Entrevista

Bandeira de Mello: estamos assistindo à dissolução das instituições

Para o jurista, agressões ao STF e ameaças do clã Bolsonaro mostram que “estamos numa situação terrível, mas que é uma amostra do nosso estágio civilizatório”

Reprodução/Youtube - Júlio Nascimento/PR
Em Brasília, a crise sanitária, econômica e política do país ganha contornos dramáticos. "A internet põe a nu uma parte do mundo brasileiro que vivia submersa", diz Bandeira de Mello

São Paulo – A crise (sanitária, econômica e política) e as ameaças quase diárias às instituições e à democracia, por parte de Jair Bolsonaro e seu clã, quando confrontados por decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), por exemplo, revelam “a dissolução das instituições” do Brasil. “A partir do momento em que foi escolhido esse Bolsonaro, o Brasil escolheu esse caminho”, diz o jurista Celso Antônio Bandeira de Mello, um dos mais respeitados do país. “É um caminho lamentável, a decadência ostensiva, a falta de qualidade dos homens que aí estão, pessoas que nem sabem a língua portuguesa.”

Para o jurista, “estamos numa situação terrível, mas que é uma amostra do nosso estágio civilizatório”. “A gente vê na internet pessoas insultando, ameaçando o Supremo e os ministros do Supremo. Tudo isso é ridículo, mas é a nossa situação. Estamos muito longe de viver num Estado civilizado.”

Nesta quinta-feira (28), o ministro Edson Fachin, do STF, resolveu enviar ao plenário a análise que vai decidir pela suspensão ou não do inquérito das fake news, cujo relator é o ministro Alexandre de Moraes. O pedido foi feito pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, depois da operação da Polícia Federal (PF), com mandados de busca e apreensão, desencadeada na quarta-feira (27). Caberá ao presidente da Corte, Dias Toffoli, pautar o julgamento.

Na manhã de hoje, o presidente Jair Bolsonaro voltou a desafiar o STF e a própria operação da PF com palavras ofensivas e ameaças. “Obviamente ordens absurdas não se cumprem. E nós temos que botar um limite nessas questões”, afirmou. “Acabou, porra!”, exclamou. Disse ainda que tem as “armas da democracia”.

Já o filho Eduardo Bolsonaro disse que a ruptura “não é mais uma opinião de se, mas de quando”. Por outro lado, em entrevista ao blog de Andréia Sadi, do G1, o vice-presidente, Hamilton Mourão, desmentiu tanto a possibilidade de golpe como a ameaça do filho do presidente.

“Quem é que vai dar golpe? A turma não entendeu, não existe espaço no mundo para ações dessa natureza”, disse Mourão. Perguntado sobre a fala de Eduardo, o vice respondeu: “Me poupe. Ele é deputado, ele fala o que quiser”. E acrescentou: “Quem vai fechar Congresso? Fora de cogitação, não existe situação para isso”.

Para Bandeira de Mello, a “dolorosa” constatação de que o país vai demorar muito a ser um Estado civilizado é difícil de aceitar, mas é a realidade. “O que vou dizer diante disso tudo? Dizer que talvez eu tenha vivido além do meu tempo”, afirma.

A realidade do país, continua o jurista, é “horrível, dolorosa, é quase que insuportável”. O futuro não é previsível, nesse contexto. “O fundo do poço nunca chega. Para onde vamos nós?”

Leia a entrevista:

O que dizer sobre as mais novas ameaças de Eduardo e Jair Bolsonaro?

Eu acho que estamos tendo a dissolução das instituições. E que, a partir do momento em que foi escolhido esse Bolsonaro, o Brasil escolheu esse caminho. É um caminho lamentável, a decadência ostensiva, a falta de qualidade dos homens que aí estão, pessoas que nem sabem a língua portuguesa.

O ministro da Educação, que nem sabe falar português. Estamos na dissolução das instituições. Mas é uma solução que foi escolhida pelo povo brasileiro. Não foi um golpe, não foi nada. Então nós temos que reconhecer que o nosso estágio civilizatório não era de molde a ter uma democracia. Infelizmente não era.

