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Auxílio emergencial, esquerda apática e ‘silêncio’ do clã explicam melhora de Bolsonaro no Ibope

Segundo Ibope, popularidade do presidente cresceu mais entre quem cursou até 8ª série, tem renda familiar de até um salário mínimo e mora nas periferias

Carolina Antunes/PR-Fotos Públicas
Bolsonaro nesta quinta (24) em da Polícia Rodoviária Federal no Rio de Janeiro

São Paulo – Quais as causas do crescimento da popularidade do governo Jair Bolsonaro, que era de 29% em dezembro de 2019 e saltou para 40%, segundo pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta quinta-feira (24)? O campo progressista está subestimando o chefe de governo e suas atitudes populistas e de marketing?

“Na minha avaliação, uma das razões deve ser o auxílio emergencial. Além disso, nos últimos meses, o governo tem produzido menos crises ou as tem abafado. O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) tirou o time de campo. A justiça censurou a cobertura da TV Globo quanto às rachadinhas. Bolsonaro tem falado menos em comparação com o primeiro semestre. No caso dele, não falar parece ser positivo”, sintetiza a cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

Na opinião do ex-presidente do PSB Roberto Amaral, não se trata propriamente de a esquerda subestimar o atual chefe de Estado brasileiro. “A esquerda está apática, sem ação, desorganizada, em crise existencial”, diz.

Também para o cientista político e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Wagner Romão, a esquerda não tem subestimado Bolsonaro. “Ele está sobretudo surfando na onda do auxilio emergencial”, avalia.

De acordo com o levantamento, a popularidade do presidente cresceu principalmente entre quem cursou até a 8ª série do ensino fundamental, tem renda familiar de até um salário mínimo, os que moram nas periferias das capitais e população das regiões Sul e Nordeste.

“Essa população está recebendo o benefício, mas precisa ver até quando vai ficar com ele, porque o auxílio provavelmente vai acabar. Esse benefício é dinheiro injetado no bolso da população mais pobre, e essa população faz uma ligação direta disso com o governo federal, com Bolsonaro”, acrescenta Romão.

Eleições

Para Amaral, o campo progressista não tem apresentado alternativas nem lideranças ao discurso de Bolsonaro. “Ele está sozinho. Está sem nenhum adversário, os governadores recuaram e os partidos progressistas estão preocupados com a eleição de vereadores”, diz.

O ex-presidente do PSB entende que o auxílio emergencial também pode concorrer para o crescimento da popularidade do governo e do presidente, mas há outros fatores. “Pode ser também isso, ele estar surfando nesse auxílio, mas está indo toda semana ao Nordeste. E eu pergunto: o que nossos governadores, nossos partidos e os líderes do nosso campo estão fazendo?  Enquanto ele cresce, estamos nos dividindo para ver se elegemos vereadores (nas eleições municipais).”

Apesar de a avaliação pró-Bolsonaro ter crescido no Nordeste, a região se mantém com o menor percentual de apoio ao governo, de apenas um terço da população da região, ou 33%.

De acordo com reportagem do Uol, para Renato da Fonseca, gerente-executivo de economia da CNI, “aparentemente, o auxílio emergencial teve um papel importante na melhora da avaliação do governo Bolsonaro”.

Para Romão, Bolsonaro e seu staff governamental entenderam que programas de transferência de renda, como o auxílio emergencial, são ações que trazem votos e trazem impactos políticos diretos. “Por isso eles vêm agora com essa proposta de ‘ampliar’ o Bolsa Família.”

O governo Bolsonaro quer criar outra “marca” para o Bolsa Família, ao mesmo tempo mantendo a injeção de recursos no bolso da população mais vulnerável e se livrando da herança dos governos do PT com o Bolsa Família, programa reconhecido internacionalmente como eficaz no combate à miséria.

Silêncio ajuda

Se Bolsonaro, como diz Maria do Socorro, tem falado menos, e, no caso dele, “não falar parece ser positivo”, decisões judiciais têm ajudado a manter o silêncio.

No início do mês, a  juíza Cristina Serra Feijó, da 33ª Vara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, atendeu a pedido do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e proibiu a TV Globo dar informações sobre as “rachadinhas”.

Antes, no final de agosto, o juiz Leonardo Grandmasson Ferreira Chaves, da 32ª Vara Cível do Rio, determinou a retirada de 11 reportagens do Jornal GGN, do jornalista Luis Nassif, sobre o banco BTG Pactual. Mas matérias censuradas tratam de negócios envolvendo o banco BTG Pactual, que tem entre seus fundadores o atual ministro da Economia, Paulo Guedes.