Além da rachadinha

MP reabre investigação de assassinato em operação policial envolvendo Queiroz e Adriano

Promotor cita a falta de exames nas armas utilizadas e sugere que novas testemunhas sejam ouvidas para elucidar morte de estudante

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Investigação de sobre participação de Queiroz e Adriano em possível execução se arrasta há 17 anos

São Paulo – O Ministério Público do Rio (MP-RJ) determinou a realização de novas diligências em caso que investiga a participação dos ex-policiais militares Fabrício Queiroz e Adriano da Nóbrega no assassinato do estudante Anderson Rosa de Souza, de 29 anos. O MP-RJ identificou falhas no inquérito, instaurado há 17 anos.

O assassinato, ocorrido em 15 de maio de 2003, foi relatado por Queiroz e Adriano como auto de resistência, termo genérico utilizado quando um suspeito é atingido em confronto com policiais.

Dentre as falhas identificadas pelo promotor Cláudio Calo Sousa, que pediu a reabertura do caso no último dia 3, está a ausência de exame nos fuzis usados na operação, de perícia de resíduos nas mãos do cadáver e de depoimentos de familiares da vítima.

Além disso, também causou estranheza ao promotor a falta de juntada dos folhas de antecedentes criminais (FAC) dos policiais. Apenas a FAC de Anderson, que estava limpa, foi anexada ao processo. O promotor deu prazo de 90 dias para a conclusão do inquérito.

Versões

Segundo a versão dos policiais, eles teriam entrado na Cidade de Deus – comunidade na zona oeste do Rio de Janeiro – quando foram alvo de disparos efetuados por um grupo de pessoas supostamente armadas. Depois do alegado confronto, os policiais disseram ter encontrado o corpo de Rosa junto a uma “bolsa preta”, contendo drogas e uma pistola.

Queiroz e Adriano disseram que só eles dois atiraram, os outros três policiais não. Eles levaram, então, o corpo do estudante para o Hospital Cardoso Fontes. Ele deu entrada na unidade já sem vida. Na época, eles prestaram depoimento no batalhão, entregaram os fuzis usados no dia e voltaram a trabalhar normalmente.

O laudo cadavérico, contudo, mostra que a vítima morreu com três tiros, dois deles efetuados pelas costas, contrariando a versão dos policiais.

Ao longo de quase duas décadas, sequer a viúva da vítima foi ouvida no inquérito. No entanto, sob condição de anonimato, em entrevista ao programa Fantástico, da TV Globo, ela negou que o marido fosse traficante. E disse recordar-se de Queiroz como um policial temido na região. “Ele fez muita mãe chorar”, afirmou.

Histórico

Quatro anos depois do ocorrido, Queiroz começou a trabalhar como assessor do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Ele está preso preventivamente desde 18 de junho, quando foi detido em Atibaia (SP). Na última quinta-feira (9), o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), João Otávio de Noronha, converteu a preventiva em prisão domiciliar. Queiroz é tido como comandante do esquema da “rachadinha” – repasse de dinheiro público do salário de funcionários do gabinete do então deputado estadual e hoje senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ).

Já o capitão Adriano, como era conhecido, foi morto em operação na Bahia em fevereiro, quando estava foragido. Ele era acusado de comandar o “Escritório do Crime”, principal grupo miliciano que atua na zona oeste do Rio de Janeiro. Além disso, a mãe e a esposa de Adriano também foram nomeadas como assessoras de Flávio Bolsonaro, suspeitas de participar do esquema de rachadinha.