Entrevista

José Dirceu: ‘Bolsonaro é instrumento das Forças Armadas’

Para ex-ministro, significado político de Bolsonaro é mais complexo do que de Jânio Quadros e Fernando Collor, por elementos como o fundamentalismo religioso de seu eleitorado

Arquivo ABr
Bolsonaro não quer um partido, destacou o ex-ministro, “quer armar uma parcela da base dele e ter essa base compacta"

São Paulo – O ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, participou, na noite desta terça-feira (7), de uma entrevista a um grupo de jornalistas progressistas. Dirceu falou sobre um eventual impeachment do presidente Jair Bolsonaro, da crise em meio à pandemia de coronavírus, do autoritarismo de governo do clã eleito em 2018 e de uma frente democrática para combater o autoritarismo. O evento foi promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé.

Para Dirceu, abordar o significado de Bolsonaro exige maior capacidade de análise do que em momentos passados, como, por exemplo, o caráter político e eleitoral dos ex-presidentes Jânio Quadros, que governou por sete meses em 1961, e Fernando Collor (1990-1992), ambos populistas.

“A base social (de Bolsonaro) é mais complexa do que estávamos acostumados a analisar, porque tem o conteúdo do fundamentalismo religioso. Uma coisa muito séria, e temos que saber conduzir. Não podemos negar os neopentecostais, o direito de fazerem política, porque a Igreja Católica fez política antes de 1964, com a direita, e depois, na teologia da libertação”, disse.

Mais do que esse enorme contingente potencial (porque nem todos os evangélicos o apoiam) de dezena de milhões de pessoas, Bolsonaro tem ainda uma base popular, pontua Dirceu. “Essa base é por causa da segurança pública, (a questão da) corrupção, o individualismo, o elogio da prosperidade. Ele pregou um pensamento conservador que se enraizou numa parcela importante da sociedade. Não estamos tratando apenas de um partido como o PSDB, o DEM, de um populista como Collor ou Jânio. É mais complexo.”

“Para mim, Bolsonaro é um instrumento das Forças Armadas e expressa a política das Forças Armadas, inclusive em questões como política externa e defesa nacional. O Brasil submeteu sua política externa ao Comando Sul (dos Estados Unidos) e à OTAN”, disse Dirceu.

Bolsonaro não quer um partido, destacou o ex-ministro, “quer armar uma parcela da base dele e ter essa base compacta, e se apoiar nas Forças Armadas, e queria pelo menos obrigar o Congresso e a Câmara a acompanhar suas posições”, disse.

Para Dirceu, não é uma tarefa simples fazer vingar um processo de impeachment de Bolsonaro, não apenas pelo apoio com que ainda conta na sociedade, mas porque “o que unifica todos eles é o temor de uma alternativa de esquerda ou centro-esquerda, particularmente pela presença do Lula”.

Herança progressista

O ex-ministro lembra que, embora Lula esteja hoje sem seus direitos políticos, o candidato petista em 2018, Fernando Haddad, obteve mais de 31 milhões de votos no primeiro turno e pouco mais de 47 milhões no segundo. Para ele, isso “mostrou que, depois de tudo, ainda há uma base, uma herança e uma memória” dos governos de centro-esquerda do PT.

A eleição de 2018 não foi uma eleição normal, não só pela nova realidade em que o neopentecostalismo foi importante, senão decisivo, como também pelo fenômeno das fake news, assim como ocorreu na eleição dos Estados Unidos de 2016, que elegeu Donald Trump.

“Não sofremos qualquer derrota, sofremos uma derrota muito importante. Aliás, nós e a direita liberal, burguesa. E eles (a direita) principalmente, porque o Alckmin fez 4,5% (na realidade, 4,76%), o Haddad fez 29,28% no primeiro e 45% (44,87%) no segundo turno.”

‘Aburrido’

Dirceu afirmou estar “aburrido, como dizem os cubanos”, com o tema frente ampla democrática. “O ideal é que houvesse uma frente democrática antifascista, independente de uma frente de esquerda, que não há”, disse, embora com a ressalva de que os partidos de oposição a Bolsonaro “estão pelo impeachment e têm um trabalho em comum muito importante na Câmara”. Mas, por outro lado, “infelizmente, não haverá uma frente democrática e nem uma frente ampla. Haverá muitas frentes, como já está claro”.

Diante do quadro, disse Dirceu, “ou nós vamos até 2022 com Bolsonaro”, ou, o mais provável, a pandemia de coronavírus e a política ultraliberal de Paulo Guedes “lançará nas ruas as classes médias, primeiro, e depois os setores das classes trabalhadoras mais avançados”.  Ele acrescentou: “Quem saiu às ruas agora foram os excluídos, as torcidas organizadas, a juventude antirracista, os entregadores, mas com um nível de consciência democrático.”

Nesse contexto inédito, a violenta flexibilização da quarentena provoca medo nos trabalhadores, na opinião do ex-ministro. “Os trabalhadores estão apavorados com a volta ao trabalho, porque é morte. Como a flexibilização do isolamento horizontal e a volta, organizada ou não, é uma realidade, nós vamos viver uma tragédia”, disse Dirceu.

Edição: Helder Lima