e da utilização da mentira como método de construção de narrativas para o ataque às instituições e a desmoralização dos adversários.

A eleição do democrata Joe Biden traz uma grande possibilidade para a retomada dos elementos da democracia, o fortalecimento e manutenção dos organismos multilaterais, (ONU, OIT, FAO etc.), o fortalecimento da pauta dos direitos humanos, do meio ambiente, do combate ao racismo e da homofobia. Sua vitória também vai aprofundar o isolamento internacional do presidente Bolsonaro, que apoiou explicitamente a candidatura Trump, não reconheceu até essa data a vitória de Biden e pode contribuir para o seu enfraquecimento interno. No entanto, não devemos ter ilusões quanto a agenda econômica do presidente eleito, tendo em vista os fortes vínculos dele e do seu partido com o capital financeiro internacional e a agenda neoliberal de Wall Street.

Na América Latina, as vitórias no Chile e na Bolívia, construídas a partir das mobilizações dos trabalhadores e dos movimentos sociais e sindical são de grande importância e sinalizam uma retomada da continuidade das lutas por justiça social, igualdade e desenvolvimento sustentável com distribuição de renda.

Lições

A conquista da Assembleia Constituinte no Chile a partir das mobilizações que duraram mais de um ano, teve como mote o rompimento com a Constituição neoliberal imposta pela ditadura de Pinochet e o restabelecimento dos direitos e políticas sociais que tinham sido retirados. A eleição do presidente Arce na Bolívia foi um repúdio ao golpe de estado promovido pela ultradireita, com apoio dos liberais, do governo Bolsonaro e de Trump. A mobilização permanente da classe trabalhadora boliviana, junto com os movimentos sociais, étnicos e identitários foi fundamental para garantir uma vitória retumbante nas eleições presidenciais e no poder legislativo.

 Essas experiências, juntamente com a vitória obtida na Argentina e as mobilizações em curso no Peru e Colômbia, podem nos ajudar a apontar caminhos para nossa militância e nossas organizações para superarmos a difícil crise que enfrentamos hoje no Brasil.

Desafios Sindicais

Após o primeiro turno das eleições e a volta do funcionamento do Congresso Nacional o movimento sindical deve se preparar para enfrentar uma nova ofensiva que visa a continuidade da política de flexibilizações e retirada de direitos da classe trabalhadora e das políticas sociais. Estão na agenda a retomada das privatizações, as reformas Administrativa e Tributária, o auxílio emergencial e a votação do orçamento geral da União.

A reforma Administrativa tem como principal objetivo o desmonte dos serviços públicos e das políticas sociais para todos trabalhadores e trabalhadoras e o povo brasileiro e a redução dos direitos dos servidores e servidoras públicos municipais, estaduais e federais. Portanto, essa é uma reforma que atinge não apenas os trabalhadores e trabalhadoras do serviço público, mas a toda classe trabalhadora que é usuária desses serviços públicos, direta ou indiretamente, e não terá mais esses direitos garantidos. Da mesma forma que as privatizações também vão desmontar as políticas de estado que garantem a energia, o saneamento, a água, a logística, os correios, os portos etc., com consequências desastrosas para a população, como estamos presenciando agora com o apagão no Amapá.

Para defender os serviços públicos e estatais precisamos alertar, conscientizar e mobilizar todos os trabalhadores do setor público e estatais que serão diretamente atingidos como também toda classe trabalhadora que sofrerá as piores consequências pela falta dessas políticas e serviços. Já estamos construindo uma organização unitária para a mobilização e enfrentamento dessa agenda juntamente com uma forte campanha de conscientização para que possamos construir uma grande mobilização que possa impedir que essas medidas avancem e sejam aprovadas no Congresso Nacional.

Auxílio emergencial

Também devemos mobilizar nossas bases para pressionar o Congresso Nacional a votar com urgência a manutenção do Auxílio Emergencial para que os trabalhadores e trabalhadoras possam ter condições dignas para atravessar as dificuldades provocadas pela pandemia da Covid-19, que ainda atinge fortemente a classe trabalhadora e o povo em situação de vulnerabilidade e desempregados.

Além de todas essas agendas que estarão em debate nesse final de ano no Congresso Nacional devemos ter no horizonte de 2021 que a crise da Covid-19 ainda não estará superada (como estamos presenciando na segunda onda que está acontecendo na Europa, EUA, Japão, dentre outros) e que deve provocar o acirramento da crise econômica, tendo em vista o descaso com que a pandemia foi tratada pelo governo federal. A crise econômica já provoca um forte aumento do custo de vida e em especial o aumento generalizado nos preços dos alimentos gerados pela irresponsabilidade do governo que não atuou para manter os estoques necessários e para garantir a alimentação a preços justos para a população.

Por outro lado, os eventos climáticos devem afetar ainda mais a produção e comprometer o abastecimento, o acesso e os preços dos alimentos para os lares da população. Com essas previsões, o acirramento da miséria e da fome será inevitável e a CUT deve mobilizar suas organizações, conjuntamente com os movimentos populares para lutar contra a carestia e da fome.

Nem vacilo, nem omissão

Não podemos vacilar nem nos omitir nessa luta que vale a vida de milhões de trabalhadoras e trabalhadores do país, que além de enfrentar o desemprego, as flexibilizações e reduções de salários, ainda terão de sofrer com a carestia dos alimentos, por conta da incompetência e inoperância desse desgoverno.

A CUT conclama sua base para ampliar a resistência e a luta contra o bolsonarismo e a barbárie social, ampliando a capacidade crítica das trabalhadoras e dos trabalhadores para a reconstrução da democracia, da proteção social, da segurança alimentar, do desmonte das políticas públicas, das privatizações e pelo emprego, trabalho e renda, somando-se à todas as mobilizações em curso.

Executiva Nacional da CUT


Leia também


Últimas notícias