Frentes de luta

‘Para salvar vidas e empregos’, movimentos ampliam pressão pelo Fora Bolsonaro

Em reunião nesta quarta-feira, representantes das Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo defendem frente ampla e sem vetos para organizar uma resposta à altura das crises sanitária, econômica e política

Marcos Corrêa/PR/Carolina Maria Ruy
Sem governo, mortes pelo coronavírus antecedem crise econômica sem precedente

São Paulo – Representantes de movimentos sociais que compõem as Frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo se reuniram em plenária virtual nesta quarta-feira (27), discutindo estratégias de mobilização para ampliar a pressão pelo “Fora Bolsonaro”, com o afastamento do presidente da República. A medida é considerada urgente, diante da resposta “caótica” do atual governo no combate à pandemia e seus efeitos econômicos.

A saída, segundo avaliação dos movimentos, passa pela unificação do campo popular e a construção de uma frente ampla, sem vetos. Citam o movimento pelas Diretas Já, na década de 1980, que contribuiu decisivamente para o fim da ditadura e o restabelecimento da normalidade democrática no país.

Com as manifestações nas ruas suspensas – em função das medidas de isolamento social –, os movimentos pretendem intensificar a mobilização virtual nas redes sociais. O objetivo é angariar o apoio de amplos setores da sociedade, aumentar o isolamento do bolsonarismo, e pressionar as instituições por uma saída democrática para a crise política.

Além das dezenas de pedidos de impeachment protocolados no Congresso Nacional, existe também a possibilidade de cassação da chapa Bolsonaro/Mourão pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Há ainda dois inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF), que investigam as milícias virtuais bolsonaristas e a tentativa de intromissão do presidente na Polícia Federal (PF) para salvar seus filhos e amigos.

Ação e reação

Ações de solidariedade também foram defendidas como forma de garantir a sobrevivência de grupos mais vulneráveis ameaçados pela fome e, de quebra, disputar “corações e mentes” dessas pessoas para que tomem consciência da necessidade de uma mudança política para resgatar o futuro do país.

Falando pelo MST, João Pedro Stédile apontou um “impasse” na correlação de forças, com a direita tradicional se distanciando de Bolsonaro, mas ainda sem um nome que unifique os seus interesses, ao mesmo tempo que tentam isolar os setores populares ligados aos movimentos sociais e ao PT. Já o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, mostrou que o presidente usa o desespero das pessoas em favor do seu projeto autoritário.

A secretária-geral da CUT, Carmen Foro, defendeu a ampliação do movimento #EleNão, reeditando a mobilização das mulheres contra Bolsonaro durante a campanha eleitoral, agora usando #ElesNão por se referir a todo o atual governo . “Não nos interessa cassar Bolsonaro e deixar Mourão.” Por sua vez, o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Iago Montalvão, ressaltou o êxito da mobilização virtual dos estudantes pelo adiamento do Enem como exemplo de ação virtual bem-sucedida para derrotar o governo.

Desgaste

Para Stédile, Bolsonaro está em processo de desgaste cada vez maior e se isola das forças organizadas da sociedade. Ele destacou os choques crescentes entre o presidente e o Supremo Tribunal Federal (STF), bem como com os governadores, até mesmo alguns antigos aliados. O que ainda mantém o atual governo, segundo ele, é a “tutela” dos militares.

“Cresce a indignação entre os mais pobres, a classe trabalhadora e amplos setores da sociedade. Já há sinais de uma insatisfação crescente. O Fora Bolsonaro já está pegando raiva. Não só é uma necessidade, como está se transformando numa indignação. É preciso trocar o governo para salvar vidas – e empregos”, afirmou.

Segundo o líder do MST, o país não está ainda sob um regime propriamente fascista porque Bolsonaro não tem projeto nacional nem apoio das massas. O que há é um método fascista de governar. “O que nos deixa perplexos é que, apesar de uma conjuntura tão difícil para eles, é impressionante como Bolsonaro não tem medo. Todo dia apronta uma. Demonstra vigor no método fascista de governar.”

Caos

Para Boulos, estamos “ao Deus dará”, diante da pandemia. “Não temos testagem em massa, não temos monitoramento epidemiológico. Não temos, sequer, recurso emergencial digno para a Saúde. O governo liberou até agora R$ 8 bilhões. É pouco mais de um terço do que a saúde perdeu com a emenda do teto de gastos nos últimos anos.”

Ele afirmou que, por trás da aparente falta de planejamento, está a aposta no caos. Além da explosão do número de mortes, no momento em que o Brasil se torna o epicentro da propagação da covid-19, as consequências econômicas serão “sem precedentes”. O cenário, segundo Boulos, deve incluir a elevação do desemprego para a casa dos 25 milhões, com a informalidade alcançado mais que o dobro disso. O risco é de uma convulsão social, quando a fome apertar em decorrência da falta de renda.

“Há possibilidade de violência generalizada e saque. É possível que a gente tenha um cenário de convulsão. Nossa avaliação é que Bolsonaro aposta verdadeiramente nisso.” Bolsonaro se aproveitaria dessa situação para decretar estado de sítio ou outras medidas de caráter autoritário, que representariam o “endurecimento” do regime.

#ElesNão

Carmen Foro aposta na luta coletiva para derrubar o governo. “Todos queremos ver a chapa de Bolsonaro cassada, com pressão na Justiça, no Congresso e nas redes. E que o povo decida o próximo presidente.” Ela destacou que o vídeo do presidente com seus ministros divulgado na semana passada demonstrou uma “reunião de horrores“. “Não é possível achar que alguém desse governo sirva para qualquer coisa. Eles não, porque esse governo não serve mais para a classe trabalhadora e para a sociedade brasileira.”

Defesa da vida

Segundo Montalvão, não há contradição entre a necessidade de priorizar a defesa da vida e, ao mesmo tempo, fazer a luta política pelo Fora Bolsonaro. “Como temos um governo que contribui para que a crise sanitária seja ainda pior, é necessário que ele seja retirado do caminho.”

Ele defendeu a aproximação dos setores populares com artistas e influenciadores digitais para amplificar a capacidade de diálogo com o conjunto da sociedade. Para o presidente da UNE, a divulgação do vídeo da reunião ministerial teve repercussão majoritariamente negativa nas redes sociais. Contudo, os bolsonaristas foram mais bem-sucedidos em propagar as palavras de ordem em defesa do presidente acuado. A saída é unificar o discurso.

“O adiamento do Enem foi uma vitória política, da mobilização popular, da juventude. Devemos ter como exemplo. Quando a gente consegue unificar a pauta e ampliar o diálogo, conseguimos ter vitórias efetivas”.