Diante dessas declarações e disso que o senhor acaba de dizer, o que acha que vai acontecer?

Eu acho que não vai acontecer nada. Porque esse homem está no nível do povo brasileiro. E o povo brasileiro está nesse nível. É doloroso, é horrível, mas é verdade. O que se vai fazer?

Quando o senhor fala de dissolução das instituições, isso não significa que vai haver uma ruptura, como diz Eduardo Bolsonaro?

Sinceramente, eu acho improvável. Porque o povo brasileiro parece que aceita isso bem. Ele não recebe mal gente desse nível, dessa estirpe. Não reage. Isso prova que, infelizmente, o nosso Estado está numa dissolução, conscientemente. Isso é uma maneira de dizer, porque o povo não tem consciência. Se tivesse, para começar nunca teria escolhido esse homem para presidente.

Esse homem nunca escondeu nada de ninguém! Disse que era a favor da tortura. Um homem que se declara a favor da tortura, que elogia o maior torturador que o Brasil teve, deu um retrato de si. Isso causou algum impacto negativo? Não. Causou a sua eleição. É horrível dizer isso.

O que estou dizendo são coisas terríveis, dolorosas, decepcionantes, amargas. Eu sei disso, tenho consciência disso. Mas infelizmente essa é a verdade. Esse homem, com todos os defeitos dele, que ele confessou quando candidato, foi escolhido. Isso quer dizer que vai ficar assim.

E as pessoas democratas, como o senhor, nessa realidade?

Infelizmente essa é a realidade. Horrível, dolorosa, é quase que insuportável. Mas é isso. Veja essa tal reunião ministerial. É inacreditável. A gente vê na internet pessoas insultando, ameaçando o Supremo e os ministros do Supremo. Tudo isso é ridículo, mas é nossa situação.

Estamos muito longe de viver num Estado civilizado. Vai demorar para chegar lá. Essa é minha análise, dolorosa, claro. Eu digo tudo isso com uma tristeza, com um desgosto… Mas é que não quero me iludir mais. Chega.

Essa é a nossa situação. Dizer “ah, mas isso vai explodir”… Já deveria ter explodido há muito tempo, se fosse para explodir.

Explodir o quê?

O país já devia ter explodido. E não explodiu, não aconteceu nada.

O que o senhor diz do STF, do inquérito do Alexandre de Moraes e da ação da Polícia Federal ontem?

Acho que isso tudo não vai dar em nada. Já era pra ter dado há muito tempo, e com consequências seríssimas, e não deu em nada. Era para ter escandalizado o país. O país não se escandalizou. A imprensa não está escandalizada. Então, estamos numa situação terrível, mas que é uma amostra do nosso estágio civilizatório.

Nós vivemos num mundo em que há uma bipartição muito clara: pessoas que têm um certo nível mental e cultural e pessoas que não têm esse nível. As pessoas que não têm esse nível ascenderam, ao ponto de falarem publicamente coisas que em outros tempos nem ao menos se cogitaria que alguém pudesse falar. Mas falam.

Os nossos governantes…

Os nossos governantes têm um nível baixíssimo. A nossa língua supostamente devia ser de conhecimento, pelo menos da presumida elite. Não é. O que vou dizer diante disso tudo? Dizer que talvez eu tenha vivido além do meu tempo.

Eu sinto isso, que estou vivendo fora do meu tempo. Porque minhas opiniões, meus pontos de vista, tudo isso está muito em desacordo com o que vem acontecendo diante de nós, com tolerância geral. Olha os jornais, o que dizem, o que escrevem, o que contam. É incrível.

E com a vinda da internet, que a gente achava que ia ser um progresso… Ela põe a nu uma parte do mundo brasileiro que vivia submersa, e que a gente não sabia. E agora está a nu, essa é a nossa realidade. Qual é a solução? Sinceramente, eu não sei, porque acho que as coisas vêm se deteriorando cada vez mais.

O fundo do poço nunca chega…

Não chega o fundo. Exatamente, a sua frase é precisa. O fundo do poço nunca chega. Para onde vamos nós? Eu sei lá pra onde vamos nós.