Eleições 2020

Distância entre ricos e pobres está aumentando em São Paulo, diz Tatto. ‘Temos de enfrentar’

Em entrevista ao Brasil de Fato, além de afirmar que os ricos terão de pagar sua parte na conta da redução da desigualdade na capita paulista, candidato do PT defendeu a criação do Renda Básica da Cidadania no município

Filipe Araújo
Tatto afirmou que Russomano é "cavalo paraguaio", e que aposta na militância petista na reta final da campanha

São Paulo – Em entrevista ao site Brasil de Fato, nesta quarta-feira (7) , o candidato à prefeitura de São Paulo pelo PT, Jilmar Tatto, apontou a desigualdade social como o principal desafio a ser enfrentado pelo seu mandato. “O centro da nossa política é o combate à desigualdade, e que a cidade de São Paulo não pode esperar. Temos de enfrentar. Para isso, o rico vai ter que pagar essa conta”, afirmou.

Ele defendeu a criação da Renda Básica de Cidadania no município, que atenderia prioritariamente a população em situação de rua. Ele também voltou a defender uma política “agressiva” de criação de casas populares, que também serviria para impulsionar a criação de empregos.

Além disso, ele propõe um “novo formato de contratação” para as compras da prefeitura, de modo a estimular a produção de cooperativas e da economia solidária. Ele afirmou que os uniformes das escolas municipais e dos profissionais de saúde, por exemplo, passariam a ser adquiridos dessa nova forma.

Como outra medida de combate às desigualdades, Tatto planeja estabelecer gratuidade no transporte municipal para desempregados. Também promete retomar a tarifa zero para estudantes da rede pública.

Ao Brasil de Fato, o petista criticou a gestão do atual prefeito, Bruno Covas (PSDB), candidato à reeleição, que durante a pandemia não ofereceu testes em massa para os paulistanos, nem ordenou as adaptações necessárias para garantir a segurança dos alunos na volta às aulas.

Sobre o deputado federal Celso Russomano (Republicanos), que lidera as pesquisas de intenção de voto na capital paulista, Tatto o classificou como “cavalo paraguaio”. com um “cavalo paraguaio”. “Aquele que fala grosso com o funcionário de supermercado, mas afina com o dono. Na última eleição, ele começou com 42% e perdeu para o Haddad.”

O candidato lembrou ainda que “o Russomanno votou contra o auxílio emergencial. Nós vamos falar isso. O povo vai ficar sabendo”.

Confira a entrevista

Candidato, o senhor fala bastante que revolucionou a cidade de São Paulo, principalmente na área de transportes. Caso eleito, qual é o seu projeto revolucionário e ambicioso desta vez para o município de São Paulo?

 Não sei se é projeto ambicioso, mas nós temos de enfrentar a desigualdade social. A distância entre ricos e pobres está aumentando ainda mais no Brasil e na cidade de São Paulo. Nós temos de enfrentar isso.

Nós temos de nos indignar e também fazer algo em relação a isso. Por isso que quando eu falei da renda básica e cidadania, é porque eu quero começar a implementação para os moradores em situação de rua, que precisam de carinho, respeito, um tratamento adequado, uma abordagem adequada.

O combate à desigualdade vai ser o meu grande projeto, por isso que eu falei dos moradores em situação de rua. Mas tem também a questão de moradia, aqueles que moram em submoradias, moram em cortiços. Uma política agressiva de geração de casas populares para quem ganha até três salários mínimos, e isso gera empregos.

E o passe gratuito para os desempregados, porque se a pessoa não tem dinheiro, como vai arrumar emprego? Então tem que permitir que ela tenha o direito de ir e vir na cidade de São Paulo.

O centro da nossa política é o combate à desigualdade, e que a cidade de São Paulo não pode esperar. Para isso nós vamos ter que o rico vai ter que pagar essa conta. Na questão por exemplo dos prédios abandonados, nós vamos restituir, já é lei. Mas nós vamos aplicar a lei do IPTU [Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana] progressivo para que esses prédios possam ser usados para moradia popular.

E, evidentemente, nós estamos falando de pandemia, tem que fortalecer o SUS [Sistema Único de Saúde], porque é a maneira de você fazer com que o Estado possa estar presente nesse momento de tanta necessidade da população. 

Administrar é como cuidar dos filhos. Você tem quatro filhos, gosta de todos. Mas se tem um que está doente, você tem de dar uma atenção especial. É o que está acontecendo na cidade de São Paulo.

Tem uma parte da população que está precisando mais, precisa do poder público, do Estado, da ação de mais que um prefeito, precisa de um líder que articule a cidade, que a cidade seja solidária. É assim que eu penso em ser prefeito, que cuida e governa para todos. Mas cuida daqueles que mais precisam.

A gestão de Fernando Haddad, da qual o senhor foi secretário de Transportes, terminou, e os empresários do setor mantiveram o lucro de 18%, o que supera, inclusive, a legislação que regula o setor. Na mesma linha, os usuários pagam valores cada vez maiores nas passagens. Quais suas propostas para o setor? O senhor pretende mexer no lucro das empresas?

