Retomar o futuro

Gleisi: eleição na Bolívia mostra força da mobilização popular. ‘A direita não pode tudo’

Deputada participa de seminário Fundação Perseu Abramo, que mostrou plano do PT para “reconstruir e transformar” o Brasil, ante pandemia e governo Bolsonaro

Ricardo Stuckert - Fotos Públicas
Gleisi acompanhou vitória das forças progressistas na Bolícia diretamente no país vizinho. “A direita pode muito, com as mídias, os dinheiros, mas não pode tudo", afirmou Gleisi

São Paulo – Em sua participação no seminário “Reconstruir e Transformar o Brasil” a deputada federal Gleisi Hoffmann, (PT-PR), presidenta do partido, afirmou que o resultado das eleições presidenciais da Bolívia é importante não só para o país vizinho, como também para a democracia na América Latina. Gleisi falou de La Paz, onde acompanhou a vitória nas urnas do virtual novo presidente do país, Luis Arce Catacora, pelo Movimento ao Socialismo (MAS). O evento, promovido pelo PT e pela Fundação Perseu Abramo (FPA), teve a intenção de discutir e apresentar à sociedade o plano recentemente apresentado pelo PT com propostas para o Brasil enfrentar a crise, com retomada da economia, com geração de emprego e renda, além de inclusão social e preservação ambiental.

A eleição no país andino mostra ser “possível construir algo diferente do que a direita apresenta” na região, disse Gleisi. “A direita pode muito, com as mídias, os dinheiros, mas não pode tudo.” A parlamentar reafirmou que o plano apresentado pelo PT mostra que é viável “trilhar o caminho da justiça, da igualdade e da democracia.”

Por sua vez, Tereza Campello, ex-ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, criticou o corte do auxílio emergencial pela metade do valor (de R$ 600 para R$ 300), pelo governo de Jair Bolsonaro, uma medida “criminosa”, de acordo com ela. “Nos somamos à luta da sociedade civil pela manutenção dos 600”, afirmou.

Projeto civilizatório

Com o fim definitivo do auxílio, previsto para dezembro, o presidente da República “decreta” também o fim da pandemia e da crise sanitária em 31 de dezembro, como se isso fosse possível, disse Tereza. A ex-ministra propõe a “migração” do benefício, criado pelo Congresso durante a pandemia, para o Mais Bolsa Família, proposto pelo PT por meio do Projeto de Lei 4086/2020 em 5 de agosto. O Bolsa Família, em sua visão, se consagrou como “o mais eficiente programa de transferência de renda do mundo”.

“Por que o governo quer acabar com o Bolsa Família? Por que não ampliar? Ele não quer acabar só com o nome, mas com que esta por trás, (porque) o programa é uma porta de entrada a politicas assistenciais”, disse Tereza.

Para Rogerio Carvalho (PT-SE), líder do partido no Senado, a proposta apresentada pelo PT é “uma síntese de como dar seguimento ao projeto civilizatório interrompido pelo golpe” de 2016. O parlamentar defendeu, em sua fala, o desenvolvimento de projetos que contemplem a preservação do meio ambiente e sustentabilidade, além do incentivo e recuperação da agricultura familiar, “inviabilizada” pelo atual governo. “A sociedade já vivencia isso com o aumento dos produtos da cesta básica”, afirmou.

Bancos públicos

A presidenta do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Ivone Silva, disse que o governo Bolsonaro, em vez de facilitar a agricultura familiar, como forma de garantir alimentos acessíveis e de qualidade à população, prefere facilitar o crédito bancário para o agronegócio, cujo principal interesse é a exportação, o que provoca desabastecimento no país.

A dirigente destacou a importância das empresas públicas, em particular os bancos estatais, durante a pandemia. “Foi possível utilizá-los (porque) os ex-presidentes Lula e Dilma fortaleceram esses bancos”, disse. “A capilaridade dos bancos públicos é muito maior do que da rede privada, que fecha agências em vez de ampliar o atendimento.”

A dirigente defendeu instituições financeiras públicas como instrumento para fomentar o desenvolvimento e promover políticas anticíclicas, como na crise de 2008, quando Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil baixaram os juros, o que obrigou o sistema financeiro privado a fazer o mesmo.

Inversões

O ex-ministro da Fazenda e do Planejamento Nelson Barbosa atacou a política do governo Bolsonaro, que vai no caminho inverso das necessidades do país perante a crise. As perspectivas, especialmente a partir de janeiro, são de arrocho fiscal e de contração do gasto público “de maneira jamais vista”. “A crise vai exigir políticas emergenciais e políticas de reconstrução, promovendo emprego e crescimento, para depois promover reequilíbrio fiscal, o que é impossível em períodos de recessão. Em nenhum país se prevê ajuste fiscal durante uma crise”, afirmou.

O ex-ministro mencionou a PEC 36/2020, do Senado, apresentada pelo PT, que cria espaço fiscal temporário em 2021-22 e propõe novas regras a partir de 2023. A proposta propõe um período de “travessia”. A ideia é garantir transferência de renda, gastos com saúde e educação, despesas “extrateto” para investimento em construção civil e permissão para aporte de fundos de crédito para geração de emprego e ajuda a pequenas empresas.

Novos dogmas

Barbosa destacou também as recentes manifestações do Fundo Monetário Internacional (FMI), segundo o qual os governos devem passar a tributar pessoas e empresas de alto poder aquisitivo, em meio à crise econômica mundial. “Até o FMI tem revisado seus dogmas, apontando que todos os países deveriam apostar em transferência de renda e no aumento do investimento público na saída da pandemia, além da tributação dos mais ricos.” Ele acrescentou: “Mas, infelizmente, esse tipo de debate não chegou no governo brasileiro”.

Já o deputado Afonso Florence (PT-BA) defendeu que, a partir de 2023, cada presidente da República eleito, no primeiro ano de mandato, faça uma proposta de meta de gasto para cada área. “Permitirá que se discuta em ano eleitoral o que queremos como regra fiscal. Temos que ter controle de gasto, mas antes garantir crescimento e emprego.

Assista a íntegra do seminário


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