Espremido

Flávio Bolsonaro admite que Queiroz pagava suas contas

Senador disse que foi “relaxado” com esquema de Queiroz para ficar com parte dos salários de outros assessores. Também afirmou não saber que ele estava escondido em Atibaia, nem como bancou tratamento de saúde com dinheiro vivo

Edilson Rodrigues/Agência Senado
Segundo o MP-RJ, Queiroz pagou R$ 260 mil em contas de Flávio com dinheiro vivo

São Paulo – O senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) admitiu que seu ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz fez pagamentos em dinheiro vivo em seu nome. No entanto, em entrevista ao jornal O Globo, nesta quarta-feira (5), ele nega o esquema de “rachadinha” e diz que as contas eram pagas com recursos próprios e lícitos.

“Pode ser que, por ventura eu tenha mandado, sim, o Queiroz pagar uma conta minha”, afirmou Flávio. “Eu pego dinheiro meu, dou para ele, ele vai ao banco e paga para mim.”

De acordo com investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ), mais de 100 boletos (cerca de R$ 260 mil) foram pagos pelo ex-assessor em dinheiro vivo. As contas incluíam mensalidades do plano de saúde da família do senador e da escola das suas filhas.

Segundo Flávio, “a origem dos recursos é toda lícita”. Na entrevista, disse manter uma vida simples. “Não esbanjo nada. Meu modo de vida passa longe de uma pessoa rica.”

Relaxado

Sobre a movimentação financeira atípica de Queiroz, o parlamentar citou a versão dada pelo próprio. Segundo o ex-assessor, parte dos salários dos nomeados do gabinete de Flávio, quando ainda era deputado, servia para contratar “equipe de rua” para atuar na campanha.

Mas o senador confessou também que “talvez tenha sido um pouco relaxado de não olhar isso mais de perto”. Outra contradição, relatada pelo próprio senador, é que “na Assembleia existia a possibilidade de desmembrar cargos”. Não justificaria, portanto, a necessidade de ficar com parte dos salários dos nomeados.

Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que deu origem à investigação do esquema de “rachadinha”, mostra que Queiroz movimentou quase R$ 7 milhões, entre 2014 e 2017.

Esconderijo

Flávio também alegou que nem ele nem o pai, o presidente Jair Bolsonaro, sabiam que Queiroz estava escondido, em Atibaia (SP), na casa do advogado Frederick Wassef. Segundo o senador, Wassef pode ter se sensibilizado com Queiroz, já que também havia passado por quatro cânceres. Quando o ex-assessor foi preso, o próprio presidente afirmou que Queiroz estaria no interior de São Paulo para se tratar da doença.

“Se ele (Wassef) se sensibilizou e deixou o imóvel para ele (Queiroz) usar, não tem crime nenhum nisso, nada de errado. Agora, é óbvio que isso não podia ter acontecido nunca. Foi um erro. Se (Wassef) tivesse comentado comigo, diria que ele estava sendo imprudente. Dá margem para as pessoas pensarem que a gente estava ali escondendo o Queiroz.”

Sobre os R$ 120 mil reais pagos em dinheiro vivo pagos por Queiroz pelo tratamento no Hospital Albert Einstein, na capital paulista, Flávio reconheceu que “não é algo normal”. Mas disse não saber sobre a origem do dinheiro.

Coincidências

Além de Queiroz, o MP-RJ identificou que o policial militar Diego Sodré de Castro Ambrósio quitou um boleto de um apartamento comprado pela mulher de Flávio. O senador disse que a conta estava para vencer, enquanto ele estava num churrasco de comemoração da sua eleição, sem o aplicativo do banco no celular. “‘Deixa que eu pago aqui para você e depois você me dá o dinheiro’. Foi isso o que aconteceu”, relatou o senador.

Combinações

As declarações vão de encontro a versão dada por Queiroz ao MP-RJ, enquanto esteve no presídio de Bangu 8, no Rio. Ele disse que contou que ficava com parte dos salários dos outros assessores. “Eu tive um contato com o senador — ele não era senador, era deputado, mas já estava eleito. Eu dei satisfação a ele do que aconteceu. Ele estava muito chateado, revoltado. Ele falou: ‘Não acredito que tu tenha feito isso, não acredito'”, disse ele em depoimento.

Depois de 22 dias no presídio, a prisão provisória foi substituída pela prisão domiciliar, juntamente com sua esposa, Márcia Aguiar. Isso ocorreu após decisão do ministro João Otávio de Noronha, presidente do Superior Tribunal de Justiça, em 9 de julho, durante o recesso judiciário.

Edição: Glauco Faria