Fui o secretário que mais tempo ficou em uma Secretaria de Transporte e Mobilidade da cidade de São Paulo, de todos os governos. Nós tivemos a oportunidade de fazer uma verdadeira revolução no setor. 

Organizamos o transporte e fizemos uma concessão ainda no governo da Marta Suplicy, e ainda tivemos a oportunidade de, além de disciplinar e regular todo o sistema de transporte, criar o Bilhete Único que permitiu que as pessoas, em vez de pagarem três ou quatro passagens, passaram a pagar apenas uma passagem.

Fizemos os corredores de ônibus que têm na cidade. Na época do Haddad, nós ampliamos não só na área de transporte coletivo, mas também as ciclovias que nós fizemos mais 400 quilômetros de ciclovias que era um direito dos ciclistas.

E aí caiu de novo para eu fazer em 2013. Nós começamos o processo licitatório, tiveram vários embates com as empresas, também com o Tribunal de Contas do Município e acabou não dando certo de fazer a nova concessão no sistema de transportes.

Quando tomou auditoria para rever todos os anos daqueles contratos, e o que se verificou foi que a taxa interna de retorno não estava nesses 18% que você falou. Ficou em torno de 12 ou 13% em um período de inflação muito grande, e os contratos acabaram acontecendo. 

O fato é que, em função desses entraves jurídicos, nós não conseguimos fazer a nova licitação. Entrou o novo governo, do Doria, eles fizeram a licitação, mudaram nosso edital, toda aquela área de transparência, de controle que nós tínhamos colocado na nova concessão, e acabou não acontecendo. 

Por último, uma coisa inédita que nós fizemos na cidade de São Paulo: antigamente, as empresas arrecadavam os recurso do pagamento na catraca. Quem recebe é a SPTrans. Então, esse recurso é todo centralizado na prefeitura e aí a prefeitura paga pela prestação de serviços a essas empresas, o que foi algo inédito.

Isso sim foi peitar os empresários naquela época. Nós tivemos sérios problemas, inclusive de enfrentamento da máfia dos fiscais que tornou muito difícil a nossa vida. Mas mesmo assim a gente evoluiu e apresentamos depois, inclusive, o Bilhete Mensal, Semanal e Diário. 

Candidato, as gestões começam e terminam, mas a questão da cracolândia segue sem uma solução. Aquilo que deveria ser tratado também como uma questão de saúde pública é tratado, na maioria das vezes, apenas como um caso de segurança pública. Quais propostas o senhor tem para a cracolândia? Está prevista a retomada do programa Braços Abertos?

O programa Braços Abertos ganhou prêmios internacionais, porque envolveu profissionais de diversas áreas. Na área de saúde, médicos psiquiatras, enfermeiras. Envolveu a área da assistência social, então tinha assistentes sociais acompanhando todos os dias aquele pessoal que ficava em torno da estação da Luz.

Envolveu a área da Secretaria do Trabalho, porque foi dada inclusive oportunidade para que eles pudessem ter um trabalho. E também teve toda uma política e uma preocupação de dar abrigo a essas pessoas através de uma casa, para aqueles que tinham família, ou através de um aluguel social, ou colocar em hotéis. 

Todo este programa quando estava diminuindo bastante a quantidade de gente na Cracolândia. Teve um cuidado, teve amor para aquelas pessoas e estava sendo bastante elogiado na cidade, no país, mesmo em foros internacionais. 

O Doria chega junto com o Covas e espalha. “Nós acabamos com a cracolândia”, e o jeito de acabar foi exatamente mandar a polícia esparramar. Acabou com todo esse programa de Braços Abertos que a Prefeitura fez na Cracolândia. 

O que eu vou fazer? Eu vou voltar o programa Braços Abertos. Eu tenho conversado, inclusive, com uma parte das pessoas que trabalhou neste programa para que nós possamos voltar, que é um programa que exige cuidado, procedimentos, carinho. A Polícia e a Guarda Civil Metropolitana tem de estar lá para proteger as pessoas que estão com essa dependência química, e proteger também quem trabalha nesta área.

Essa é a função: proteger os cidadãos e a cidadãs. Assim como vou fazer com as pessoas em situação de rua: nós vamos dar carinho, amor, e a gente vai ter uma política de renda básica e cidadania para essas pessoas.

Se eleito, o senhor deve assumir São Paulo ainda em um contexto de pandemia. Como o senhor analisa a gestão da crise feita pelo prefeito Covas? Com quais medidas pode se comprometer, caso assuma? Aulas serão mantidas? Transporte público funcionará?

A cidade ficou mais desigual. Se não fosse a generosidade dessa população, o sofrimento seria maior. O que nós vamos fazer? Primeiro implantar a renda básica e cidadania para os mais vulneráveis, para as pessoas terem o que comer.

