Fim breve

Com vida útil, bolsonarismo só sobrevive com apoio do poder econômico

João Pedro Stedile, do MST, defende que derrubada de Bolsonaro seja focada no projeto de governo

REPRODUÇÃO
Mutirão Lula Livre teve debate crise sanitária, novas mobilizações políticas e boicote à arte

São Paulo – O governo de Jair Bolsonaro e o tal bolsonarismo não têm futuro no Brasil, mas seu projeto de governo ainda segue forte. Lideranças e especialistas apontam que a bandeira “Fora, Bolsonaro” precisa apontar não só contra o presidente, mas também ao seu plano econômico. A avaliação foi feita pelo fundador e membro da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, durante a segunda live organizada pelo Comitê Lula Livre .

Segundo Stédile, apesar de uma frente pela derrubada de Bolsonaro estar ganhando forma, não será fácil. Isso porque a austeridade ultraliberal, adotada pelo governo federal, ainda tem apoio do poder econômico.

“O poder econômico, liderado pelos grandes empresários do país, elegeu Bolsonaro, mas se afastou dele. Eles viram que o povo brasileiro não é fascista. A burguesia quer encontrar uma saída pela direita, mas não encontraram uma alternativa”.

Ele voltou a criticar o tratamento dado pelo governo à pandemia. “Diante da pandemia do novo coronavírus, o governo priorizou a econômica, deixando a população à mercê da políticas assistencialistas”. O resultado disso são as 56.197 mortes por covid-19, confirmadas neste sábado (27).

Coalizão

Stédile lembrou que os trabalhadores e a classe média já abandonaram Bolsonaro. A partir disso, direções de de organizações populares, sindicais e políticas criaram a Campanha Nacional Fora Bolsonaro. “Se a gente quer salvar a população, precisamos trocar o governo e seu projeto de país”, explicou.

E classifica como “mentirosa” a criação de uma frente ampla ao lado de figuras como Sergio Moro e Fernando Henrique Cardoso. O líder popular acrescentou que algumas diretrizes foram adotadas pela campanha, que vão do apoio de base até manifestações.

“Vamos seguir com ações de solidariedade, porque num momento de crise isso é uma semente de novo projeto de sociedade. Também vamos estimular mobilizações simbólicas contra o Bolsonaro. A terceira coisa que combinamos é massificar as adesões aos pedidos de impeachment para pressionar o Rodrigo Maia. Por fim, dia 10 de julho queremos fazer um ato simbólico em mais de 100 cidades, seja na rua ou de casa”, afirmou.

Abandono à população

“Com um discurso que vai na contramão da ciência, Bolsonaro desmobilizou a população a cumprir quarentena. Ainda neste sábado, o Brasil chegou 1.280.335 casos confirmados de covid-19”, disse a médica e ativista Júlia Rocha, destacando que o “negacionismo” do governo é, na verdade, uma política liderada pelos grandes empresários.

Para ela, Bolsonaro não é negacionista. “Isso é fruto dos empresários obrigando os trabalhadores a se arriscarem. É a luta de classes. As ruas viraram fábricas ambulantes de casos, então o que adianta ampliar leitos de UTI? O impacto de uma política dessa é muito maior do que a capacidade de qualquer equipe médica”, criticou.

O médico e professor de Medicina da PUC-Campinas, Pedro Tourinho, lembrou que Bolsonaro diminuiu o vírus, prometeu uma falsa cura e ainda atacou as medidas de quarentena. “Por outro lado, a política covarde de Paulo Guedes impediu o Estado de fazer medidas de proteção econômica às empresas e aos trabalhadores. Sem dinheiro, a lógica do isolamento social não existiu“, lamentou.

Na avaliação do sociólogo e integrante da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Luiz Eduardo Batista, o impacto dessa falta de políticas econômicas que assegurassem a quarentena recai sobre a população mais pobre, principalmente a preta, . “Em tempos de pandemia, isso se agrava mais, já que a população negra tem menos acesso à saúde e saneamento básico”.

Cultura na linha de frente

A cultura também esteve na pauta dessa segunda live realizada pelo Comitê Lula Livre. Especialmente críticas à gestão da área pelo governo federal. Desde a eleição, Bolsonaro minou a cultura, com cortes de verbas, diversas mudanças na Secretaria de Cultura e precarizou órgãos responsáveis pelo setor. Semanas atrás, o ator Mario Frias foi nomeado chefe da pasta, substituindo Regina Duarte.

O ator Gregório Duviver não vislumbra bons horizontes até o fim do governo atual. Para ele, a pessoa que for indicada ao cargo entrará “para fazer um mau trabalho”.

“A cultura é setor combalido porque a arte e o ativismo são sinônimos. O artista consegue reunir pessoas em torno de uma narrativa, comover um país. Então o governo considera perigoso”, disse.

A atriz Lucélia Santos lembrou que a opressão aos artistas ocorre desde o governo Michel Temer, com a extinção do Ministério da Cultura. Entretanto, ela comemora a Lei Aldir Blanc, aprovada no Senado, que distribui um auxílio para os trabalhadores do setor cultural, durante a pandemia.

“Foi uma grande vitória, mas é preciso colocar em prática, porque os trabalhadores da arte estão no sufoco. Sobre a secretaria, não tenho expectativa alguma, por isso a nossa situação é bem complicada”, lamenta.

O mutirão

A live faz parte do Mutirão Digital Lula Livre, uma ação virtual que pretende dialogar com a população sobre os riscos à democracia, que vêm desde o golpe, com o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff e se aprofundam, atualmente, durante o governo Bolsonaro. Em meio a isso, a perseguição judicial ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que foi ilegalmente alijado da última disputa eleitoral.

A palavra de ordem é #AnulaSTF, para que o Supremo Tribunal Federal (STF) inicie o julgamento da suspeição do então juiz Sergio Moro. São inúmeros os indícios e provas, inclusive com diálogos publicados pelo The Intercept Brasil, que demonstram que a lei deturpada é usada como arma política para tentar afastar Lula da cena política brasileira.

A TVT e o Brasil de Fato participaram do mutirão, juntamente com outras mais de 70 páginas em transmissão simultânea.

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