Efeitos colaterais

Eleições de 2020 são teste para consolidação da ‘nova direita’ no cenário político

No Jornal Brasil Atual, a professora da UFRGS Silvana Krause avalia o que se espera dessas legendas nas eleições municipais deste ano. Cenário de pandemia pode alterar expectativas, observa

Tasso Marcelo/ Fotos Públicas
"O que é possível dizer é que essa eleição disruptiva que já começa a dar seus sinais em 2016, um pouco em 2012, ela não vai simplesmente ser esgotada em 2020", avalia professora da UFRGS

São Paulo – Para a professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Silvana Krause, o cenário de pandemia altera as expectativas relacionadas às forças que sairão vitoriosas das eleições municipais deste ano. Este fator, mas não só, é mais um complicador na análise relativa à consolidação ou não do avanço da chamada “nova direita”, que conseguiu êxitos importantes no últimos processos eleitorais brasileiros.

Coordenadora do grupo de pesquisa da UFRGS que é autor do artigo “Novos Partidos no Brasil: Gêneses, Perfis e Trajetórias”, Silvana destaca que a emergência de novos partidos de direita tomou vulto nos últimos anos, a partir de uma onda que ganhou força nas eleições municipais de 2016. Mas que, na verdade, vem de um processo anterior, com a ocupação de “vácuos” deixados pela direita tradicional, e também pelo centro e esquerda.

A “nova direita” se beneficiou sobretudo da crise econômica e do sentimento de descrença política que se desenvolve em especial em 2013. Dois efeitos que ainda pairam sobre o país e agora se somam à maior crise sanitária do último século. “Esse processo de eleição disruptiva, que já começa a dar seus sinais em 2016, um pouco em 2012, não vai simplesmente se esgotar em 2020”, sintetiza a professora, em entrevista a Glauco Faria, no Jornal Brasil Atual

A derrocada da direita tradicional 

O artigo faz parte do livro recém-lançado Eleições Municipais – Novas Ondas na Política (FGV Editora), organizado por Antonio Lavareda e Helcimara Telles. Com a fragmentação do sistema partidário, as siglas da chamada direta tradicional vão perdendo espaço nas cidades ao longo do tempo, caso, por exemplo, do PP e do DEM, que surgem no processo de redemocratização, nos anos 1980, como herdeiros do PDS/Arena.

“Esses partidos de nova direita conseguem adquirir espaços mesmo em um período de governo nacional hegemônico dito de esquerda (do PT). Fala-se muito que a direita tinha medo de sair do armário nos anos 1990 e, na verdade, essa direita já era consolidada. Nós temos um comportamento no eleitor que se identifica com partidos de direita, ou, às vezes, o eleitor nem se identifica com o partido, porque vota geralmente em pessoas, mas a tradição não é votar em partidos que sejam de esquerda”, pontua Silvana, fazendo referência às eleições municipais. 

Nas eleições de 2018 para o Executivo e o Legislativo, o sistema partidário brasileiro “implode”, nas palavras da pesquisadora. E os partidos que já vinham se consolidando pelo menos no cenário nacional são “desestruturados”. “Mas esse fenômeno vinha lentamente acontecendo”, pontua. Como ocorreu, por exemplo, com o PSDB e o MDB, que perderam suas numerosas bancadas na Câmara e tiveram candidatos à presidência com resultados inexpressivos. 

“A direita tradicional estava desacreditada e já vinha há muitos anos perdendo espaço e havia aqui uma janela de oportunidade”, comenta Silvana, sobre o espaço ocupado pelo Republicanos, antigo PRB, além de PSD, Patriota, Pros, Novo, PSL, Solidariedade e PMB. A chamada “nova direita”

Novo é só o nome

Em 2018 o resultado impressionou porque o próprio PSDB, dois anos antes, havia conseguido eleger como prefeito de São Paulo o atual governador João Doria, que usou de um discurso típico dos partidos mais novos desse espectro, aliando antipolítica e antipetismo. Para a professora da UFRGS, os escândalos e denúncias de corrupção, contudo, fizeram depois com que o PSDB “perdesse sua representação em 2018”. 

As mesmas denúncias que agora podem atingir os partidos da nova direita que são, por natureza, bastante fragmentados e de fraca capilaridade nacional. Como o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), envolto em denúncias de corrupção pelo partido ligado à Igreja Universal do Reino de Deus. Ou o partido Novo, de linha ultraliberal, que de “novidade” parece restrito ao nome. Até o PSL, um pouco mais antigo que os demais, mas heterogêneo, colecionando acusações das diferentes personalidades que se dizem antipolítica. 

“E existem ainda movimentos bastante fragmentados e que sofreram impactos com as denúncias de corrupção e irregularidades como o MBL, por exemplo, que nasce como um movimento anticorrupção e sabe-se que há denúncias e irregularidades já mostradas em relação a ele”, acrescenta a pesquisadora. 

O que pensará o eleitor 

Mas o que também se mantém para as eleições deste ano é a força das mídias digitais. “O eleitor não quer mais muito debate, ele quer impacto, frases prontas, certezas. Ele quer ou ‘sim ou não’, respostas simplificadas, e a realidade não é simples, exige reflexão. Mas a gente percebe que o eleitor não quer, ele quer uma resposta da classe política rápida, concisa e pronta. Não quer escutar  o contraditório, isso ficou evidente em 2018, quando se falava no novo, no outsider”, observa Silvana.

“O impacto na mídia era de uma coisa nova, ‘sou contra tudo o que está aí’. E política não é isso. Com ‘contra tudo o que está aí’ não se governa”, ressalta a professora a UFRGS. 

A pandemia, no entanto, pode também levar o eleitor a ter um comportamento “mais retrospectivo”, diz Silvana. “No sentido de que ele vai ter um voto menos pautado num debate ideológico, do ‘contra tudo o que está aí’, mas muito mais em um debate do que o meu prefeito, da minha cidade, fez para enfrentar essa crise que estamos vivendo. Pode surgir uma perspectiva do voto pragmático do eleitor. Não estou dizendo que será um voto racional, porque vai depender muito de como o eleitor percebe se está sendo protegido, se a sua cidade está sendo bem cuidada ou não”, antecipa, sobre as diferentes perspectivas da população que podem pesar em sua no dia 15 de novembro. 

Confira a entrevista na íntegra 

Redação: Clara Assunção. Edição: Glauco Faria