Segundo, nós vamos instituir o transporte gratuito para os desempregados e voltar o transporte gratuito para os estudantes. Terceiro, uma política de geração de empregos: mudar o formato de contratação da prefeitura, os uniformes escolares, os uniformes da rede de saúde, ser confeccionados por cooperativas e, portanto, gerar empregos no território.

Fazer com que as pessoas possam consumir no território, uma política de construção de casas populares. Então o que eu faria? Isso eu já implantaria logo no início do governo, durante a pandemia. 

Quanto às aulas, eu acho que o ano está perdido. Deve-se preparar já para o ano que vem, do ponto de vista de um plano pedagógico, onde tem alunos com níveis diferentes, preparar do ponto de vista de instalação de internet, tanto nas escolas quanto nas casas, e preparar as escolas do ponto de vista físico: instalar torneiras, com sabão, álcool em gel, aumentar o número de salas de aulas, verificar como que vai ser a movimentação na hora do recreio, os banheiros. 

Tudo isso não está sendo feito pelo atual governo, é totalmente inerte. A prefeitura tem R$ 18,5 bilhões em caixa. A atividade econômica, mesmo na pandemia, continua subindo na cidade de São Paulo. Só o ISS [Imposto Sobre Serviços], entre janeiro a agosto deste ano, comparado com o mesmo período do ano passado, subiu 6,5%.

A arrecadação da Prefeitura, também com o dinheiro do governo federal, subiu 16%. No Fundurb, que é o Fundo de Desenvolvimento Urbano, tem R$ 1 bilhão em caixa. Olha só a crueldade que o Bruno Covas e o Doria estão fazendo: tem dinheiro em caixa e as pessoas não têm o mínimo. 

Eu faria totalmente diferente. Eu articularia toda a sociedade paulistana, os comerciantes, sociedade civil, e nós íamos fazer uma operação de guerra para evitar que as pessoas morressem nesta cidade e se contaminarem.

Nós temos em São Paulo uma eleição fragmentada, com muitos candidatos e, de acordo com as pesquisas, haverá segundo turno. A fragmentação da esquerda pode evitar que algum candidato desse setor chegue ao segundo turno? 

O que eu entendo é que o PT já ganhou na cidade três vezes. O PT é um partido de chegada. Nós temos uma militância fantástica, uma boa bancada de vereadores, vereadoras, candidatos. Está organizado em todo o território, principalmente na periferia.

No momento em que a gente fala do nosso legado, tudo o que o PT fez, ciclovia, faixa de ônibus, CEU, uniforme escolar, Paulista Aberta, hospitais, UBS [Unidade Básica de Saúde], Rede Hora Certa, significa que PT faz o benefício, entrega o benefício, e eles tiram, como tiraram é o Leve-leite e o passe de estudante gratuito. 

O presidente Lula é a pessoa que mais consegue transferir votos. As pessoas falam que votariam em um candidato indicado pelo Lula. Eu sou uma pessoa que, apesar de ter estado oito anos na cidade de São Paulo, como secretário e ter bastante coisa concreta para a população, ainda sou uma pessoa desconhecida.

Como eu me torno conhecido? Como nós fizemos domingo no início da campanha eleitoral, no dia 27 de setembro: carreatas em toda a cidade, bandeiraços, que é justamente para mostrar a força da militância do PT. Vamos fazer vários atos nesse período. Vai chegar o horário eleitoral na televisão, e aí nós vamos começar a apresentar nossas propostas, o que vamos fazer para a cidade de São Paulo. 

Então eu estou bastante esperançoso que o PT vai para o segundo turno. Nós vamos ganhar a eleição. A impressão que eu tenho é que a população vai cada vez mais não votar no “BolsoDoria”.

Você tem uma situação que o Doria enganou a população de São Paulo, falou que ia ficar quatro anos, foi embora, ganhou para governador e já começou a querer ser candidato para a Presidência da República. A rejeição é muito grande, e o Bolsonaro está aumentando a rejeição em função do comportamento dele em relação às queimadas, ao que eles está fazendo ao povo brasileiro. 

O Bolsonaro, depois de dizer que não ia se posicionar, assumiu a candidatura do Russomanno para ele. O que o senhor pensa dessa aliança?

Pode atrapalhar, inclusive, o Russomanno, mas ele é cavalo paraguaio: aquele que fala grosso com a Bolívia e fino com os Estados Unidos, como Chico Buarque diz. Ele fala grosso com o funcionário de supermercado, mas afina com o dono do supermercado.

O Russomanno votou contra o auxílio emergencial. Nós vamos falar isso. O povo vai ficar sabendo. Ele precisa se explicar. Na última eleição, ele começou com 42% e perdeu para o Haddad. É evidente que nós vamos fazer uma campanha propositiva, falar o que a gente pensa sobre a cidade. 

Eu participei de dois planos diretores, de mobilidade, articulação com outras secretarias. Então, essa experiência e ousadia que quando estive a frente do secretariado e o legado do PT, mais a força do PT e do Lula, é que vai fazer com que a gente vá para o segundo turno. E vamos disputar e ganhar a eleição pela quarta vez aqui na cidade.